Monte Koya: a magia do mais sagrado Japão

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Ásia Japão

O Monte Koya é o lugar de eleição dos peregrinos budistas. São 123 mosteiros e o maior cemitério do Japão. Inesquecível deambular por entre mais de 200.000 poéticas lápides.

Enquanto, mal desperto, caminho para a madrugadora cerimónia no santuário budista, consciencializo-me, como se preciso fosse, do quanto as viagens me enriquecem. Me valorizam e me tornam ainda mais humilde.

Expectante, assisto às tonalidades do raiar do dia enquanto sigo para uma das experiências mais singelas no Japão. Cruzo todo o complexo e faço como vejo fazer. Cumpro a regra e deixo os chinelos à entrada. Ordenados, como todos. Avanço em meias no sagrado chão de madeira. E, sempre em silêncio, sento-me na linha da frente. Vista privilegiada. Sou dos primeiros numa sala que encherá. De respeito. Curiosidade. De misticismo e paz de espírito. O gongo toca. Um monge inicia a ‘ladaínha’. Começa o espetáculo…

Não entender a linguagem e os cânticos budistas é contrariedade que aceito resignado – na verdade, não tenho alternativa. No fundo, todas as religiões têm origem e valores semelhantes. Procuram e oferecem o mesmo. Apenas seguem caminhos distintos. Muito depende dos seus atores. É, por isso, no misticismo deste templo em que fixo os meus pensamentos…

Estou no outro lado do planeta, experiencio uma religião que não é a que me tentaram, em vão, incutir, e estou rodeado de desconhecidos. Há vários peregrinos na sala. São visíveis pelo manto branco que os protege e merecem tratamento diferenciado, gentilmente cuidado por parte dos três monges que protagonizam o culto. O Monte Koya é também o ponto de partida e de chegada da peregrinação aos 88 templos de Shikoku. E não são assim tão poucos os crentes que os percorrem.

A sala tem também vários estudiosos e curiosos quanto a uma religião pacifista que atrai crescente número de ocidentais. Neste caso, principalmente mulheres europeias na casa dos 50 e dos 60 anos. Os que andam pelos 30’s e 40’s parecem meramente curiosos. Ávidos de conhecimento. E entendimento. Haverá também quem teste a sua capacidade de acreditar?

Alheado das palavras, fixo-me no fogo que, garantem, tem o poder de lavar a alma. Simboliza a sabedoria de buda. É protagonista no ritual que nos procura dar serenidade e paz interior. Não chega a ser uma hora aquela em que divago num mundo desconhecido. O dia desperta e, admito, este cenário desperta alguma tranquilidade. Não tenho o hábito de carregar um espirito pesado, turbulento, pelo que não experiencio qualquer especial sentimento de paz. Deixo-me somente deslizar em agradável tranquilidade matinal…

Não houve dia em que não imaginasse como iria ser o Monte Koya. Enquanto deambulava pelo Japão moderno de Tóquio, Kyoto ou Osaka, questionava-me como seria explorar um lugar com ‘energia’ singular, um pedaço de história especialmente denso e genuíno. A meca religiosa desta cultura milenar. Uma atmosfera mística, mágica. E quem me conhece bem sabe o quão pragmático sou…

A dificuldade de aqui chegar é eufemizada pela evolução tecnológica, mas nem assim é simples: imagino, por isso, como seria há mil anos, quando a aldeia ganhou forma pelas mãos de monges devotos ao budismo nesta remota e imponente montanha. 

São cerca de 120 templos – parte dos quais, com possibilidade de estadia para os ‘peregrinos’ – e universidade dedicados à religião e ao seu estudo. É o centro do budismo Shingon que o monge Kobo Daishi (conhecido por Kukai) introduziu no país do sol nascente no ano de 819, século IX, quando aqui se instalou. O fundador deste ramo do Budismo é uma das pessoas mais reverenciadas na história religiosa do Japão. Isso ajuda a explicar o porquê deste ser provavelmente o destino preferido para os que viajam pela fé.

O Monte Koya entrou nos roteiros turísticos nos últimos anos. Sobretudo depois de em 2004 ter integrado a seletiva lista Património Mundial da UNESCO. Isso ajudou muitos modestos templos a tornar-se exímios na arte de fazer (muito, muito) dinheiro… O peso histórico e religioso do local atrai milhares. Entre estes, há os que buscam um espaço único para meditar. Os que procuram simplesmente sair da azáfama da vida e encontrar alguma paz de espírito. Também os que refletem sobre importantes decisões de vida. Os que anseiam dar maior sentido aos seus dias. Ou os simples turistas e curiosos. Todos têm um espaço, um bem-pago refúgio que dê resposta às suas motivações e necessidades.

