Constantina, vertiginosa paixão argelina

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África Argélia
Constantina é cidade de emoções fortes. Que vão muito além das suas conhecidas pontes em cenários dramáticos. Argélia que continua a encantar…

@Kitato

Há um jovem que, inconscientemente (?), desafia a vida. Está em pé, em cima de estreito e pequeno muro, de costas desprotegidas para um abismo de centenas de metros. Observo-o. Sei que qualquer movimento brusco o pode levar para o além… Fala. Discute. Gesticula. Não está preocupado. Nem os seus amigos estão. Age com indiferença às vertiginosas alturas de Constantina, a imagem de marca desta surpresa norte-africana com mais de 2.000 anos. terceira urbe da Argélia, depois de Argel e Oran, é conhecida pelas suas pontes em cenários dramáticos. São quatro sobre o rio Rhumel que se exibem, em alguns pontos, a mais de 300 metros acima do solo, num abismo que liga a cativante parte antiga a uma nova zona da cidade num cenário esboçado em profundos desfiladeiros e impressionantes penhascos rochosos. Com casas que parecem agarrar-se em desespero para não caírem nas perturbantes ravinas. Não admira que o imperador Constantino I, que a reconquistou e reconstruiu, a tenha rebatizado com o seu nome. Aqui, do alto, a certeza de ser um bastião praticamente intransponível.

Desde o grandioso monumento que celebra os que morreram pelo país, que se atinge após cruzar a carismática ponte de Sidi M’Cid, a vista para o extenso horizonte é realmente soberba. Um imenso vale e orgulhosas montanhas, bem lá ao fundo. Em paleta de tonalidades em esperançosos verdes e envolventes castanhos. Se, do mesmo sítio, mirarmos a zona velha, sente-se que o Homem se esmerou a construir admirável tecido urbano, com arquitetura de diferentes estilos. Faz lembrar a andaluza Ronda, também com muito sangue árabe na sua génese.

Em Constantina, a vida parece parada algures no tempo, equiparado aos portugueses anos 70. Apesar de ser um importante centro cultural e industrial, contanto com três universidades – já lá vamos – a sua centralidade guarda o charme de épocas idas, um destino ‘vintage’ onde cada beco merece ser explorado com todo o tempo e cuidado.

@Kitato

E é assim que me deparo como o grande bazar de rua, onde esbarro com todo o tipo de estímulos. Colorida roupa, criativo artesanato, odorosas especiarias, deliciosa comida… num deambular por quelhos e ruelas que não cansa. O chamamento do muezim, que ouço menos amiúde do que esperava, dá à tela as cores quentes que aprecio nos países muçulmanos. Agora, sim, sinto-me parte da paisagem.

Há um posto de venda de ‘pizza argelina’ que, por míseros cêntimos, permite calar o estomago. Dois portugueses entre dezenas de mulheres sob véu. Senhora percebe que somos “diferentes” e, audaz, garante conversa para boa meia-hora de bom convívio, no qual a sua filha, mais envergonhada, entra apenas a espaços. Ainda assim com a mesma afabilidade e sorriso franco da progenitora. Empatia genuína. Dos mais belos retratos que guardo do país.

@Kitato

O mesmo entusiasmo (nosso) no mercado coberto, muito próximo, junto aos icónicos edifícios dos correios e palácio da justiça, em estrutura subterrânea mais vocacionada para frutas, legumes, flores, carne e peixe…. Descobrimo-la por acaso. Imaginamos que descemos para o metro ou passagem subterrânea e deparámo-nos com um outro Mundo. Denso. À vista e aos sentidos.

Ouve-se novamente o apregoar dos vendedores. Como uma feira portuguesa, mas em árabe. Deambulámos num caos que cativa. Continuo a ser confundido no trato, pois persistem em tomar-me por argelino. Na verdade, não somos assim tão distintos nas feições, apenas na cultura. A máquina fotográfica e a ausência total de cabelo do Octávio suscitam dúvidas quanto à nossa origem. Mas somos brindados com toda a simpatia do Mundo. Aliás, é assim em todo o lado. Até com a polícia e exército, omnipresentes, que após a natural postura inquisidora e sorumbática inicial, se despede posteriormente com rasgados sorrisos e calorosos “bienvenue” à Argélia.

