“Sexta-feira 13”: Experiência sobrenatural em Montalegre

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Em Portugal

“Sempre que o dia 13 coincide com sexta-feira, há que celebrar superstições e misticismo. Socar azares e bruxedos. ‘Fintar’ o incontrolável sobrenatural”.

Sexta-feira 13. Somos recebidos pela festiva vila com serenos flocos de neve. O grupo BORNFREEE.com que esteve no Japão em novembro reúne-se, sem qualquer baixa, em afamado restaurante transmontano. É noite já e o jantar espera-nos. Não só para expurgar o frio, o vinho jorra rápido. E, admito, ficaria muito melhor se pusesse um travão na gula logo após as entradas. Perco-me em alheiras. Embeiço-me por presunto. Impossível resistir aos encantos do queijo, salpicão, sangueiras, todo o tipo de salgados…

Já me benzi um par de vezes. Em vão. Não consigo parar. E o tinto continua a… jorrar. Ainda estou para perceber como ‘avio’ a suculenta posta Barrosã e como ainda encontro energias para a sobremesa… Mas este texto não vai por aí. É tímida tentativa de sossegar profundo, mas irresponsável sentimento de culpa. Em mesa de feliz reencontro de amigos. Seremos… TREZE.

Basta de ter azar. Depois de várias, infrutíferas, tentativas de participar neste acontecimento singular, eis que, finalmente, chegou a minha Hora: é sexta-feira. 13. Onde? Que pergunta… MONTALEGRE, pois claro!!

Resumindo a experiência? O que presencio vai muito além dos relatos entusiasmados que ao longo dos anos me chegam desta loucura pagã. O frio não intima ninguém. São muitos os milhares de entusiastas que enchem as artérias da histórica vila transmontana.

A animação começa cedo, invadindo todas as ruas vigiadas pelas mais criativas bruxas. Não há oportunidades perdidas no que torna a adornar todo o tipo de adereço com referência às bruxas. Nem a estátua de uma chega de bois escapa.

A música reina em vários palcos. No principal, perto do imponente castelo, decorre uma paródia teatral que já faz parte da tradição. É tanta a gente na encosta que apenas a consigo ouvir. E, a espaços, quando a ação decorre no primeiro andar do cenário improvisado, um pouco mais de textura à experiência.

Uns quantos sorrisos depois, já no fim, uma vistosa sessão de fogo-de-artifício que ganha outro encantamento pelo facto de, boa parte deste, brotar do próprio edifício histórico datado do distante 1273.

Recitado o esconjuro que encerra o espetáculo-rei, há GRATUÍTA bebida ‘quentinha’ para todos. Uma mistura de ingredientes místicos e sobrenaturais que queima por dentro. Não há frio que lhe resista. Poderia desfilar sem roupa sem que um único pelo se me arrepiasse (Relaxem, contive-me). Está-se (muito, muito) bem…

O mítico padre Fontes é parte importante da alma da sexta-feira 13, até porque o esconjuro costuma ser da sua responsabilidade. Desta vez está doente e os seus 76 anos aconselham precaução. De samarra e junto à lareira, nem por isso deixa de gravar um vídeo que é difundido nos ecrãs gigantes. Este montalegrense é um distinto padre católico com ampla ação cívica, social, cultural e literária. É o principal impulsionador do Congresso de Medicina Popular, em Vilar de Perdizes, e destas “Sextas-Feiras 13”, em Montalegre. A sua áurea já vai nos tradicionais enchidos, pois já é nome de marca da região.

Sempre que o dia 13 coincide com sexta-feira, há que celebrar superstições e misticismo. Socar azares e bruxedos. ‘Fintar’ o incontrolável sobrenatural. Esta tradição do imaginário popular foi transformada em feliz atração turística. Que começou tímida, circunscrita a pequeno espaço, mas que já se espalhou, como um vírus, por toda a Montalegre: só assim pode dar resposta aos milhares de curiosos que brotam de todo o lado.

