BENDER: é o forte que te coloca no ‘mapa’

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Europa Moldávia

Passado o ‘filme’ de cruzar a fronteira, um outro em forma de celebração religiosa. Não. Nada de errado se passa. Apenas a surpresa de nos depararmos com os devotos em cuidados rituais ortodoxos.

Extravasam o perímetro da igreja. Há crianças que são levantadas para que o líder religioso as abençoe. Há cânticos. E muitos olhares de fé intensa. Estamos em Bender. Entrando na Transnístria, não há como a evitar. Oriundos de Chisinau, capital da Moldávia, não temos alternativa a esta cidade, também nas margens do Rio Dniestre. Bender é nome otomano, que persiste: este burgo já se chamou Tighina no século XV (1408), altura dos primeiros registos da sua existência.

O que aqui se destaca? Claramente, a fortaleza. Que, como todas, nasceu para proteger. Arquitetura medieval turca de 1500. Oito torres persistem na infraestrutura que já acolheu mesquitas e banhos turcos. Sempre houve quem se soubesse tratar bem…

Chegar aqui pode não ser óbvio, mas mais confuso é tratar do bilhete. Há um edifício de conotação – e decoração – claramente soviética. Dentro, um soldado semi-dormente numa minúscula caserna interior que antecede a entrada para uma sala, que mais parece de uma casa particular. Não nos entendemos numa só palavra, mas o dinheiro é linguagem universal. Não temos rublos da Transnístria, porém o dinheiro moldavo serve perfeitamente. Principalmente se a espaçosa funcionária que nos atende fizer um câmbio “à maneira”, que lhe permita ter o dia mais do que ganho. Não aparenta demasiada vontade de trabalhar… e assim continuará quando a deixámos.

Hoje em dia, o forte de Bender alberga um pequeno, mas interessante museu. Com artefactos encontrados na região e uma miniatura ‘grandinha’ do forte. A perspetiva muda de imediato. Há igualmente uma câmara de tortura medieval. Modesta, porem bem explicita quanto aos bárbaros horrores de aqueles tempos. No fim, uma loja de souvenires.

Interessam-me mais as catapultas exteriores e, do alto das muralhas, imaginar até onde podiam alcançar. Os muros da fortaleza já não são totalmente de fiar, mas nem por isso somos impedidos de circular por onde a vontade dita. Subir a torre melhora as vistas. Significativamente. Felizmente, não estamos no centro da cidade…

Ao lado há uma igreja. Alexander Nevsky fica a uma centena de metros e tem o mesmo ar pacato. Um soldado partilha farnel com a mãe em banco de jardim em frente à entrada principal. Gosto desta calmaria. É um ritmo que faz a informação penetrar mais densamente na pele. Dentro da Nevsky, o ortodoxo é moderado. A ponto de poder apreciar a sua arte e decoração. A catedral da Transfiguração, já no centro do burgo, justifica igualmente a visita.  

Bender está no mapa também pelo cemitério que reúne demasiados soldados de diversos países. Uns pereceram na II Guerra Mundial, outros no Afeganistão e há os da guerra que em 1991 ditou a ‘independência’ (??) deste território da Moldávia, e que existe à revelia das leis e organismos internacionais. O lugar tem, por isso, grande valor patriótico. Tal como a evocação do ministro imperial russo Potemkin, que recuperou o território aos otomanos, e aqui é recordado em forma de estátua.

Agora a mente foca-se em Tiraspol, a suposta ‘capital’ da Transnístria. Quero ver quer com que tipo de comunismo vou ser surpreendido.

 

 

 

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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