Dentro do Tufão – Pânico nas Filipinas

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Ásia Filipinas

A fila crescente no multibanco de Larena (Siquijor) e o ar visivelmente impaciente do turista canadiano, há várias horas à espera, chama a atenção. Intriga. “Este é o único posto com Visa em toda a ilha. O tufão vai deixar tudo sem eletricidade. Quem não tiver dinheiro agora, não o terá nos próximos dias…”, alerta-nos, quando o abordamos.

Horas antes, já o tínhamos visto encabeçar a mesma fila, longa de inquietude e espera. O ar tranquilo e sorridente com que as pessoas circulam, sem o mínimo sinal de preocupação, deixara-nos no mesmo estado. Agora, apenas um par de horas depois, tudo mudou: aumentou consideravelmente o número de filipinos a aguardar pela oportunidade de resgatar dinheiro. A persistência do canadiano soa a aviso sensato. Engrossamos a lista de espera. Atestamos os bolsos para os próximos dias. Em boa hora. Não teríamos outra oportunidade…

Na véspera, quando foi anunciado o início da intempérie, fomos brindados apenas com o nível de alerta “1”. O mais baixo, sem motivos para preocupação. Na verdade, não chega a ser temporal. Em termos práticos, apenas exige mudanças logísticas.

Mal começa a chover, a tenda em que nos instalaram, na praia, entre duas orgulhosas palmeiras, deixa entrar toda e qualquer gota. Ciente de que isso ia acontecer, Jessa, a nossa bela anfitriã, já nos tinha dado a chave do dormitório para quatro, com três camas vagas. Conta certa. Ocupámo-las sem cerimónia.

Hoje as coisas são diferentes. O tufão faz jus ao nome. Agiganta-se. O ‘Bopha’, o mais forte de 2012, vem completamente fora de época, em dezembro, e chega trajado de nível três, apenas um abaixo de ‘Super Tufão’. Ao qual nada resiste. É com essa intensidade que, antes de nos atingir, destrói a ilha meridional de Mindanao, reduzindo-a a morte e ruínas.

Estamos no JJ Backpackers, a dois quilómetros da pequena San Juan. Uma freguesia costeira com menos de 13.000 habitantes. É final de tarde. Chuva e ventos fortes começam por ser apreciados com curiosidade, até que coqueiros e palmeiras começam a tombar. Com surpreendente facilidade. E com estrondo. Sêco. Quantas vezes estas quedas são assassinas. E destrutivas. Para já, não atingem pessoas ou casas/barracas.

“Nunca tivemos aqui um nível três”, sorri Jessa. A sua tentativa de nos serenar vai perdendo segurança. O seu olhar não engana. Nem os crescentes cuidados com o filho. Primeiro, estimulara-o a contemplar tudo desde o exterior. Agora, deseja-o – e a seus pais – na zona mais segura da casa. A sua serenidade esbate-se à medida que a tempestade ganha peito. E como cresce…

A chuva intensifica-se. O vento agiganta-se. Objetos começam a voar. Hora de recolher. Mais seguro. Já ninguém se atreve a estar em espaço exterior. É noite, já.

Cada um refugia-se no lugar em que dorme. A nossa ‘casa’ é robusta. Pelo menos, parece das mais bem estruturadas. Ainda assim, o teto vai levantando e caindo. De supetão. E clarões dão luz inesperada. Imaginamos que, a qualquer momento, podemos ficar sem o telhado do bungalow. Feito de madeira e folhas de bananeira e palmeira.

O barulho dos coqueiros a cair persiste. Um som lamentavelmente familiar. E regular. A eletricidade já se foi. Tudo é breu. Só a audição nos liga ao exterior. O vento é sinfonia brutal. Ouvem-se objetos a voar. A bater estridentemente não se sabe onde. Um turbilhão de poder descontrolado que cresce em poder e loucura. A impotência de nada podermos fazer. De estarmos entregues a esta insanidade da natureza. Deste seu mortal queixume que dura interminável par de horas.

Até que tudo acalma. Subitamente, quando pensamos que o limbo vai pender para o lado da tragédia, a fúria amaina. Até se calar. Em estranho e espesso silêncio.

Saímos a ver os estragos. Progressivamente, o povo junta-se na rua. Em espanto. Ainda não acredita que no destruiu a ilha. A Proteção civil filipina já está no terreno. Uma rapidez de ação que ainda hoje me deixa atónito. Vem com motosserras. Desfazem as árvores tombadas na via. Tornam a estrada transitável. Tiram fotos. Primeira avaliação dos estragos. Ouvem lamentos. O cenário não é bonito. A luz chegaria mais tarde. O dia revelaria a dimensão da catástrofe…

Amanhece. Silêncio. Serenidade. Sol. Nem uma brisa. Aconteceu mesmo algo? Ao sair para a rua, dúvidas desfeitas: rastro de destruição. Voou tudo o que podia. Barracas destruídas. Árvores ainda tombadas. Algumas, violentamente arrancadas pela raiz.