Nada falha nesta noite de gala que esgota a capacidade hoteleira da região. Até os apinhados restaurantes têm ementas – e decoração – sugestivos. São parte imprescindível de uma noite memorável. Uma experiência contagiante na exorcização dos males quotidianos.

A sexta-feira 13 vale pelo entusiasmo e dedicação ao sobrenatural que vive no nosso subconsciente. Se não for dado a essas questões, pouco importa. Venha pela gastronomia. Pela música e teatro. Pela tradição popular. Ou simplesmente pelo turismo, juntando-lhe imperdíveis visitas a Pitões das Júnias, Vilarinho de Negrões e à albufeira de Pisões. Ou, muito simplesmente, pelo inigualável calor dos transmontanos.

2017 foi abençoado com duas sextas-feiras no fatídico 13. A primeira foi em janeiro. Onde pensas estar a 13 de outubro?

 

ESCONJURO:

Mochos, corujas, sapos e bruxas.
Demônios, trasgos e diabos,
espíritos das enevoadas veigas.
Corvos, píntigas e meigas:
feitiços das mezinheiras.
Podres canhotas furadas,
lar dos vermes e alimárias.
Fogo das Santas Companhas,
mau-olhado, negros feitiços,
cheiro dos mortos, trovões e raios.
Uivar do cão, pregão da morte;
focinho do sátiro e pé do coelho.
Pecadora língua da má mulher
casada com um homem velho.
Averno de Satã e Belzebu,
fogo dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus,
mugido do mar embravecido.
Barriga inútil da mulher solteira,
falar dos gatos que andam à janeira,
guedelha porca da cabra mal parida.
Com este fole levantarei
as chamas deste fogo
que assemelha o do Inferno,
e fugirão as bruxas
a cavalo das suas vassoiras,
indo se banhar na praia
das areias gordas.
Ouvi, ouvi! os rugidos
que dão as que não podem
deixar de se queimar na aguardente
ficando assim purificadas.
E quando esta beberagem
baixe pelas nossas goelas,
ficaremos livres dos males
da nossa alma e de feitiço todo.
Forças do ar, terra, mar e fogo,
a vós faço esta chamada:
se é verdade que tendes mais poder
que a humanas pessoas,
aqui e agora, fazei que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem connosco desta Queimada.

 

O esconjuro da queimada foi escrito por Mariano Marcos Abalo em 1967 e revisto em 1974.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

23 comments

  1. Gabi Moniz

    Que interessante esta celebração! Não sabia da sua existência e achei uma atração um tanto diferente e que deve valer a experiência, nem que seja uma vez na vida. A quantidade de pessoas que participam da sexta-feira 13 em Montalegre é surpreendente. Gostaria de participar de uma seta-feira 13 em Montalegre um dia. Se puder ser em 13 de outubro, melhor ainda 😉

  2. Cynara Vianna

    Nossa, parece muito interessante essa experiência, Não tenho ideia de onde estarei em 13 de outubro, mas se estivesse por perto de Montalegre com certeza me programaria para participar dessa comemoração. Lindo texto.

  3. Contramapa

    Whaaaat? Não fazia ideia que havia celebrações de sexta-feira 13… quanto mais assim tão grandes! Acontece sempre a festa de sexta-feira 13 em Montalegre?! E oferecem sempre bebidas?
    Se calhar em outubro ajunto-me, ahaha

  4. angela sant anna

    que legal, nunca tinha ouvido falar dessa celebração! para mim só existia mesmo “dia das bruxas” e dias mais macabros no tradicional 31 de outubro e que era pra evitar passar embaixo de escadas na sexta feira 13 hehe

  5. Pedro Henriques

    Evento único este!Tenho bons amigos em Montalegre e já por várias vezes tive o prazer de passar noites inesquecíveis. Incrível como uma vila tão pequena se transforma completamente num local de diversão pura e energia positiva!

    1. Rui Batista Post author

      É isso mesmo, Pedro. Noites verdadeiramente inolvidáveis… abraço e boas aventuras!

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