O grupo BORNFREEE que lidero está na fase derradeira do seu envolvente périplo nipónico. Já experienciou a diversidade cultural, paisagística e social do país e agora dedica-se ao seu lado mais espiritual. Observamos o quotidiano pacato da vida monástica, em aldeia aconchegada entre imponentes montanhas.

Experimentamos um misto de Onsen e Sento que o mosteiro nos providencia. São banhos públicos, não necessariamente termais. Mas o conceito deambula algures no meio. Homens de um lado, mulheres de outro. Sem roupa. Dormimos no tatami no chão, em quarto sem luxos de portas deslizantes, com vista privilegiada para cativante jardim interior. Provamos a culinária vegetariana dos monges (maravilha o ‘mochi’, um doce de arroz e pasta de feijão azuki). Sorvemos o chá, mesmo sem conhecer o rigor dos seus rituais nestas paragens. Participamos nas orações madrugadoras. Sem dúvida, uma experiencia aconselhável.

Tudo perfeito, ainda assim com potencial para melhorar. Entusiasmam-me os mosteiros e vida monástica, porém é o cemitério Okunoin que arrebata a minha especial curiosidade. É essencialmente por ele que aqui venho.

Os budistas acreditam que Kobo Daishi não morreu, apenas descansa em meditação eterna neste cemitério, enquanto aguarda por Miroku Nyorai (Maihreya), o Buda do Futuro. Durante a espera, proporciona alívio aos que anseiam pela salvação. Okunoin é, por isso, muito naturalmente um dos lugares mais sagrados da nação e um local de peregrinação popular, no meio de grande floresta de cedro japonês.

Curvando-nos na ponte Ichinohashi, em sinal de respeito por Kobo Daishi, entramos num outro Mundo. Superam as 200.000 o número de lápides geometricamente espalhadas e poeticamente esquecidas ao longo de uns dois quilómetros de floresta – ahhh… como eu ADORO musgo! E não falta o ansiado mausoléu de Kobo Daishi, um dos motivos pelos quais ao longo dos séculos monges proeminentes e senhores feudais escolheram erigir aqui as suas lápides. Para estar junto de si, da sua sapiência e energia. Mais recentemente, proeminentes indivíduos e empresas seguiram-lhes os passos, no que entendo ser uma adulteração do espírito original. Adiante…

Aqui vamos encontrando templos, esculturas, estátuas e árvores milenares. Uma atmosfera inédita para mim, de surpreendente beleza e misticismo. O dia está turvo, mas a luz é cristalina.

Dizem que Jizo cuida dos viajantes. Das crianças e almas dos falecidos. Confio que não se esquecerá de mim. De nós. De todos nós. Faço a minha oferenda simbólica. E atiro água a todas as ordeiras estátuas, conhecidas por Mizumuke Jizo.

Quando atravesso a próxima ponte, entro na parte especialmente sagrada de Okunoin. Nova vénia. Alimentos e bebidas são proibidos a partir daqui. A regra também se aplica às fotografias, mas esta é sistematicamente quebrada pelo espanto dos visitantes.

O Torodo Hall (salão das lâmpadas) é o principal salão de Okunoin para o culto, construído em frente do mausoléu de Kobo Daishi. Alberga um número superior a 10.000 lanternas, que foram doadas por fiéis e estão permanentemente  ligadas. Dizem que para a eternidade. E ao lado temos 50.000 pequenas estátuas oferecidas a Okunoin aquando da celebração do 1.150º aniversário da entrada da Kobo Daishi em meditação eterna.

Atrás deste edifício, o mausoléu em si. Onde medita eternamente. Há nova cerimónia. Não faltam fiéis. Alguns  dão voltas à ‘casa’ cantando sutras…

Evitando um relato maçudo, Danjogaran é o coração do monte Koya. Kongobuji o mais importante templo do budismo Shingon, construído em 1593 e reconstruido em 1861. Konpon Daito é um pagoda que se acredita representar o ponto central de uma mandala que protege todo o japão. Koyasan choishi-mich é um caminho de 24 quilómetros com um marco de pedra numerado a cada 109 metros e vai deste o templo de entrada, jison-in, até ao Monte Koya e ao Danjogaran.

