Perito Moreno, o Majestoso

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Estamos no fim de tranquilo percurso de quase 80 quilómetros. Em curva e contracurva à espera que ele se anuncie. Há excitado suspense até que alguém dá pequeno grito quando vê minúscula parte da sua altivez, ainda bem ao longe. Vamos avançando até que o Perito Moreno perde a vergonha e se exibe, cada vez mais imponente. A um par de quilómetros do glaciar há um miradouro e, apesar do vento incomodativo, temos dificuldades em avançar: há clara voracidade de registos fotográficos. Quem me acompanha ainda não imagina que em ‘cima’ do glaciar, cara a cara, a dimensão é de outra exuberante ordem.
Há um parque onde temos de deixar os carros e um transporte gratuito que nos leva ao cimo do monte. Onde temos visão de balcão de toda a impressionante massa de gelo. À nossa frente, uma fortaleza da natureza com cinco quilómetros de largura e paredes de 60 metros de altura. O comprimento? São uns 30 quilómetros que desaparecem no bloco montanhoso de onde desliza até ao braço sul do Lago Argentino, na zona fronteiriça entre Argentina e Chile. Imponente. Admirável. Um impacto quase ‘perturbante’.

O explorador Francisco Pascasio Moreno recebeu a hora de batizar o glaciar, em homenagem ao fato de ter pesquisado toda esta região no século XIX, ter criado a Sociedade Científica Argentina e por ter ajudado a definir a fronteira internacional com o Chile e as disputas na região. Não é qualquer um que vê o seu nome associado a um dos lugares mais desejados no Mundo, curiosamente uma das reservas de água doce mais importantes do planeta.

E uma paisagem deveras fascinante. E, do topo do monte onde nos encontramos, há vários caminhos que deslizam até uma perspetiva ainda mais próxima do glaciar. Certamente diferente da que usufruem os imponentes condores que, bem lá no alto, parecem vigiar e testemunhar a nossa admiração. O Perito Moreno é uma joia tão especial que me proporciona o impacto de quem o vê pela primeira vez. E foi apenas há apenas nove anos que nos conhecemos…

Além da beleza esmagadora, é verdade que o facto de ser facilmente acessível – estrada – ajuda a que tenha ganho fama internacional. Merece ‘romarias’ e admiração incondicional. Ao contrário da esmagadora maioria dos seus congéneres, está em contínuo crescimento. E quando enormes blocos se partem, o ruído já foi ouvido em El Calafate. A 80 quilómetros…

O Parque Nacional Los Glaciares, que também alberga o Upsalla, o Onelli e o Spegazzini, é realmente digno do Olimpo. Dizem ao, ao todo, são mais de 350 glaciares. Não todos com esta dimensão, claro. Natural que a UNESCO o tenha declarado Património da Humanidade.
Experimento vários caminhos na descida. Quero saborear diferentes ângulos. Não prescindo de dar banda sonora ao momento. O mp3 é excelente companhia para momentos de recolhimento. Para retrospetivas de momentos passados, projeção de objetivos futuros. E, primeiramente, para saborear o privilégio de estar aqui. Agora.

Um ou outro desprendimento de gelo sustem a respiração a uns e provoca exclamações de surpresa a outros. Há um barco turístico que se aproxima do lado direito do glaciar. Um catamaran semelhante ao que nos levou ao Upsalla. E como é minúsculo neste cenário…

É possível caminhar sobre a interminável massa de gelo, em dispendiosos programas organizados – obviamente, com sapatos e roupas adequados, com o acompanhado de guias especialmente treinados – mas tal ‘privilégio’ soa-me a absurdo.

Estamos rodeados de bosques e montanhas, pelo que a tela tem várias estimulantes tonalidades. Sobra-nos entusiasmo. E resistência em avançar, sabendo que os nossos olhos não voltarão a apreciar o Perito Moreno do mesmo ângulo. É como se a cada metro tivéssemos de nos despedir de alguém especial…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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