Palácio do Parlamento… ou a insanidade de Nicolae Ceauşescu

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20160425_173607O Mundo está pejado de imbecis nos mais altos cargos da esfera política, incluindo presidentes da República e Primeiros-Ministros. Este texto não trata da avaliação do seu trabalho, mas daqueles que, verdadeiramente alucinados, se julgam e agem como deuses. Esquecem que governam para e em nome do povo, antes fazendo deste mero combustível para as suas alucinações.
Um tal de Nicolae Ceauşescu entrou para a lista das aberrações deste planeta precisamente por isso. Tinha uma visão que apenas os seus familiares e bajuladores compreendiam, enquanto o resto do país penava como um dos mais miseráveis do Velho Continente.
A história conta que certa vez, ainda jovem, roubou uma mala que, por acaso, continha panfletos do partido Comunista. Foi, por isso, preso junto com outros membros do partido, na altura ilegal. Isso foi antes da II Guerra Mundial. Após a mesma, e com a Roménia a cair na alçada soviética, tudo mudou. Com ainda mais amigos,1101660318_400 foi secretário da União da Juventude Comunista, depois ministro da Agricultura, ministro-adjunto das forças armadas e ocupou a segunda posição na hierarquia do partido. Chegou à presidência em 1965 – o seu antecessor, faleceu – e só de lá saiu quando foi executado, em 1989.
Neste período teve a virtude de ter uma política independente, desafiando a supremacia da União Soviética no país, e fez da Roménia a primeira nação a cultivar relações oficiais com a União Europeia.
Por outro lado, inspirou a sua liderança no que aprendeu na Coreia do Norte e China. Impôs ao país o culto da sua personalidade. E, para pagar a dívida externa, ordenou que boa parte da produção agrícola e industrial fosse para exportar, o que deixou os seus compatriotas numa miséria extrema.
Quando em 1989 o seu regime colapsou abruptamente – começou com repressão mortal e sangrenta em Timisoara e acabou dias depois ao ter de abandonar um comício na capital quando foi apupado e questionado por milhares – fugiu da capital de helicóptero com athe-communist-palace-of-parliament-bucharest-romania1152_12922013322-tpfil02aw-17674 sua mulher, enquanto um ajudante apontava uma pistola à cabeça do piloto, que aterrou pouco depois a simular uma falha mecânica. Ceauşescu é capturado pelas forças armadas num bloqueio de estrada. Preso em base militar. Num pestanejar, julgado. E fuzilado. O genocídio de mais de 60 mil cidadãos é um dos muitos crimes pelos quais responde. A Roménia foi o único país do Bloco do Leste europeu com um fim violento do regime comunista.
Nos seus devaneios totalitários, costumava subir, de helicóptero, aos céus de Bucareste e, com a ponta do seu autoritário dedo, dizia o que desejava mudar e construir. Basicamente, ‘rasgava’ a cidade como bem lhe apetecia. Foi assim que 50.000 foram desalojados de uma colina para que aí nascesse o Palácio do Parlamento. Uma parte do centro histórico da capital deu lugar ao segundo maior edifício do planeta, a seguir ao pentágono. Um bairro inteiro, estádio, igrejas, conventos e sinagogas foram derrubados para dar espaço à visionária estrutura. Alguns edifícios foram salvos sendo… deslocados. Por criativo método no qual foram usados carris de comboio. Dez a 300 metros foi a amplitude das distâncias ‘percorridas’ por algumas igrejas para se salvar desta insanidade.
São 350.000 m2 onde o ditador queria centrar o poder político e administrativo do país. Não viveu o suficiente para estrear o que o livro Guinness dos Recordes classifica como o maior edifício administrativo civil do mundo (o Pentágono é o maior em termos absolutos) e o edifício administrativo mais caro e mais pesado do planeta.
Proliferam galerias de conferência, salões e outros espaços, usados para uma grande variedade de propósitos. Desfiles de moda, filmagens e casamentos – como a célebre ginasta Nadia Comăneci, com nove medalhas olímpicas, cinco delas de ouro… mais do que as quatro que Portugal tem no seu historial – fazem parte da história deste palácio. Por poucos milhares de euros, um dos luxuosos espaços pode ser alugado para qualquer evento privado.
É um edifício com 12 andares, 270 metros de comprimento e 245 metros de largura, 48 metros visíveis acima do solo e 15 metros escondidos abaixo. O desenho e construção do edifício envolveram 700 arquitetos e 20.000 trabalhadores. Apenas materiais romenos foram permitidos na construção, incluindo um milhão de metros cúbicos de mármore, 3.500 toneladas de cristal, 700.000 toneladas de aço e bronze, 900.000 metros cúbicos de madeira de 200.000 metros quadrados de tapeçarias. O resultado é uma construção gigantesca que se iguala às pirâmides de Gizé em termos de volume. Falamos de aproximadamente 1.000 quartos e incontáveis salões, corredores, escadarias monumentais…
A pequena parte aberta ao público – diz-nos o nosso caricato guia que apenas vimos cinco por cento do edifício – é luxuosamente decorada. Enormes lustres de cristal, mosaicos e brilhos de folhas de ouro e prata que até foram usados nas… cortinas.
Uma parte do palácio pode ser visitada pelo público, com visitas guiadas em romeno, inglês e alemão. E é assim que aproveito para saber um pouco mais desta loucura, em alguns pontos inacabada, por falta de verbas. As mesmas que escasseiam para a onerosa manutenção. Luxo e ostentação bem à vista de todos os que viviam na miséria e pobreza dos bairros das redondezas.
Celebridades internacionais não resistem à opulência do espaço e Michael Jackson deixou aqui a sua marca, quando, após uma conferência de imprensa, veio a uma varanda e gritou: “AMO-TE BUDAPESTE!!”. Esqueceu-se de que estava em BU… careste.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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