“Olá”, diz-me a Morte. E vai embora…

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Ásia Laos

Os olhos fecham-se e tudo surge mais claro do que nunca. Em invulgar ‘HD’, revejo com inédita nitidez cada minuto desta intensa e marcante jornada. Os detalhes desfilam com toda a cor e textura pela minha surpresa memória. E reescrevo, em tinta fiel, os pontos fulcrais deste dia. Aquele que esteve para ser o último da minha vida. O derradeiro suspiro…

É todo um reboliço que me impede de dormir. A noite avança e há um engarrafamento de sensações que se apoderam de mim. Impossível ‘desligar’. A hora de ponta não parece que vá amainar…

Penso em acender a luz. Tomar notas. Registar tudinho, para que nenhum pormenor me fuja. Mas está tudo tão impressionantemente nítido na mente, que me sobram as certezas de que esta não me trairá pela manhã. Impossível…

Estou incrédulo, confesso: até hoje, jamais experienciei qualquer tipo de droga (independentemente da sua ‘leveza’), mas imagino que a adrenalina que vertiginosamente me assombra o corpo está a ter o mesmo efeito de um qualquer estupefaciente. No escuro, vejo cada palavra. Na penumbra, situo cada vírgula. Altero cada ponto. Nas trevas rabisco frases. Troco parágrafos inteiros. Brinco com a escrita como nunca o fiz. Um autêntico jogo de computador. Habito numa dimensão jamais vivida. Uma ilusão que parece eterna… até desperta da forma mais dramática. 

Agora, percebo bem os poderes da adrenalina. Tudo o que conseguem. E como se esvaem após boas horas de sono. Acordo julgando que tenho estimulantes linhas para contar. Bastando que a caneta siga as claras instruções do cérebro. Choque: este acorda vazio de ‘magia’. Tudo o que fervilhava no seu interior, esvai-se. Os inúmeros pormenores para um texto arrebatador, esfumam-se. Assim, sem mais nem menos. Como uma onda que apaga um coração de embeiçado amor desenhado na areia…

Viajo no Laos. Na inolvidável Luang Prabang. Primeira década do novo milénio. O país abriu-se ao turismo apenas muito recentemente. Saboreio uma cidade Património Mundial da UNESCO digna de um romance histórico, tranquila e vocacionada para experiencias sublimes. Para inícios e fins da ‘linha’.

Estamos na natureza. Uns quantos quilómetros longe da civilização. Após manhã de deleite na paradisíaca cachoeira Kuang Si, seguida de visita a projeto de conservação e preservação de elefantes, a tarde é dedicada à exploração de novos horizontes, em contemplativa descida de rio em caiaque. Nam Xeung é normalmente sereno. As suas águas correm tranquilas… salvo algumas exceções.

O grupo não é grande. Dois guias e uns oito aventureiros. Nos quais se destacam duas inglesas. Baixinhas – a rondar redondo metro e meio – e ambas superando os 100 quilos no dorso. Contra a minha sugestão, juntam-se em K2, um caiaque para dois lugares, tal como aquele que me leva e ao Zé Luís, companheiro de muitas jornadas pelo planeta. O Laos ainda gatinha quanto à definição do caminho turístico que pretende seguir e a (não) aplicação das normas de segurança em atividades de aventura são um exemplo perfeito de tudo o que continua a ser preciso construir. 

Em breve, os diferentes níveis de experiência dos canoístas ‘partem’ o grupo. Há quem tenha mais pressa e cedo desapareça no horizonte. E os que, sem pressa de chegar, simplesmente desejam usufruir da quente luz e dos envolventes verdades da bela paisagem. Opto por este ritmo.

O sol aquece… e convida-me a tirar o mal-amanhado colete salva-vidas. Tudo sereno. O monitor nada diz e, afinal, as águas deslizam ainda mais lentamente do que os meus pensamentos…

Um par de horas depois, com o grupo ainda fraturado, boa parte do mesmo já sem contacto visual, olho para trás e aflijo-me. As duas inglesas viraram. Já não navegam em águas tranquilas. Estão uns 100 metros atrás de nós. Só vejo as suas cabeças e o K2 por trás. A pressioná-las? Estão aflitas? Em sérias dificuldades? Podem afogar? Não sei. Estou muito longe. Demasiado distante. Tal como o segundo guia. Em vez de fechar o grupo, como evidente medida de segurança, vai relaxado e ausente, uns 50 metros à frente da dupla. O som da natureza faz-se notar e, tão distante, não me permite perceber se há pedidos de auxílio…

