AZERBAIJÃO: visitar o inimigo… e ser barrado na fronteira.

Azerbaijão Médio Oriente

2015. Sei dos riscos que corro ao tentar entrar no Azerbaijão.

 

Nos últimos dias são vários os alertas, de ‘autoridades’ lusas e de outros viajantes, mas não há tempo para planos B. C ou D. Tenho as malas prontas. As peças de antecipação a sair na linha da Lusa.  E embarco relaxado. Não tenho por hábito ‘sofrer’ por antecipação. A escala em Istambul é natural e nem o atraso do voo da madrugada para Baku mexe com o moral.
O Azerbaijão não é conhecido pela sua democracia exemplar. Bem pelo contrário. As regras de liberdade de imprensa também passam ao lado deste barril de petróleo. Tal como os direitos humanos. Que aqui devem ser escritos em ‘caixa baixa’, pois as maiúsculas são imediatamente esmagadas. Penso nos imensos pequenos poços de petróleo que avistei do ar, antes de aterrar, quando recebo sinal para avançar. Tenho duas mochilas e um tripé. A mala só depois.
Com o sorriso discreto da praxe e simpático aceno esgar de sobrancelha, entrego o passaporte. E espero. E continuo a esperar. Sem me impacientar, fixo a minha atenção e olhar no agente. Sorri. Não para mim, mas para a colega do lado. Nas filas ao lado, quem chega vai passando a vistoria. Momentos depois, percebo que está a mostrar à parceira um carimbo: Arménia. Ouço-o da sua surpreendida voz. A disputa militar com o vizinho por causa de Nagorno-Karabakh está longe de esquecida. Um dos ódios viscerais do planeta. Os semblantes perdem o sorriso irónico num ápice. O agente do serviço de fronteiras folheia o meu passaporte com o devido e extremo cuidado. Um esmerado zelo que agora petrifica com nova descoberta. A única que não se imagina ter: sim, o visto, de uma página inteira, de NAGORNO-KARABAKH. Uma região que nunca reconheceram ter perdido na guerra com a vizinha Arménia. Um visto trajado de intolerável ação de autonomia, mesmo que o Azerbaijão nada risque no território há umas duas décadas.
A sua forma de me olhar muda subitamente. A fisionomia carrega agora pinceladas de catastrófica tempestade. “O que é isto??”, questiona-me. Não levanta a voz, mas o seu olhar roça a ira. “Um visto”, respondo, com a naturalidade de quem não pode temer. “De KARABAKH!!”, atira, mal me deixando terminar a palavra. “Sim, parece que sim”, vou retorquindo. “Sabe o que isto significa?”, indaga. Fecha o passaporte, manda-me recuar na fila, que já não tem ninguém, e vai em passo apressado rumo a um qualquer gabinete.
Em dois minutos, aparecem três agentes que não me mostram um único dente. Muito menos amabilidade. Rodeiam-me, mas sem postura física agressiva. Querem saber porque fui a Nagorno-Karabakh e Arménia. “Sou jornalista. Viajo bastante. Vou para onde me mandam”, relevo. Sempre com ar e pose serenos. Porque é assim que me sinto. Não poderia ser de outra forma. E não sou virgem em problemas em fronteiras. Utilizo o jogo de Portugal na Arménia para justificar a minha visita ao país, em 2014. Preparar um trabalho sobre a seleção local. “E Nagorno-Karabakh??”. “Estava perto, aluguei carro e andei a explorar a região”, explico… Ligam para suposto superior hierárquico e afastam-se. Já não há ninguém a cruzar a alfândega e o burburinho espalha-se rápido. Todos abandonam os seus postos e improvisam reunião no hall.
A palavra proibida repete-se uma e outra vez: KARABAKH. Afinal, há pior do que ir à Arménia. Enquanto espero, um polícia olha-me com inimaginável revolta: “Sabe que eles mataram milhares de crianças azeris? Como é possível que lá tenha ido??”. Explico-lhe que há conflitos armados em todo o planeta. Não aprovo nenhum e não entendo a razão de ser de boa parte deles (o que não é o caso). E que não tomo partidos. Estou aqui para trabalhar. Apenas. A minha ‘inocência’ não cola.
Carlos, Sofia e Lídia esperam-me do outro lado. Os meus companheiros jornalistas estão apreensivos, diria. Interiormente, começo a pensar que isto tem significativa e progressiva margem para correr mal. Em terreno hostil, um único trunfo a meu favor. Será má publicidade para os I Jogos Europeus o regime barrar jornalistas à entrada, “apenas” porque estiveram em território inimigo. Não porque o apoiaram ou defenderam, mas porque estiveram lá. Apenas visitei ambos como o fiz com muitos outros. Aqui, isso não me serve de muito. O tempo passa. E agora são os meus colegas que começam a ser vítimas de excesso de zelo das autoridades. Já depois de terem passado o controlo, há um agente que lhes pede novamente o passaporte. Minuciosamente, uma página de cada vez. Não encontra qualquer ‘infração’.
O tempo de impasse prolonga-se o tempo suficiente para um outro agente se aproximar novamente deles. Sim, vai ser a terceira vistoria. Depois de alguém me perguntar se os outros jornalistas também foram comigo à Arménia e Karabakh. Acredito que estou no fio da navalha, mas nem por isso o otimismo me abandona. Para já, não tenho um problema. Se me barrarem a entrada, aí, sim, terei de agilizar a melhor forma de ganhar tempo. E vencer esta resistência. O impasse prolonga-se até que alguém, com óbvio forçado sorriso, me entrega o passaporte. E me deseja boa estada no Azerbaijão. Agradeço. Carimbam-me o passaporte e avanço, rumo à ‘liberdade’. Nos dias seguintes, sucedem-se relatos de jornalistas e ativistas de direitos humanos que, sob diversos pretextos, são impedidos de entrar no Azerbaijão…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?