Chisinau: a interessante ‘velha’ soviética

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Europa Moldávia

A capital e maior cidade da Moldávia não será dos destinos de turismo mais desejados, eu sei, mas o facto do país ter uma natureza que chega a ser deslumbrante aliado à  arquitetura estalinista (não falo dos enfadonhos blocos de betão) tornam-na um lugar obrigatório nestas latitudes. Merece ser vista, com atenção, pois os seus encantos – reais – não são óbvios.

À semelhança de toda a nação, seguramente das mais pobres da Europa, Chisinau não exibe riqueza ou soberba generalizadas – apenas localizadas, mas já lá vamos -, porém o seu legado histórico – não apenas soviético – tornam-na, aqui e ali, em museu a céu aberto. Com o agrado, pessoal, de ser uma das capitais mais arborizadas da Europa.

Ao contrário de muitas outras urbes do Leste do Velho Continente, Chisinau parece ter parado no tempo. O que me agrada particularmente. Estamos em 2016, mas é como se experienciasse um dia-a-dia que remonta há muitas décadas. Imagino que continuo na antiga URSS (União Soviética). Até no trajar de muitos moldavos… sendo que à noite tudo muda, com a luxúria a surgir do nada, em carros topo de gama de vidro fumado e ‘top models’ saindo não se sabe bem de onde.

Sim, aqui nota-se claramente a forte influência soviética. Na arquitetura e modo de vida. E sobra quem não fale a língua romena, expressando-se apenas em Russo. Na verdade, conhecendo muito bem todo o Leste Europeu (apenas não visitei a Bielorrússia), em poucos lugares como aqui, fora da Rússia, podemos saborear a vida desses tempos.

O seu ar cinzento? Delicioso. O Porto que me adotou tem beleza ímpar e não foge muito a estas tonalidades. Chisinau não tem a mesma ‘vida’, mas os seus habitantes parecem-me confortáveis com o ritmo do seu quotidiano. Claramente distinto entre a enérgica – e por vezes extravagante – juventude e gerações mais velhas.

As tradições continuam vincadas e assisto a uma procissão noturna em que esbeltas jovens desfilam ao lado de pais e avós. Sapatinho alto. Roupa curta. Minúscula, por vezes. Devoção antes da… diversão, numa cidade cujos principais pontos de interesse se confinam a uma zona pequena e fácil de explorar.

Chisinau foi devastada na II Guerra Mundial e regulares terramotos (fortes em 1940 e 1977) revelaram-se acrescido injusto castigo duplo. A forte política de russificação – o alfabeto latino foi substituído pelo cirílico e houve deportações em massa, ‘compensadas’ com a chegada de muitos russos – que se seguiu incluiu a reconstrução da cidade liderada pelo arquiteto Alexey Shchusev, que comandou uma vasta equipa.

O centro histórico é onde tudo acontece. Podemos começar pelo Arco do Triunfo, que celebra precisamente o êxito russo sobre os turcos-otomanos. Não tem o tamanho do original, em Paris, mas a obra do arquiteto Luca Zauşkevici (1840) está no centro de boa parte das referências mais interessantes da capital.

O Parque da Catedral é um bom lugar para relaxar e, como nome indica, tem um edifício religioso. Esbelto. A Catedral da Natividade, de estilo neoclássico, é a principal referência ortodoxa no país. Quando parcialmente destruída na guerra, chegou a ser adaptada a um pequeno centro de exposições. Recuperou o esplendor e as funções em 1997.

Esta zona é onde decorrem boa parte das celebrações na cidade, sejam ou não de cariz religioso. Até concertos… Regularmente, a principal avenida da cidade é fechada e o parque transforma-se em amplo espaço de lazer. Um parque com oito entradas, adornadas com grande diversidade de flora.

Progressivamente, surgem contrastes que chegam a chocar. Lado a lado com evidentes dificuldades económicas, carros de luxo, as mais caras cadeias de lojas internacionais e restaurantes para uma clara minoria. Espelham as desigualdades sociais, nas quais os mais poderosos parecem fazer questão de as sublinhar, desafiando, clara e impunemente, a lei: o estacionamento em qualquer lugar e perigosas manobras de condução são apenas o exemplo mais visível.

Tudo nas barbas de Stefan cel Mare, o Grande, um rei que desde há 500 anos é uma referências nestas terras, que foram mudando de senhor, face a instáveis interesses geopolíticos. A sua estátua foi alterando de local, mas agora voltou ao original, no parque central com o seu nome. Ótimo para passear, descansar ou apenas ler um bom livro. A um quilómetro, o lago Valea Morilor. Um espaço bem mais amplo, igualmente com natureza, embora sem a mesma beleza.

O animado mercado central, os diversos museus, a igreja de todos os santos (os edifícios religiosos são, por norma, bem mais modestos na aparência do que no seu interior), o memorial judeu, o parlamento ou palácio presidencial valem uma visita.

Chisinau é barata. A estadia, os transportes, comida e bebida são perfeitamente acessíveis. E o país, acreditem, é de uma ruralidade encantadora. A Moldávia está a ‘agarrar-me’. Dêem-lhe essa oportunidade.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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