Nagorno-Karabakh: Adgam, a guerra tornou-te um fantasma

39 Replies

Arménia Azerbaijão Médio Oriente Nagorno-Karabakh

“Agdam, Nagorno-Karabakh. É um não-lugar que asfixia. Uma secreta vergonha do ser humano. E não apetece permanecer. Existir um só minuto mais neste degredo”.

 

O sisudo funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Nagorno Karabakh é de assertividade curta e seca: “Não, não podem visitar Agdam”. Educadamente, e fingindo estar a ‘leste’ da sua história, pergunto porquê. Não disfarça um ar ainda mais sério, agora de braço dado com evidente desconforto. “Porque é uma cidade proibida!”, atira, em tom de voz algo descontrolado. E vira costas. Abruptamente e em passo firme.
Uma nega destas não deixa dúvidas. Ou assentimos e cumprimos. Ou apenas desperta maior interesse e curiosidade. Depois, depende da massa da qual somos feitos. Há quem siga as regras. E quem, ousadamente, mas de forma consciente e responsável, as tente contornar. É assim que faremos ouvidos moucos às indicações. Bom, pelo menos tentaremos…
O dia amanhece cinzento. Despedimo-nos de Stepanakert, a ‘capital’, e dirigimo-nos a uns 30 quilómetros para nordeste. Em pouco tempo chegamos. Ou presumimos que o fazemos. A destruição de todo o edificado humano na paisagem leva-nos a crer que estamos perto. O GPS situa-nos e vamos tentando não nos perder nos labirintos da estrada.
Este é um lugar verdadeiramente arrepiante. Torce-nos o moral, verga-nos a espinha. O desolador resultado de insana carnificina traduzido num monte de ruínas. Escombros. Não há um edifício inteiro. Cada pedra árida guardiã de histórias de horror. Uma cidade fantasma. Um silêncio espesso, pesado.

Na guerra de Nagorno-Karabakh, as forças arménias da região desencadearam violenta ofensiva em julho de 1993. O Azerbaijão usava a cidade como ponto estratégico do seu ataque à região. Os arménios avançaram com todo o tipo de artilharia pesada. Uns 30.000 azeris foram desalojados e fugiram para o país natal. E, num resumo que esconde demasiados detalhes importantes, para não haver o perigo de retomada ou regresso do inimigo, os conquistadores preferiram a sórdida política de terra queimada. Destruíram tudo. Não há pedra sobre pedra…

A comunidade internacional registou, entretanto, infindáveis violações dos direitos humanos. Todo o tipo de crimes de guerra. Reféns, mortes após captura. Tortura de civis (…). Registou. Não atuou. Mais uma vez. 
Entretanto, nos últimos 20 anos, o pouco que restava foi pilhado. Até pedras e outros materiais danificados. Usados para construção. Reerguer vidas, bem longe dali. A destruição da ‘cidade branca’ (nome original) apenas salvou uma mesquita. Parcialmente.
Em toda a sua ampla e desoladora área, vislumbro em Agdam o milagre de duas ruínas habitadas. Estou a registar este pesadelo em imagens. Não esqueci que esta é uma “cidade proibida” e que, por estas bandas, as forças da lei não têm hábitos brandos. Há esse alerta em cada gesto. Um cuidado redobrado nos cantos do olhar, antes de cada passo.

Somos observados por alguém que, minutos antes, víramos carregar material para uma das ruínas ‘habitadas’. Um mistério presente. Que aparece e desaparece da nossa vista. Não sei se somos vigiados. Ou apenas observados. Se somos uma ameaça, ou apenas uma curiosidade.

Finalmente, avança. Não posso desperdiçar a oportunidade. Vou ao seu caminho. Aproximo-me da carcomida viatura. Abre o vidro. Não sei bem o que esperar. Talvez uma reação áspera? Surpreende-me…
É sexagenário. E deseja comunicar. Há visível esforço nesse sentido. Mas a frustração está ao nível da sua vontade: não fala inglês. Vejo desalento no seu olhar. E não imagina o tamanho do meu. Há tanto que desejava saber. Perguntar. Entender…

Neste caso, a linguagem gestual é exígua. Ele bem tenta, mas não o entendo. O seu insistente esforço não permite uma verdadeira e esclarecedora comunicação. Um instante que é um universo de desapontamento entre inúmeras histórias em viagem. Fico-me pela expressividade do seu olhar. Que terá atravessado mais horrores do que aqueles que poderei imaginar.

Não me perderei muito mais por Aghdam. É um não-lugar que asfixia. Uma secreta vergonha do ser humano. E não apetece permanecer. Existir um só minuto mais neste degredo.

Apesar da mobilização nacional na resposta ao ataque pesado da Arménia a 23 de julho de 1993, as forças do Azerbaijão conseguiram retomar apenas algumas aldeias circundantes, mas não a cidade: Hoje Agdam é caótico monte de ruínas e é usada pelo exército de defesa de Nagorno-Karabakh como um ponto vital da defesa estratégica. Do revanchismo do Azerbaijão? Das pretensões dos ‘irmãos’ da Arménia?