A cidade que viu nascer o Nobel da física de 1933, Claude Cohen-Tannoudji, também contou com o génio do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, nos seus anos de exílio na Argélia: a futurista universidade de Constantina, a fazer lembrar Brasília, foi edificada nos anos 1970 e será o seu maior legado no país.

Abordámo-la um sábado, dia de descanso. Aconselhados, por isso, a voltar no dia seguinte. Será num belo domingo que a exploraremos, quando ultrapassada verdadeira odisseia para garantir autorização para a fotografarmos.

Niemeyer recusava-se a desenhar uma universidade tradicional, apostando antes numa “humana, lógica e compacta, apta a modificações futuras”, conforme explicou na altura. Dois prédios destinados ao ensino, o de aulas e o de ciências, foram complementados pelos edifícios da administração, auditório, biblioteca, restaurante, alojamentos e centro desportivo. “O esquema é tão lógico que se amanhã a universidade decide criar uma nova faculdade ela não terá necessidade de construir um novo prédio”, justificou.

É aqui que encontro as mais belas mulheres da Argélia. As que mais cativam a minha curiosidade usam véu. Há uma minoria que prescinde desse ‘detalhe’ muçulmano. E que aposta em traje mais ocidentalizado. Aqui respira-se um ambiente tranquilo, adulto, relaxado. Um funcionário zela para que a visita corra mediante o nosso agrado. Mostra-nos tudo o que desejamos ver neste sereno espaço arejado e muito cativante, não só arquitetonicamente. O registo fotográfico pode ser visto aqui: http://p3.publico.pt/cultura/arquitectura/23122/uma-universidade-na-argelia-com-assinatura-niemeyer

@Kitato

Sair do complexo, muito bem guardado na entrada/saída, é um novo ‘filme’, quando a equipa de segurança percebe que não foi ouvida quanto à nossa ‘intrusão’. Entram de mansinho, mas logo pegam no Octávio pela mão, levando-o até ao gabinete de um responsável superior. Sigo-os. Com modos menos refinados, o nosso impetuoso interlocutor irrompe por sala onde decorre reunião. Meia dúzia de palavras em árabe. Afinal, parece que não há problema. Não gosta da resposta. Autorizados a irmos à nossa vida.

Emir Abdelkader é nome de sumptuosa mesquita. Construída em 1994, alberga dois minaretes e tem capacidade para 15.000 fiéis. De facto, uma obra extraordinária. Os detalhes arquitetónicos árabes são soberbos. E o à vontade com que podemos ‘estar’ neste templo religioso ajuda a melhor desfrutar: deitado, com os olhos no teto e nas múltiplas robustas colunas. Que o cartão de memória da máquina fotográfica não me falhe agora…

Em Constantina é onde também experiencio o Hamam mais invulgar com que já me deparei. Em bairro teoricamente ‘problemático’, segundo nos avisam. Optámos por uma experiência local, não turística, acessível apenas em hotel de luxo. Ementa? Esfoliação completa. Retemperadora massagem. Relaxantes banhos. A preço (total) de bilhete de cinema em Portugal.

O Hamam é tão… local, que não temos toalhas, sabão ou champô para nos lavarmos. Viemos desprevenidos e não há sequer para alugar. Também nos faltam os calções para estarmos ‘apresentáveis’. Não há dúvidas, os boxers vão ter de servir. Não é isso que nos faz desistir.

Começaremos por nos lavar, sentados, com pequenos baldes de água bem quente. Temos de abrir os poros, explicam-nos. Fervemos brandamente até que somos chamados para sala ao lado. Convidados a colocar-nos em múltiplas posições por um especialista com luva ‘agreste’ em riste a esfregar cada centímetro de pele. Alguma, naturalmente, vai cedendo…

Segue-se massagem de corpo inteiro. Em marquesa colocada em espaço exíguo e com luz fosca. Claramente, não é serviço que muitos frequentadores usem. Sabe bem. E, com a aplicação do óleo final, fico com todo o corpo a arder. E, acreditem, não é no melhor dos sentidos.

