Mdina, a Medieval Silenciosa

Europa Malta

Viver cercado por muros imponentes e um majestoso portão de entrada lembra-nos as cidades fortificadas da idade média. Uma realidade de conto de fadas que é possível viver em Mdina, capital de Malta até Valetta assumir esse papel em 1570, nessa empreitada soberba e ousada da Ordem dos Cavaleiros de S. João.
Atualmente, este burgo que adorna o mais elevado planalto da ilha não tem sequer 300 habitantes. Donos e senhores de belos palácios, casas senhoriais e edifícios religiosos que remontam ao século XV.
Deambular pelos estreitos labirintos de Mdina é transportar-nos no tempo. Com uma fidelidade que poucas cidades europeias ainda conservam. Aqui, não nos limitamos a um pedaço de ruína que relembra o passado. Em Mdina vivemos uma experiência na qual podemos até explorar alguma da melhor arquitetura Normanda e Barroca de Malta.
Estamos bem no centro da ilha. No seu ponto mais alto. E ao fim da hora de viagem em transporte público desde Valetta a cidade apresenta-se naturalmente altiva. As suas muralhas são magnificentes e sobressaem o topo dos seus mais icónicos edifícios. Orgulhosa de si e venerada por verdes campos e a vizinha Rabat.
Prescindo de visita guiada, mesmo que as carretes puxadas por cavalos possam dar-nos outra perspetiva. Mdina é para sorver com tempo. Merece que nos dediquemos a cada detalhe da enormidade de interesse que o seu pequeno tamanho exibe. Outros turistas exploram a cidade, porém, nesta altura do ano, felizmente que em número bem mais… contido. Ao ponto de nos permitir muitos períodos de privacidade com a história.
Alguns cafés e restaurantes de charme. Uma ou outra loja de souvenires e produtos típicos. Tudo em número controlado e decente. Ajuda – e de que maneira – a manter o espírito e o encanto desta cidade medieval.
Não falta a catedral (infelizmente, paga-se para entrar na Catedral de S. Paulo, construída no século XI e reconstruídaem estilo Barroco em 1693, após ser destruída num terramoto) e apenas vejo um pequeno hotel entre muros. Cada esquina revela um segredo. E chegando lá apetece galgar, serenamente, o caminho até à próxima descoberta.
Os historiadores acreditam que os Fenícios andaram por cá desde 7.000 anos antes de Cristo, edificando já na altura a primeira muralha deste ponto estratégico na ilha. Romanos, Normandos (criaram a cidade nos moldes em que a vemos hoje), Árabes (recuaram e fortaleceram as muralhas, separando-a de Rabat) ergueram a cidade que entrou em declínio no início do século XVI, quando a capital foi mudada para Valetta. Ainda assim, a nobreza de Malta, descendente de senhores feudais normandos, sicilianos e espanhóis, continuou a viver em Mdina, um dos motivos pelos quais também é referida como ‘Citá Notabile’ (Cidade Nobre).
De vários dos cafés/restaurantes de charme, temos uma vista impressionante para o horizonte. Instalados em imperial planalto, o olhar alcança praticamente toda a ilha: natureza, vilarejos, cidades… e o mar Mediterrâneo. Privilegiada visão periférica que justifica ainda mais que nos delonguemos nesta viagem pelo tempo. No Fontanella gabam-se de terem a melhor vista de todo o país. Não estarão errados. Bacchus, Ciappetti, De Mondion, Medina Restaurant e Trattoria AD disputam a melhor comida.
O Palácio Falzon, também conhecido como Norman House (Casa Normanda), é um edifício de 1495 na rua Villegaignon que nos mostra como vivia a nobreza de Malta: permite-nos igualmente admirar singular coleção de arte, cerâmica, pintura, litografia, armas e outras antiguidades.
No largo St Publius Square, o Palácio Vilhena apresenta-se numa soberba porta esculpida e alberga o Museu de História Natural de Malta, que inclui, nas masmorras, instrumentos de tortura originais usados em Malta desde a Idade Média até ao início do século XIX.
A Experiência de Mdina (The Mdina Experience) é um espetáculo audiovisual que conta a história da antiga capital, ajudando a entender todo o seu esplendor.
Dizem-me que foi um dos cenários da Guerra dos Tronos: que representa o Porto Real, ou o King’s Landing, centro dos acontecimentos e onde fica o famoso trono de ferro, cobiçado por várias personagens. Há cinco anos e meio que não tenho TV… sou forçado a acreditar.
Há vários séculos, Mdina e Rabat estavam dentro das mesmas muralhas defensivas, mas foram separadas pelos Árabes. Rabat significa ‘subúrbios’, que é o atual papel desta mais moderna vizinha, ainda assim também com direito a interessante história e a justificar que nos delonguemos nas suas entranhas.
Para já, quero apenas sorver Mdina, esta envolvente cidade-museu ao ar livre, sustentada em estreitas calçadas, mosteiros, igrejas e palácios, abraçados por muralhas que as defendem do Mundo, garantindo invulgar sossego e tranquilidade. E é em silêncio que melhor posso homenagear este paraíso….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?