Bucareste: Medieval, Comunista & Francesa

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Europa Roménia

Esta é a melhor forma de explicar um pouco o que é a capital da Roménia. Uma mistura de estilos numa cidade marcada pela loucura do ditador Ceausescu que, ideologicamente incompatibilizado com uma soberba herança do passado, ‘modernizou’ a cidade com cinzento concreto e megalomanias inspiradas na Coreia do Norte e outros países sob a alçada do sentimento soviético. A essência medieval, acima de tudo nas obras de carácter religioso, entre igrejas e mosteiros.
Como quase todas as grandes cidades do planeta, Bucareste também teve os seus desejos parisienses, sendo disso exemplo vários palácios e o arco do triunfo, neste caso construído em 1935 para celebrar a reunificação do país, em 1918, nos férteis despojos da I Guerra Mundial, após a qual a Roménia praticamente duplicou de território.
O Museu George Enescu, a Pasajul Vilacrosse, o ateneu romano ou o hotel Capsa e arredores são exemplos da fina arquitetura gaulesa, um perfeito contraste com a ‘visão’ do ditador, com o ex-líbris do faustoso Palácio do Parlamento, apenas o segundo maior edifício do Mundo, a seguir ao Pentágono.
O teatro nacional, a sede da televisão romena, o parque Carol I e o mausoléu do soldado desconhecido, a praça Victorei ou a Press House, a ‘casa das mentiras’ que era a sede do ‘big brother’ que vigiava os romenos, são exemplos de duvidosa estética que Ceausescu deixou ao Mundo.
O ditador e a sua mulher Elena acabaram separados no além: partilham o mesmo cemitério de Ghencea – não lhes permitiram descanso eterno no sepulcrário que honra as principais figuras do país -, mas não ficaram propriamente juntos.
Os derradeiros dias do seu poder ficaram marcados pelo 21 de dezembro 1989 quando na praça da Universidade tanques esmagaram manifestantes e soldados dispararam indiscriminadamente sobre quem já não podia viver sob o domínio do ditador que governava com mão de ferro um povo levado aos limites da pobreza. Esta área, de crescente interesse turístico, é agora predileta para intelectuais e políticos. E dá rosto a uma Bucareste que, lentamente, se tem reinventado.
É interessante desenhar um plano e percorrer os edifícios de influência francesa, mas também os da obra mortal de Ceausescu, que não teve problemas em arrasar um bairro e desalojar 50.000 para dar lugar ao Palácio do Parlamento, nem destruir mosteiros e igrejas para a sua ‘avenida da vitória do socialismo’ que se espraia ao longo de infindáveis 3,5 quilómetros. E toda a destruição que a mesma provocou. O terramoto de 1977, que danificou muitas infraestruturas, e a visita à Coreia do Norte, onde viu enormes edifícios e avenidas imensas, talharam as manias de grandeza de Ceausescu.
Esta loucura teve o ‘condão’ de estimular a criatividade da engenharia civil romena, já que vários edifícios icónicos da cidade foram autenticamente transportados, mudando de local. Dez metros foi a empreitada mínima, enquanto a obra mais ‘viajada’ foi reinstalada a cerca de 300 metros do seu lugar original. Com a ajuda de carris.
A norte, o National Village é um dos mais antigos museus ao ar livre da Europa. São exemplos de casas, edifícios religiosos e estilos de vida trazidos de toda a Roménia. Uma boa forma de ver o país sem sair de Bucareste. No verão, artesãos dão vida ao cenário criado em 1936.
A uns 20 quilómetros de Bucareste, Snagov é onde Vlad Tepes, o ‘empalador’ (deu origem à história ficcionada do conde Drácula), passou os derradeiros dias. Um lago sereno, local privilegiado para piqueniques e banhos de sol.
A cidade velha – ou o que resta dela – está agora transformada no mais turístico dos lugares da capital, repleta de restaurantes, bares, night clubes e lojas de souvenires. A animação passa toda por aqui, pelo que optar por dormir na zona, como eu fiz, pode incomodar um dos muitos bares barulhentos até altas horas.
Bucareste está a conquistar o seu espaço no plano Europeu e justifica bem dois intensos dias de exploração. E, tal como o resto do país, tem a vantagem de ser barato para a bolsa média portuguesa.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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