Há queixas. Contam-se histórias. Tenta-se contactar familiares, amigos. Saber se vizinhos estão bem. E começam a aparecer curiosos, em motos. Com ‘penduras’ empunhando máquinas fotográficas. Registam destruição nunca vista na ilha. A prova provada do que nunca pensaram sofrer na vida.

Há notícias de mortos (desta vez, em todo o arquipélago, foram mais de 1.000 e há quase outros tantos desaparecidos, muitos deles pescadores). E de dois ferries que afundaram, em Siquijor.

“Do outro lado da ilha foi ainda pior”, garantem-nos. Inundações. Deslizamentos de terra. Corpos soterrados. Destruição pura. Crua.

Siquijor está isolada. Não há transportes. A comida não chega, como sempre, de barco. No mercado, parca fruta e escassos legumes. Todos em estado praticamente putrefacto. “É o que há…”. E será assim durante um par de dias.

Com mais de 7.100 ilhas, as Filipinas são pobres, mas organizadas. O tufão ainda não tinha chegado e já o montante dos apoios estatais tinha sido anunciado. Cada um sabe com o que conta.

Sairemos de Siquijor dois dias depois, quando o transporte marítimo é retomado. A ilha ainda sem eletricidade. E com demasiadas cicatrizes no seu dorso. Esta gente olha o destino de frente. Não se curva perante as adversidades. Não há tempo para lamentos. Já se trata do futuro.

Vamos na traseira de uma carripana de caixa aberta. Os habitantes sorriem-nos e saúdam-nos. Com o mesmo encanto e sorriso no olhar com que nos receberam.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

20 comments

  1. Adriana

    Meu Deus! Fiquei muito aflita lendo esse relato. Primeiramente, bom saber que ficou protegido e está tudo bem. Não posso imaginar como manter a calma em um cenário desses.
    Triste por toda destruição e perda 🙁
    Mas me surpreendi ao saber da rapidez pra retomar a normalidade. Força pra esse pessoal!

    1. Rui Batista Post author

      Adriana, há gente e povos peritos em recuperar para a “vida” 🙂 Beijinho e boas viagens…

  2. Danielle Bispo

    Meu Deus Rui, que tenso!!! Sei que vivendo uma situação como essa não podemos nos apavorar mas não tem como né? Que bom que tudo terminou bem para vc!
    Bjs
    Dani Bispo
    abolonhesa.com

  3. Ester

    Complicado, né? Esses fenômenos deixam um rastro de destruição em lugares que são queridos por nós, lugares lindos, sempre cheios de alegria… Mas o teu texto foi, de certa forma, uma homenagem. Parabéns pelo texto.

  4. Patricia

    Que desespero!
    Não tem o que fazer quando a natureza se rebela assim. Que bom que vc ficou bem!
    Essa destruição é sempre triste, mas eles vão se reconstruir e se reerguer.
    Admiro muito esse povo que está sempre sorrindo, mesmo quando a situação é difícil assim.

    1. Rui Batista Post author

      Nem mais, Patrícia. Foram várias “lições”: respeitar a natureza… e a força e determinação dos filipinos na adversidade.

  5. Contramapa

    Deve ter sido um momento realmente marcante. Felizmente correu tudo pelo melhor para ti, mas infelizmente, como dizes, nas Filipinas sito é “quase” o dia a dia deles!

  6. Luiz Jr. Fernandes

    Que experiência foi essa hein! Eu estive na Polinésia Francesa neste ano e choveu por 3 dias seguidos em Bora Bora, imagino bem a sua frustração de ter ido às Filipinas e ter que enfrentar algo assim, a gente espera chegar nos destinos mais incríveis do mundo e ter sol a pino, céu azul e água de coco fresca, mas como estamos em tempos de aquecimento global descontrolado, acabamos ficando reféns das bruscas mudanças climáticas frequentes. Parabéns pelo relato, me senti no olho do furacão com vocês!

  7. Naiara Back de Moraes

    Ninguém espera viajar e ter de passar por isso, neh 🙁 Lamento essa experiência triste na sua viagem, mas com certeza está bem mais preparado para futuras situações deste gênero e especialmente em ajudar os outros com isso.

    Desejo que isso não se repita 🙂

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