@Kitato

A piscina termal, que aqui, infelizmente, é unissexo, é calma. Vou nadando serenamente até que aparece um ou outro vizinho que decide treinar os… mergulhos. Acham piada e insistem. Está na hora de partir. Penaremos pela ausência de táxi em bairro menos recomendado. Caminharemos mais de um quilómetro até sermos salvos de sarilhos que estou convicto não iriamos ter. Será ex-emigrante em Espanha que nos devolve ao centro. Euro e meio por 20 minutos de condução.

O teleférico é experiência obrigatória. Por míseros cêntimos sobrevoamos parte do tecido urbano. Somos pássaros por uns minutos. E vemos Constantina por um outro prisma. É, até, uma boa forma de descansar. E nunca sabemos com quem nos podemos cruzar. Comuniquei com interlocutores de destinos tão exóticos como o Iémen e o Sahara Ocidental.

O palácio de d’Ahmed Bey é uma das visitas mais recomendadas, pelos mosaicos e cerâmicas de estilo mourisco e belos pátios interiores. Uma das últimas construções otomanas na Argélia, concluída em 1835.

As ruínas do antigo burgo romano de Tiddis ficam a norte de Constantina, num local onde também se encontram vestígios de um assentamento berbere. Achei que Djemila e Timgad, que a UNESCO celebrou, me bastaria.

O museu de Cirta tem exposições que retratam desde a pré-história às civilizações europeias, com legado arqueológico, etnográfico e artístico, num belo edifício de dois andares e um jardim com obras de pedra e mármore entre as árvores.

“Tu não te apresentas a Constantina. É ela que se apresenta a ti e te saúda. Ela revela-se e descobrimo-nos uns aos outros”, escreveu o poeta Malek Haddad, na primeira metade do século XX, sobre o seu berço. Não figura (ainda) nos roteiros turísticos internacionais, mas tem ‘elan’ e foi capital da Cultura Árabe em 2015.

Um conselho? O Festival Internacional Malouf costuma celebrar-se em finais de setembro. Um encontro de música árabe e andaluz que anualmente reúne músicos de todo o planeta. Constantina é uma das joias mais desconhecidas do norte de África. Já têm planos para as férias deste ano?

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

31 comments

  1. Natália Gastão

    Fiquei encantada pela sua Constantine!
    Parece ser uma cidade realmente especial, com uma geografia e pessoas incríveis! A Argélia acabou de entrar para a minha lista! 😉
    Beijão!

    1. Rui Batista Post author

      Natália, então já fiz a minha primeira boa ação do dia 🙂 A Argélia MERECE entrar na lista de toda a gente… é mesmo fantástica. Obrigada, beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Michela. Aconselho a pensares em experiência na Argélia 🙂 beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Catarina, trust me, i know what i’m saying 🙂 E está bem pertinho… Vai sobrar-te material para trabalhares… serve que nem uma luva no teu projeto.

    1. Rui Batista Post author

      Guilherme, o Niemeyer viveu exilado na Argélia e deixou boa obra… e muita outra apenas em esboços. Tens na universidade mais um excelente motivo para visitar a Argélia. Abraço e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Simone. O Mundo tem demasiados lugares super-interessantes a escapar ao nosso ‘radar’ 🙂 Beijinho e boas viagens.

  2. Tina Wells

    Belíssimo texto! Um relato surpreendente de um destino que poucas pessoas pensam em visitar.As fotos também são bem interessantes. Parabéns!

  3. Gê Azevedo

    Nunca tinha cogitado conhecer a Argélia… Até agora!
    É cativante a sua maneira de escrever!

    1. Rui Batista Post author

      :))) Flávia, olha que Constantina e a Argélia são soberbo destino de viagem…

  4. Gabriela Torrezani

    Adorei conhecer Consrtantina com você! O melhor do sue blog é que cada vez que acesso conheco um lugar totalmente novo para mim. Adorei a dica do O Festival Internacional Malouf… já anotei na agenda pra tentar organizar, quem sabe pra 2018…

    1. Rui Batista Post author

      Gabriela, muito obrigado pelas palavras 🙂 Alguma experiência pela diversidade do Mundo é uma boa ajuda para ir diversificando 🙂 Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Carla, acredita que é o tipo de destino que vais amar. Serve-te como uma luva… 🙂 bjkss…

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