Djémila e Timgad: “Roma” persiste no norte de África

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África Argélia

Djémila e Timgad é ‘Roma’ que desperta 1500 anos depois: encanto na Argélia com a ‘benção’ da UNESCO.

O galo canta no horizonte, no único sinal de vida na imensa paisagem escalada em tons sóbrios. Há uma paz densa, única neste solo esquecido há 1.500 anos. Estamos sobre antiga “Roma”, que em milhares de pedras gastas se espraia só para nós… até quase onde a vista consegue atingir. Ruínas e imponentes montanhas, num cenário praticamente íntimo: os visitantes são realmente raros – em todo o complexo apenas vislumbramos duas crianças locais a entreter-se com uma bola de futebol e um casal enamorado. O tempo flui em paciente preguiça. Aqui, parece ter uma diferente dimensão. Estática.

Anestesiado por esta inesperada oportunidade, decido dar novidades à família e amigos. Num minuto improviso um ‘direto’ do meio do ‘nada’ em plena remota – e incompreensivelmente temida – Argélia: https://www.facebook.com/rui.batista.507

Quando os romanos cá chegaram, bem antes de mim, há uns 2.000 anos, encontraram um assentamento berbere. Não demoraram a desenvolve-lo e batizaram-no de Cuicul Númida. Começou como uma guarnição de armamento militar transformando-se posteriormente num grande mercado comercial, essencialmente agrícola, num norte de África que se tornou no ‘Celeiro de Roma’.

Entretanto, o Império Romano do Ocidente caiu, no século V. Chegariam os Vândalos (não os atuais, entenda-se) e posteriormente os bizantinos. Até que foi a vez dos muçulmanos, que a rebatizaram de Djémila (“Bela”, em árabe), nome mais do que adequado e que perdura.

Esta urbe, que ainda parece ter vida, era um belo exemplo dos costumes urbanísticos romanos, nada lhe faltando: anfiteatro, termas, templos, prisão, bazar, baptistério, basílica e residência episcopal, fontes, arcos…   e o “Djémila Music Festival”, que, dizem, vale bem a pena.

Djémila alberga o maior número de ruínas romanas no norte de África. Felizmente para nós, encontram-se em bom estado de preservação, como pode ser atestado no museu contíguo, que ainda mantém grande parte dos impressionantes mosaicos.

Este sonho começou a ser ‘escavado’ em 1909, ainda sob domínio francês, e foi concluído em 1952, cinco anos antes da independência da Argélia. Os artefactos mais importantes estão expostos no museu adjacente. Certamente, se cá vieres, serás o único estrangeiro no cenário.

Depois? Bom, depois não apetece sair deste lugar surreal e cativante. Mas a viagem tem de continuar. Neste caso, a comprar artesanato típico. A preço de amendoins. Antes de encontrar a parede dos meus sonhos: complexo militar grafitado com a bandeira da Argélia. Terminantemente proibido fotografar este tipo de infraestruturas e absolutamente desaconselhável ‘brincar’ com o principal símbolo do país. O salto ‘BORNFREEE’ neste cenário justifica o risco. Resultado? Nem pisquei o olho e já estamos na esquadra. Não, não é causa-efeito. É que 10 segundos após o registo do ‘voo’ captado pelo Octávio, fotografo o decadente prédio em frente. E é aí que sou apanhado por um soldado.

“Porque fotografas o prédio? Tens autorização para o fazer? O que estão a fazer aqui?” Estas e outras perguntas análogas não são em tom doce, aquele que acabará por prevalecer volvidos cinco minutos quando imperam as virtudes do diálogo e razoabilidade. “Não é aconselhável andarem pela Argélia sem escola militar/policial. Tenham cuidado. Se precisarem de algo, telefonem-nos”. Agradecemos. E podemos partir.

A Argélia é abençoada quanto a legado histórico, pois a somente 175 quilómetros temos Timgad, nova urbe romana que a UNESCO também classificou como Património Mundial, em 1982.

