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Caminito, a alma de La Boca

América do Sul Argentina

Em qualquer top de lugares imperdíveis de Buenos Aires, La Boca está lá. Por muito apertada que seja a malha. Tal como Caminito. Estamos num dos bairros mais típicos, ganhando raízes com a imigração, principalmente italiana. Certamente o mais turístico dos bairros, mas também um dos mais pobres. E onde o bairrismo está mais enraizado, com forte envolvimento comunitário. E nem falo da loucura do Boca Juniores, o clube que corre no mais íntimo das veias dos seus habitantes. É o que tem mais adeptos em toda a Argentina e os que têm maior fama de fanatismo. Maradona é o seu principal símbolo, embora o paradoxo de não ter encontrado uma só t-shirt do “Deus” argentino…
O River Plate também nasceu em La Boca, mas a grandeza e rivalidade dos dois clubes ‘transferiram-no’ para uma zona mais nobre da cidade, Belgrano. Representando mais a eliteporteña, enquanto o Boca é a alma dos operários.
Na verdade, Caminito é o que atrai as multidões. Pelo seu lado cultural – há pares de tango em cada esquina, como ganha-pão ou como isco da esplanada de um restaurante -, pelo mercado artesanal e cor. A mistura de tonalidades díspares e intensas dão vida à rua mundialmente famosa. Esta diversidade deveu-se ao facto de serem construídas pelos emigrantes italianos que utilizavam as tintas que sobravam dos trabalhos no porto. As suas casas –  ‘conventillos’ – são bastante pobres, sendo que muitas foram transformadas em pequenas lojas, cedendo à voracidade do turismo.
A fama chegou em 1950 quando um grupo de moradores, entre os quais o famoso pintor Boca Quinquela, decidiu restaurar um terreno onde passou linha de comboio, entretanto desativada. O pintor batizou a rua de “Caminito” pelo título do popular tango de 1926. Ao passeio foram-se somando doações de diferentes artistas e em 1959 Caminito foi transformado em museu a céu aberto. E sem portas.
As casas têm a particularidade de serem construídas com tábuas de madeira, placas e telhas de metal pintados com inúmeras cores. Várias adornadas com estátuas-caricatura das principais lendas argentinas, incluindo o atual Papa Francisco. Ainda assim, a trilogia Maradona-Evita-Gardel continua a imperar.
Todo o tipo de souvenires, pinturas, artesanato… podem ser encontrados aqui. Talvez não pelo mais competitivo preço da cidade. Daí que o mercado domingueiro de San Telmo…
Uma curiosidade que explica o sentimento destes habitantes: em 1882,La Bocaera habitada quase exclusivamente por imigrantes genoveses. Desentendimentos nas relações de trabalho motivaram uma greve geral. No transcurso da mesma, e como todos eram da mesma origem, declararamLa Bocacomo região autónoma. Até içaram a bandeira genovesa. Pensavam-na como a República de San Marino. De imediato o comunicaram ao rei Victor Manuel, da Itália, desejando o seu reconhecimento como uma nova nação.
Sim, La Boca é um Mundo à parte, mas… .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?