Há quem sugira visitar o cemitério à noite, mas está frio e o mosteiro onde pernoitamos tem horas de recolhimento. Sei que é um ambiente especial e naturalmente sereno. E, talvez, impróprio para mentes mais… sugestionadas. Boa parte do caminho é mal iluminado… e tem zonas interditas, nomeadamente para além da ponte de Gobyonohashi.

O Monte Koya é a antítese da diversão noturna. Aliás, encontrar restaurante para jantar ou vivalma nas desérticas ruas após o sol se por é um exercício difícil. Quase impossível ser bem-sucedido. As trevas impõem paz espiritual e os mosteiros costumam ser rigorosos com os horários de recolhimento e silencio.

Já sinto falta do Monte Koya mesmo antes de o abandonar. O luxo da simplicidade. Usufruído anualmente por um milhão de visitantes, número que entendo, embora me assuste. Temo pela pornográfica influência do turismo, que ajudo a fomentar.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

33 comments

  1. Leo Vidal

    Tentamos incluir o Monte Koya em nosso roteiro pelo Japão, mas por questões logísticas não conseguimos. Uma pena! Lendo seu post deu vontade de em uma próxima vez no Japão, dar uma prioridade a este local sagrado.

    1. Rui Batista Post author

      Leo, se voltarem ao Japão, não falhem 🙂 O bom é que o Japão tem 10001 motivos para voltar 🙂 boas viagens!

  2. Fábio Mendes

    Uma experiência incrível, sem sombra de dúvidas. Achei sensacional o relato e as fotos, bem como conhecer um pouco mais dessa cultura milenar. Abraços e parabéns pela postagem.

  3. Marlene Marques

    Olá, Rui. Adorei o teu relato! Este local parece mesmo ser incrível. Quero tanto um dia visitar o Japão e sem dúvida que esta seria uma região pela qual gostava de passar. Obrigada por partilhares a tua experiência com um cunho tão pessoal.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado EU, Marlene, pela tua bondade. Qualquer coisa que precises sobre o Japão – ou outro lugar qualquer – não hesites 🙂 bjksss

  4. Maíra

    A cultura oriental é demais ! Experiência incrivel que você teve. Adorei o relato e so me fez ter mais vomtade de ir ao Japão! Parabéns pelo post!

  5. Flávia Donohoe

    O Japão é mesmo surpreendente, e essa sala das lanternas me deixou de boca aberta, que lugar extremamente lindo! Não sei se teria coragem de visitar o mausoléu à noite, mas com certeza iria de dia! Abraços

  6. Flávia Donohoe

    O Japão é mesmo surpreendente, e essa sala das lanternas me deixou de boca aberta, que lugar extremamente lindo! Não sei se teria coragem de visitar o mausoléu à noite, mas com certeza iria de dia! Abraços

  7. Lid

    O budismo é uma religião muito sábia e a cultura japonesa é incrível, muito diferente da brasileira, temos muito que aprender com a cultura e com a religião deles. Parabéns pelo post!

    1. Rui Batista Post author

      Muito obrigado, Lid. TODOS temos muito a aprender com “todo o Mundo”. Este planeta seria bem melhor. Grande abraço e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado pelas palavras, Alessandra 🙂 E acredito que vais cumprir o teu sonho… Encontrei vários brasileiros de origem japonesa a explorar as raízes dos seus familiares, nomeadamente antes do êxodo da II Guerra Mundial. Beijinho e boas viagens…

  8. Mayte

    Adorei o relato e essa experiência deve ter sido mesmo incrível. Se eu fosse me encaixaria na categoria turista curiosa de preferência no turno dá manhã RS nada de conhecer cemitério a noite, isso não é comigo.

  9. angela sant anna

    primeira vez que leio algo sobre religião e turismo no Japão. Nunca tinha ouvido falar desse lugar em específico, porém sempre aparece um templo ou outro nos animes e filmes, muito parecidos com o da ultima foto..muita história e tranquilidade!

    1. Rui Batista Post author

      Angela, sem dúvida o Monte Koya “exige” uma visita a quem andar pelo Japão… Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Bom, Alessandra, deixaste-me sem palavras 🙂 Muito obrigado pelo carinho e grande beijinho Transatlântico 🙂

  10. Debora

    Esse post é quase um poema. Gostoso e suave de ler e muito envolvente. Confesso que o Japão nunca esteve na minha lista de prioridades de viagem, mas agora está cativando um considerável espaço.

  11. Klécia

    Sou louca pelo Japão. Acho tudo tão bacana, a cultura, a natureza, as pessoas! As fotografias estão lindas e me encantaram bastante, parece que tudo tem mesmo um ar sagrado! Quero muito visitar esse lugar quando for no país!

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