Soroca: capital cigana… rendida ao seu forte

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Europa Moldávia

Mais belo do que Soroca, certamente o caminho de cerca de 150 quilómetros de Chisinau rumo ao norte e que nos leva a esta cidade nas margens do rio Dniestre, bem perto da fronteira com a Ucrânia.

Sempre em amplo espaço rural, o amarelo domina a paisagem, em contraste com espessos verdes e um azul de um céu saudável que nos dá as boas-vindas. E acompanha o nosso périplo.

Soroca é a capital cigana da Moldávia, mas é popular entre os visitantes pelo belo e imponente forte, que originalmente era de madeira (Stefan cel Mare construiu-o em 1499) sobre uma antiga fortaleza genovesa, e que entre 1543 e 1546 foi reconstruido em pedra, como um círculo perfeito com cinco bastiões.

Hoje é domingo e está fechado. Não quero acreditar. Bom que o destino protege os audazes. Há um professor de história que, de alguma forma, tem as chaves da fortaleza. E convida um numeroso grupo de ‘amigos’ a entrar. Um bom radar português está sempre atento e é assim que nos misturámos na enxurrada.

A indicação, em audível inglês, de que o castelo estará aberto apenas 15 minutos, soa-me a recado para mim, Sandra e Daniel. Tranquilamente. O tempo no qual o explorámos, mais de meia hora, serve perfeitamente para os intentos. Apreciar a bela estrutura e a vasta paisagem, de montanha para norte e o vale do rio… onde uma grande ‘jangada’ vai transportando, pachorrentamente, carros de uma margem para a outra.

O museu de história e etnografia, que ajuda Soroca a ser uma referência cultural e histórica da Moldávia, não nos dá a mesma benesse, e permanece fechado. Pena.

No século XIX, a prosperidade chegou a Soroca em forma de praças grandes, ruas modernizadas, hospitais e escolas, além das igrejas. Isto juntamente com a produção de uvas, trigo, milho e tabaco. O posterior período soviético acrescentou-lhe o lado industrial. O que sobra?

Bom, para almoçar, muito pouco. É domingo e percorremos, a pé, toda a cidade. À falta de interlocutores em inglês, os universais gestos de ‘quero comer’ não trazem muita informação. Muitos encolher de ombros. Até que, uma hora depois, e já em débil desespero, o milagre em forma de cafezinho que tem umas deliciosas (face às circunstâncias) pizzas congeladas. Numa primeira fase, saciam-nos. Elogiámos o sensaborão pão e a amostra de ingredientes, que faz com que todas pareçam o mesmo. Depois, quando o cérebro pensa que estamos, finalmente, bem, o estomago dar-nos-á conta da sua insatisfação.

Hoje as famílias reúnem-se junto ao rio e, principalmente, em torno de uma rudimentar feira-popular. Na verdade, tudo me lembra a infância. Até o material com que as diversões são feitas parece dos idos anos 70, do século passado. A música também ecoa aos berros. Toda a gente traja a fatiota dos domingos, neste caso em tons menos leves, bem típicos desta Europa de Leste.

A saída de Soroca é pela zona alta, onde é mais claro o domingo cigano. Casas opulentas, grades altas, ruas por asfaltar. A decoração não é o meu estilo, nem a música que jorra de uma garagem. Espreitamos, cá de fora, mas o nosso olhar não traz sorrisos de volta. O tráfico de droga e de armas é o modo de enriquecimento de muita gente por estas bandas. Melhor continuar a jornada noutras latitudes…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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