Percebendo o real perigo de afogamento, de imediato levanto os braços. Grito. Gesticulo. Volto a usar a plenitude dos meus pulmões. Tento chamar a atenção do monitor. Insisto uma e outra vez. Sem reação. Pagaia serenamente, completamente alheado ao ambiente, refém num qualquer mundo autista. Até que a sua hesitante cabeça levanta… Mudo os gestos, esforço-me para que perceba que atrás vem gente. Em sarilhos. Os seus sinais de alerta afiguram-se-me insuficientes para o retirar este estado dormente. Certamente não consegue ler-me as feições. Traduzem preocupação, ansiedade e ‘raiva’. Demora uma eternidade a virar-se. E entender que a situação é feia…

“MERDDDDDD…!!!!”, grita o Zé Luís, interrompido pelo seu abrupto ‘voo’ rumo ao desconhecido.

Splashhhhhh…!!

(…)

(Grgggrrrggggggg… Gggrrrghghghghghggghh…)

A vida começa a desfilar-me pela cabeça. Num turbilhão de incompreensão, as memórias encavalitam-se na minha mente. Desamparado e sem qualquer controle sobre o meu destino, luto por perceber o que se passa. Submerso na inesperada fúria do Nam Xeung, tento, em vão, vir à superfície. E há uma pergunta que se repete sem fime: “Então, é isto? A vida pode acabar assim??”.

Atabalhoadamente, tento regressar à tona, mas as águas arrastam-me para o fundo. O corpo vira-se e revira-se. Uma e outra vez. Vai batendo em pedras. Rodopio. Espirais de descontrolado desespero…

(gggrrrggggrrrrgggg … ghghghhh – segundos são eternidade – ggggrrrrggggg).

Pernas e braços tentam levar-me a algum lado. Aflito, procuro AR. E manter a boca fechada. O ambiente é hostil e prevalece a desorientação. Engulo água enquanto o corpo tenta responder à minha desnorteada angústia. Os súbitos e inesperados rápidos nos quais fui embrulhado não querem saber disso…

Desistir não é opção. Enquanto entes queridos se instalam na cabeça, só penso em vir à tona e tentar respirar, mas sinto as forças a trair-me. Esvaem-se na minha impotência…

 

(…)

De forma abrupta, tudo o que assim começou – no meio do rio, o nosso K2 embateu numa rocha que marca o início dos rápidos, catapultando-me, impreparado e desprotegido, para a forte corrente – também assim termina. A corrente serena. Soa-me a milagre. Cambaleante e a tremer, consigo chegar a zona com pé. Sofregamente, tento respirar. Mecanicamente, procuro embriagar-me de ar. Curvado, arfo freneticamente para que este não me volte a faltar…

A tranquilidade não chega a instalar-se no meu espírito. Não encontro o Zé Luís. É franzino. Com menos forças do que eu para contrariar esta rude e traiçoeira natureza.

O meu olhar perscruta todo o horizonte. Varre o denso cenário de um lado para o outro. Grito pelo seu nome. Rodopio. Questiono-me o que se terá passado. Tento perceber algo de anormal nas margens. Um sinal nas águas revoltas. E nas calmas que a jusante seguem o seu curso. Volto a gritar! Nada…

A serenidade não abunda. Uma montanha russa de sensações: pânico. Medo. Esperança. Alívio. Nova angústia, sofreguidão… “Isto não está a acontecer”, repito para mim mesmo.

Começo a desesperar… até que vejo um vulto deslizar sobre a espuma dos rápidos. Vai-se aproximando. É figura humana. José vem deitado. Colete salva-vidas colocado e apertado… ao contrário de mim. Flutua em parte mais serena do rio. Aproximo-me, apanho-o e puxo-o para a margem.

“Estávamos preocupados com as inglesas e quando olhei para a frente estávamos a bater em cheio numa rocha. Dei uma cambalhota e caí do lado oposto, que me protegeu da forte corrente. Milagrosamente, fiquei em pé, em local seguro. Perdi-te o rastro… nem te vi desaparecer. Verifiquei que era impossível alguém me vir buscar. Não tinha alternativa. Tentei ganhar coragem e atirei-me na zona que me parecia ser menos revoltada. E aqui estou”, diz-me, com (agora) despreocupado sorriso. “Foi complicado contigo?”, questiona.

