Morte na Pérsia (Annemarie Schwarzenbach)

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Poesia do Mundo

Em Abala, as mulas estavam à nossa espera. Eram oito da manhã, o sol deslizava pelo desfiladeiro, descendo na nossa direcção. Atrás de nós, estendia-se a estrada que atravessa a planície desértica e abafada de Teerão, depois sobe um mar parado de colinas, onde percorre as dunas amarelas para chegar ao cimo do desfiladeiro, e daí desce a pique em curvas assustadoras até à ravina de Rudenhen. Duas horas de carro, mas agora estava tudo muito longe, agora tudo desaparecia – à nossa frente, um novo dia!

O nosso trajecto levou-nos primeiro por um vale estreito soterrado entre colinas. A vegetação nas margens do ribeiro parecia não caber no espaço que tinha e tocava nos campos das encostas como se transbordasse de um cesto. Havia um pomar de nogueiras, logo acima das videiras.

Depois começava o desfiladeiro. Vi Claude avançar à frente, o chapéu colonial descaído sobre a nuca. As mulas pisavam pacientemente o cascalho com os seus cascos pequenos. O desfiladeiro era muito alto, lá em cima apenas ventos e nuvens rápidas, e sobre a planície muito distante as nuvens dissolviam-se e não víamos mais do que um mar de céu e de terra desolada que se estreitavam num abraço sufocante.

Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia, Tinta-da-China

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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