O Mundo (sufocante) das ‘mulheres-girafa’

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Ásia Birmânia Tailândia

Em 2007, quando as vi pela primeira vez, o incómodo prevaleceu ao espanto. Nunca tinha visto um zoológico humano. Esta etnia fugia da perseguição de que era alvo pelo brutal regime militar birmanês e tinha-se instalado nas montanhas das zonas fronteiriças da vizinha Tailândia.

Este turístico país rapidamente tornou estas mulheres num filão económico, explorando a sua desgraça. Na verdade, não cumpre os regulamentos da ONU quanto a refugiados. E os Kayan (Padaung) são proibidos de sair das áreas demarcadas pelo governo, não podem trabalhar senão na sua ‘arte turística’ e está-lhe vedado o acesso à escola. Não estão legalizados, pelo que sair das pequenas aldeias às quais estão confinados dá direito a prisão. Total desrespeito dos direitos humanos. “Os meus sonhos de vida? Conhecer o Mundo, aprender computadores e ter uma família calorosa”. Estas palavras de Maja, proferidas em 2007, com o mais inocente e belo dos sorrisos, ainda ecoam na minha mente. Ao longo de mais de meia hora, num surpreendente ‘arranhar’ do inglês, “aprendido com os turistas”, fico a conhecer a saga desta etnia perseguida no seu próprio país e escravizada nos vizinhos tailandeses que a acolhem. Com a comunidade internacional mais empenhada em manter o circo do que em proporcionar-lhe as condições para uma vida digna. As aldeias não têm eletricidade ou água corrente. Elas dedicam-se à tecelagem, cultivam arroz, recolhem mel e vivem do turismo, preservando, na medida do possível, o seu modo de vida milenar. Juntamente com as crianças, vendem lembranças e deixam-se fotografar, cumprindo o desejo dos visitantes. Os homens estão no campo. Sabia que encontraria mulheres-girafa no Lago Inle, porém estou bem frustrado pelo facto de nenhuma das três com quem vou lidar falar inglês. Tenho um milhão de perguntas para lhes colocar. E não quero saber delas através da versão de outros, que nada têm a ver com o seu sentir. Duas jovens, sentadas num tear. Uma idosa, em trabalho mais leve. Espanta-me a imbecilidade dos visitantes que chegam e logo lhes encostam a máquina ao rosto. Sem um sorriso, um esgar de testa ou uma aproximação gentil. Como se de um objeto se tratassem. Um após outro nesta atroz indiferença pelo sentimento alheio. Apenas consigo comunicar por gestos. E sinto que a frustração das duas jovens em não podermos dialogar não é menor do que a minha. Socorro-me da sensibilidade de Patrícia. Dá-me um dos muitos postais de Portugal que trouxe para a Birmânia, que vai deixando aqui e ali com mensagens apropriadas ao momento. Rabisco umas palavras… que alguém lhes traduzirá. Se algum dia vierem a saber inglês e tiverem acesso online, quem sabe não me proporcionarão uma daquelas surpresas de uma vida? Fico ali, sentado a seu lado, no alpendre anexo ao lugar onde trabalham. Aprecio o seu ar dócil, gentil. Na verdade, mal podem labutar. A cada segundo alguém chega e ‘exige’ um sorriso para a foto. Que não é negado. Sempre com serenidade exterior. Gostaria de ‘ver’ o que lhes vai por dentro. Não imagino pior vida do que esta… Pego na espiral de cobre com que vão presenteando o pescoço. Um peso que não desejaria carregar por um único dia. As peças chegam a pesar 10 quilos. Elas começam aos cinco anos, ganhando o primeiro aro com o qual ornamentam o pescoço. Depois vão juntando um atrás do outro até ao aspeto que lhes dá o nome pelo qual são conhecidas. Na verdade, o pescoço não é alongado. Há, ao invés, ossos ‘afundados’ e, daí, a sensação. E não, não morrem se tirarem os aros. Apenas perdem o seu ganha-pão. O que a nós custa, em forma de choque cultural, aqui é apenas o dia-a-dia. Não sei se há uma verdadeira frustração das limitações de vida. Se há essa consciência e até que ponto dói. Abandono o lugar com a paz interior beliscada. O quotidiano vai tratando de a repor. Saio e o caudal do lago é menor. Há uma rapariga e dois jovens a jogar futebol. No canal, com água entre os tornozelos e os joelhos. A vida devolve-nos cenas de inocente beleza…

 

 

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

23 comments

    1. Rui Batista Post author

      Assim é, Débora. Cabe a TODOS NÓS fazer com a situação se altere. Quanto mais não seja, com um “turismo” mais consciente e menos egoísta. Devemos ajudar, mas não contribuir para manter situações anti-natura em termos humanos. Boas viagens!