Solto nervosa gargalhada. Estou emocionado e respondo-lhe com um abraço. Forte. “Isso agora não interessa, companheiro. Estamos ambos bem”.

Encontrarei uma bota de caminhada a uns 300 metros do incidente. A outra, que também não estava nos meus pés, percorreu um bom par de quilómetros. As britânicas optaram, sabiamente, por contornar as dificuldades. Seguiram por terra até águas calmas.

Voltámos ao K2. Permanecemos algo atónitos. Pelo menos eu, confesso. A tempo de ajudar, mais do que uma vez, a pesada dupla, agora em barcos separados. A aventura terminará já com a lua refletida em águas estranhamente serenas…

A adrenalina entranhou-se em cada poro. Foram horas neste estado. É sensação estranha. E não a consigo despir. É (ainda) ela quem, horas mais tarde, já na cama, me faz sentir que todos os detalhes estão devidamente claros e enraizados na minha mente. Nada preciso escrever agora. Amanhã é outro dia. E tudo é denso em mim. Todos os meus sentidos têm demasiada história a acrescentar a este dia. Aquele em que a morte me sorriu, mas, sem que eu ainda saiba como, desviou o seu rumo, desencontrando-me…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

21 comments

  1. Lidia Saragaco

    Gostei muito, mesmo muito deste seu relato. Senti a adrelanina como se tivesse sido sua companheira nesta aventura com final feliz!

    1. Rui Batista Post author

      🙂 Obrigado, companheiro! Guilherme, o teu projeto é, igualmente, SUPER INTERESSANTE!! Grande abraço!

    1. Rui Batista Post author

      Eliana Pereira, sim, complicado. Mas, como em tudo na vida, o que corre mal…pode correr muito bem: ficou uma excelente história 🙂 Beijinho e boas viagens…

  2. Fernanda Souza

    Eu me afoguei quando era criança. Até hoje tenho sérias dificuldades para entrar em águas que não “dão pé” (mesmo sabendo nadar). E concordo contigo que o Laos precisa evoluir nessa questão da segurança das atividades. O tal tubing em Vang Vieng parece que foi proibido, mas um monte de gente morreu na brincadeira.

    1. Rui Batista Post author

      Entendo-te bem, Fernanda. E, sim, creio que foi proibido. Não estando preparado para o turismo, o Laos foi ‘vitima’ da procura de (demasiados) jovens (inconscientes) que se encharcavam em álcool e desafiavam os valores e cultura locais. Acredito que o país já se “reajustou”.

  3. Fábio Mendes

    Há tempos não lia um relato tão forte, que me lançasse para o centro do acontecido, como se fizesse parte dele. Uma história incrível, que só nos mantém ainda mais alertas para os eventuais riscos de uma viagem de aventura. Ótimo texto!

  4. racingmackerel

    Que medo!!! Eu não sei nadar… morro de medo que algo assim me aconteça!! Tinhas o colete salvavidas posto? Mesmo assim tiveste dificuldade em vir à superficie?? Que medo!! MEnos mal tudo acabou bem!!!

    1. Rui Batista Post author

      Na verdade, fui displicente com o colete. Pela última vez. Consta que só vivemos uma vez… Abraço!

    1. Rui Batista Post author

      Juliana, já somos dois, os contentes 🙂 Ainda bem que gostaste do relato. Obrigado pelas palavras e beijinho 🙂 PS: Aprende a nadar… vais adorar :)))

  5. Carla Mota

    Rui, andaste na Happy Pizza? 😉 Gostei do teu relato. Temos tendência a achar que em viagem nada pode correr mal, mas a verdade é que muita coisa pode correr.

    1. Rui Batista Post author

      Carla Mota, andei na ‘happy life’ :)))) Pois… convém ter um olho aberto 😉 bjksss…

  6. Pedro Henriques

    Olá Rui, texto muito interessante, com veia poética se me permites 🙂 eu também já apanhei uns sutos nas minhas actividades de canoagem e canyoning, é um risco que corremos, mas lá está, se não corrermos riscos nesta vida, esta não terá tanta piada! Abraço

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