Em silêncio, avançaremos rumo a norte. Passaremos pelos vários campos militares. Robusta presença. Para que os azeris não tenham mesmo qualquer tentação. Um símbolo do desfecho da guerra e que Nagorno-Karabakh deseja manter vivo. Tal como está bem viva a desumana tragédia de Aghdam.

Avançamos quilómetros e vamos encontrando tanques de guerra podres e abandonados nas bermas das caóticas estradas, normalmente de terra batida. Imponentes e enferrujados blindados transformados em estátuas, adornadas por fotografias das vítimas e flores. São ícones que não permitem à memória vacilar. E, espero, educam as novas gerações para que nada disto se repita.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

39 comments

  1. Mariana Dutra

    Rui, o seu texto me transportou para este lugar tão marcado pelos conflitos. Uma história triste, mas que se transforma em uma verdadeira aula através das suas palavras. Obrigada!

  2. Carla Mota

    Tenho alguma curiosidade em visitar Nagorno Karabakh. A verdade é que nunca me inclinei muito para essa zona do globo. O Cáucaso nunca me atraiu muito mas começa a chamar-me cada vez mais.

    1. Rui Batista Post author

      Carla, cada vez mais, o Cáucaso ganha um lugar predilecto nas minhas opções de viagem. Vais gostar… 😉

  3. Lua Ferreira

    Caramba, adorei o relato. Confesso que antes Nagorno Karabakh não chamava muito minha atenção, mas desde o final do ano passado venho lendo e me interessando cada vez mais.

    1. Rui Batista Post author

      Lua Ferreira, agora o ambiente volta a estar mais “pesado”… mas ali há muita “história” para desvendar… beijinho e boas viagens.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado EU pelas tuas palavras, Alessandra Fratus 🙂 É o lado “B” das viagens que mais me estimula…

    1. Rui Batista Post author

      Angela Sant Anna, quando descansares do Uyuni podes começar a pensar em algo ainda mais “louco” 😉 Beijinho e boas viagens…

  4. Luiz Marcelino

    Um texto muito bem escrito e muito interessante, acompanho seu blog pois planejo em setembo viajar para a região que compreende o Cáucaso.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Luiz Marcelino. Se precisares de algo, contacta-me em privado, tranquilamente 🙂 Abraço! Vais AMAR o Cáucaso.

  5. Laura Sette

    “É um não-lugar que asfixia. Uma secreta vergonha do ser humano. E não apetece permanecer” – isso resume o que eu também senti daqui, ao ler seu relato. Que artigo forte! E que coragem a sua! Que tristeza haver este tipo de lugar com este tipo de história…
    Você conhece o “Não conta lá em casa”? Suas histórias me fazem lembrar este projeto. É um documentário que virou livro (ou o contrário?). Se não conhece, deixo aqui a sugestão, acho que vai gostar!
    Abraço

  6. Leo Vidal

    Relato incrível de um local pouco conhecido e que pelo que percebi continuará assim por um tempo. Obrigado por compartilhar conosco essa experiência.

  7. Lulu Freitas

    Que texto envolvente. Me senti lá! O mundo tem lugares tão diferentes por causas tão distintas que um post como o seu me tocou muito

  8. Itamar Japa

    Rui, a cada visita em sue blog, viajo e imagino cada detalhe que você passou! Fico maravilhado com seus textos! Mais uma vez parabéns!!! Aqui entre nós… eu não sei se teria a coragem, hehehe. Demais mesmo!

    1. Rui Batista Post author

      Itamar, obrigado por toda a gentileza 🙂 Fico feliz por saber que a partilha de experiências também fazem outros grandes viajantes “viajar” pelo Mundo 🙂 Grande abraço e muitas e boas aventuras!

  9. Juliana Moreti

    Fantástico, Rui!
    Por mais curiosa que sou, acho que obedeceria o sisudo funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Me senti angustiada com o avanço de teu texto!
    Mais uma vez, parabéns

  10. Camilla Kafino

    Caramba, Rui. Eu que me vejo evitando esse tipo de lugar, exatamente por não saber lidar emocionalmente com tanta tragédia, vejo em suas palavras e pelos seus olhos a exata razão de se conhecer esses lugares – impedir que as mesmas tragédias se repitam. Fiquei emocionada, muito obrigada por compartilhar.

  11. Carina Takahama

    Caraca. Me arrepiou até a espinha!
    Que experiência você teve, Rui!
    Corajoso, que foi consciente explorar uma Cidade Proibida. Parabéns!
    Tiro o chapéu pra ti e para tuas vivências!

    1. Rui Batista Post author

      Carina, muito obrigado pela gentileza das palavras. Beijinho e boas viagens 🙂

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

code