  1. Luciana

    Nossa, fiquei um pouco chocada! Acho que precisamos ser turistas conscientes como vc comenta acima, não pode ser normal isso!!! Obrigada por compartilhar esse tipo de informação 🙂

  2. Fernanda Souza

    Rui, concordo contigo sobre o filão explorando a desgraça dessas mulheres. Esses tempos até escrevi um post sobre lugares que me arrependi de ter ido e visitar a vila da tribo das mulheres-girafa foi um deles. Saí super mal de lá. É como você disse “com a comunidade internacional mais empenhada em manter o circo do que em proporcionar-lhe as condições para uma vida digna”.

    1. Rui Batista Post author

      Fernanda Souza, é isso mesmo. Olha, e gostava de ler esse teu texto. Podes partilhá-lo comigo, por favor? Beijinho e obrigado pelo interesse.

  3. Martinha Andersen

    Triste realidade de um mundo capitalista. Dá muita pena ver essas mulheres. Dá para ver pelo olhar que elas não estão felizes. Como você bem disse : zoológico humano 🙁
    Obrigada por partilhar essa informação, assim mais e mais pessoas ficarão cientes desta “escravidão”.

  4. Karine Porto

    Excelente reflexão! Precisamos repensar nossa maneira de lidar com esse tipo de exploração humana no turismo. Conhecer a história por traz das protagonistas dessa história é um bom começo! Obrigada por compartilhar!!

    1. Rui Batista Post author

      Karine Porto, infelizmente, para muita gente, a “foto para o fb” vale “tudo”. Mas não pode. Algo mais de sensibilidade apenas ajuda a tornar o Mundo melhor e a criar laços mais sólidos e verdadeiros entre as pessoas, mesmo em encontros fugazes, em viagem.

  5. Mariana Araújo

    Excelente texto, que nos ajuda a refletir bastante, a sermos viajantes mais conscientes. Não conhecia a história desse povo, só mesmo por fotos, o que também nunca me deixou com uma boa sensação.

    1. Rui Batista Post author

      Mariana Araújo, há bonitas histórias dentro desta triste história. Sei que não é um post ‘bonitinho’, como todos gostam de ler sobre viagens, mas a minha ‘revolta interior’ obrigou-me a descrever o que vi e senti. Obrigado e beijinho

  6. Itamar Japa

    Nossa, de todas as milhares de fotos e imagens que vi, jamais poderia imaginar uma história tão triste. Realmente não sabia das condições destas pessoas e fiquei bem triste! Já senti este sentimento algumas vezes, uma delas foi em Foz do Iguaçu, com uma tribo indígena, onde as pessoas agiam da mesma forma, fotografando os pobres indígenas como se fossem bichos. Lamentavelmente as pessoas não a sensibilidade de perceber a situação do ser humano a sua frente. 🙁

    1. Rui Batista Post author

      Itamar Japa… experienciámos algo em comum. Tal como tu, espero não assistir a muitos mais ‘circos’ destes. Grande abraço!

  7. Caio

    Muito triste qualquer tipo de turismo que tenha como base a exploração de pessoas ou animais. Sou totalmente contra. Em novembro estarei de volta a Chiang Mai e busco um passeio até Chiang Rai que não passe pela aldeia, todos que já vi até agora passam. Não gostaria de fazer parte da exploração dessas mulheres.

    1. Rui Batista Post author

      Caio, ‘estamos juntos’ nessa ambição. Nada como dar o exemplo. Grande abraço e boa viagem!

  8. Pedro Henriques

    Já tive a experiência de conviver com as mulheres girafa na Tailândia e a sensação com que ficamos é de um grande estranheza. Por um lado, esta exploração “sufocante” que mais parece um zoo humano, e por outro, a necessidade que estas mulheres têm de garantir a sua sobrevivência…complicado.

    1. Rui Batista Post author

      É isso mesmo, Pedro Henriques. Uma duplicidade de sentimentos. Pelo menos, devemos ter o cuidado de nao as tratarmos como “objetos raros” de um estranho circo. E tentarmos conhecer, mais profudamente, a sua realidade. Abraço!

  9. Luiz Jr. Fernandes

    Já pode respirar?! Nossa e põe sufocante nisso né não?! eu já vi muitas coisas estranhas no mundo, mas sem dúvidas uma das que mais assustam é a coragem que essas mulheres tem para modificar seus corpos dessa maneira. Post bem bacana, abraços!

    1. Rui Batista Post author

      Luiz, as crenças e tradiçoes de um povo sao poderosissimas… Acreditam mesmo que ficam mais belas assim. O problema e o “circo” em torno de tudo isto… abraço!

    1. Rui Batista Post author

      É mesmo isso, Filipe. Infelizmente, experienciamos algo semelhante que a ambos incomodou. Que estes pequenos alertas, em forma de texto, possam despertar outras mentes para atitudes mais conscientes. Abraço!

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