Quando em 1765 o explorador e escritor escocês James Bruce descobriu um arco do triunfo romano escondido sob as areias, certamente ficou incrédulo. Desconheceria que tinha encontrado a maior cidade do Império no norte de África: a antiga Thamugadi, hoje Timgad. A ideia de Roma era aumentar o domínio e influência nesta zona do Continente, protegendo as rotas comerciais e os habitantes da região contra os ataques nos nómadas e berberes do sul. Em poucos anos, uma verdadeira cidade romana, na qual o respeito pela igualdade e atribuição de cidadania permitiu que boa parte da população fosse autóctone, com as infraestruturas usuais, tavernas, lojas… Só passado mais de um século, em 1881, arqueólogos franceses começaram a desenterrar o que restou de Timgad, que deveu também a sua prosperidade aos grãos, azeite e vinho que alimentavam Roma.

O teatro, com uma acústica ainda hoje notável, que eu próprio testo, resistiu às invasões árabes e berberes e hoje em dia continua a receber espetáculos de artistas de todo o Mediterrâneo. Este cenário é bem mais animado do que Djémila, mas é fim de semana. As famílias juntam-se por estas bandas e aproveitam o sol para piqueniques ‘históricos’.

Caçar, tomar banho, brincar, rir — isso é que é vida!”, diz, em latim, uma inscrição em placa encontrada por arqueólogos na praça pública. Pouca ambição? Ou sabedoria? Sabemos que os romanos eram adeptos dos prazeres do momento e que as preocupações do significado da vida eram unicamente destinadas aos filósofos. Imitamos, então, o povo?

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

37 comments

  1. Maíra

    Eu não julgo pouca ambição , acho que é o essencial a vida, o básico, as coisas simples. Adorei a viagem que nos fez com esse post, parabéns!

    1. Rui Batista Post author

      É isso mesmo, Maíra: a vida é melhor quanto mais ‘simples’ e descomplicada. Estes romanos eram sábios… 😉

  2. Michela Borges Nunes

    Que post legal!!! Adorei demais!!! Lugares incríveis, diferentes, que nunca estiveram nos meus pensamentos… Deu medo ir depois da experiência com o policial, mas deve ser uma viagem inesquecível.

    1. Rui Batista Post author

      Michela, nada como serenidade e um sorriso que ‘desarma’ o ‘outro’ 🙂 Tens razão, lugares incríveis… Beijinhos…

  3. Juliana Moreti

    Fiz umas pesquisas, Rui! Teu post me intrigou!
    Basicamente, os teatros gregos são desta forma, mas foram os romanos que os copiaram e tentaram inovà-los (com o conhecimento dos arcos, os romanos podiam criar seus teatros em qualquer superfícies e fazer algo como o Arena de Verona ou o Coliseu de Roma).
    Enquanto pesquisava e conversava sobre isso com meu marido, me recordei da cidade de Gubbio, na Itália Central! O teatro romano foi feito desta mesma forma! Até mesmo em Verona tem um bem pequeno assim!

    1. Rui Batista Post author

      Juliana, é isso mesmo 🙂 O teatro romano segue o modelo grego, porém desenvolveu-se de maneira independente, sem estar dependente, como aquele, da topografia do terreno. Ao contrário dos romanos, os gregos não conheciam nem dominavam a tecnologia do arco, e, para fazer o desnível da arquibancada, necessitavam de um terreno com inclinação. Outra diferença é que o teatro romano era destinado ao divertimento do público, como lutas entre homens e destes com animais, enquanto no caso dos gregos estes existiam para o culto religioso, acompanhado por corais e danças rituais. Beijinho e boas explorações 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Filipe, é um ótimo lugar para ires celebrar o prémio BTL 😉 Abraço e boas aventuras!

  4. Fernanda

    Como sempre, demais seu relato, Rui. Você definitivamente está me convencendo a colocar a Argélia no meu itinerário africano.
    Adorei o nome Djémila e saber que as ruínas ainda estão conservadas.
    Continue com suas viagens e histórias e espero que você leve mais do espírito Born Free de ser pelo mundo.

    1. Rui Batista Post author

      Fernanda, muito obrigado pelas palavras e ‘carinho’ 🙂 A ajuda que precisares para o teu itinerário africano… terei o maior dos prazeres em contribuir. Obrigado pela mensagem final 🙂 E, já agora, FREEE tem 3 “eee”. Assim aumenta a liberdade :)))) bjksssss

  5. GUILHERME GOSS DE PAULA

    Deve ter sido uma experiência e tanto. Nunca estive na África, mas planejo conhecer cada canto daquele continente misterioso. A parte do relato que se passa com o policial mostra o estranhamento e desconfiança de um povo que parece não estar acostumado com viajantes.

    1. Rui Batista Post author

      Guilherme, a Argélia já teve muito turismo. Mas nos anos 90 o início do terrorismo como hoje o conhecemos afastou os viajantes do país. Hoje, tudo muito mais calmo. Até porque há enorme vigilância policial e militar em todo o lado. Vale bem a apostar em périplo pela África. Abraço!

    1. Rui Batista Post author

      Karen, assim deixas-me “sem jeito” 🙂 Muito obrigado pela gentileza das tuas palavras. Beijinho e ótimas viagens…

  6. Oscar | www.viajoteca.com

    Rui muito interessante. Uma aula de história! É engraçado mas quando penso no Império Romano associo sua abrangência e zona de influência mais ao norte e leste do mediterrâneo, mas eles aparentemente estiveram por tudo. No Egito já sabia que eles estiveram, mas na Argélia não tinha conhecimento.

    1. Rui Batista Post author

      Óscar, os romanos estiveram por TODO o lado e o seu legado é, realmente, impressionante: tudo o que fizeram era verdadeiramente incrível… muito “à frente” no seu tempo, por isso foram um império de dimensões alucinantes. Abraço e boas viagens!

  7. Anderson Kaiser

    Que relato interessante. E que paisagem linda. Gostei da foto com as montanhas ao fundo. Realmente um lugar fantástico e que merece entrar na lista para se conhecer. Bem legal.

  8. Aninha Lima

    Que lugar fantástico, que post bem escrito. mandei para o meu irmão que também é jornalista e adora viagens ele é lá do históriasdecego.com.br. Meus parabéns pelo post. Não sei se eu vou conseguir fazê-lá, mas se fizer, tá salvo como guia. beijos

  9. Aline DP

    Fique impressionada e ao mesmo tempo intrigada com a Argélia. Sua forma de escrita, em estilo de crônica, é bem interessante e diferente (um diferente bom). Adorei conhecer um pouco da Argélia =)

    1. Rui Batista Post author

      Aline, muito obrigado pelas palavras 🙂 Espero que tenha a oportunidade de ler outros textos. Beijinho e boas viagens…

  10. Carolina Belo

    Oi Rui! Adorei a sua forma de relatar a sua viagem. Já tinha ficado fã dos seus vídeos, agora vou ficar da escrita também! Tinha visto a foto da bandeira no Insta, mas não sabia do “risco” que você correu ao tirá-la, he he he. Parabéns pelo post!!!
    Abraços
    Carolina

    1. Rui Batista Post author

      😉 Carolina, obrigado pelas palavras 🙂 Há “riscos” que não prejudicam ninguém e resultam em boas histórias :))) Bjks e boas viagens…

  11. Margareth Vasconcellos

    Nossa, o policial foi bem bacana com vocês. =)
    Não sabia muito desse lugar e o seu post me inspirou. Devo chegar pela África daqui um ano e meio, pelas minhas contas. Como foi a chegada até Djémila? Vocês foram por conta própria? Foi tranquilo?

    1. Rui Batista Post author

      Margareth, vais AMAR África. Na Argélia, alugámos um carro e fomos para todo o lado por conta própria. Foi super-tranquilo. E sobra segurança em todo o lado. Acabas por te acostumar 🙂 Beijinho e boas viagens…

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