Shirakawa-go: O charme do Japão histórico

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Ásia Japão

Acredito que o outono é mesmo a melhor altura para visitar o Japão. As cores primaveris rejuvenescem paraísos como Shirakawa-go, mas os tons quentes que agora nos abraçam dão um enquadramento bem mais envolvente ao cenário.

Estou numa das aldeias mais belas da terra onde dizem que o sol nasce. Forma, juntamente com as igualmente pitorescas Suganumam, Ainokura e Ogimachi, todas da região de Gifu, um quarteto de aldeias decretado Património Mundial da UNESCO em 1995. Muito por culpa das suas tradições sociais inspiradas pelo isolamento a que eram vetadas nas agruras dos rigorosos e longos invernos dos Alpes japoneses, mas essencialmente pela sua arquitetura única, que resiste há uns 400 anos, idade respeitável e que merece ser celebrada. Falo do estilo das casas Gassho-zukuri.

Antes de avançar para a exploração detalhada da aldeia, um autêntico exemplo de resistência ao tempo e à modernidade, contemplo-a desde um dos seus miradouros. O olhar capta-a na totalidade. Há poucas telas tão belas e nostálgicas como a que tenho diante de mim. Ondas de verde entrecortadas por raios dourados que conferem aos castanhos e laranjas do outono um brilho e textura singulares.

As montanhas em redor parecem fazer uma vénia a este lugar encantado, no qual os locais preservam hábitos seculares. Se resistirem à voracidade do ameaçador turismo…

As casas são do estilo Gassho-zukuri, tradicional na construção japonesa. Os telhados em colmo, impetuosos e espraiados quase até ao chão, são a característica mais notável destas habitações. Ao primeiro olhar, parecem livros abertos. Mas isto porque sou mais dado à cultura do que à religião. Na verdade, Gassho-zukuri significa “mãos juntas em oração”.

O telhado está geralmente inclinado a 60º, para evitar que a pressão da neve danifique a casa. A espessura do manto branco pode chegar aos quatro metros, pelo que é preciso fazer com que este deslize. Cada família troca a palha do telhado duas ou três vezes durante a vida. A cada 30 ou 40 anos juntam mais de 200 pessoas entre vizinhos e voluntários para uma demanda que os ocupa por dois dias. Trabalho comunitário ainda hoje muito apreciado. Em 2011, a casa Nagase mudou de telhado pelo que dizem ter sido a primeira vez, num acontecimento mediático à escala nacional e que juntou mais de 500 voluntários de todo o Japão.

Por regra, estas casas são bem maiores do que as japonesas convencionais e podem ir até três, quatro… ou mesmo cinco andares. E não apenas por serem famílias numerosas. As famílias e funcionários viviam nos andares inferiores, o trabalho e o armazenamento de comida nos superiores, sendo o mais alto reservado para a criação de bicho da seda.

Nada como deambular pelas várias ruas da aldeia, evitando, enquanto posso, a central, já completamente desvirtuada pelo turismo, seja em lojas de lembranças (destaca-se o tradicional boneco “Sarubobo”, um macaco vermelho sem rosto), alojamentos, oficinas de artes tradicionais, estabelecimentos para beber e também instalações dos tradicionais ‘onsen’ (banhos com águas termais).

Há quem julgue que esta é uma aldeia-museu e se aventure livremente em propriedade privada. Mesmo cordiais, os japoneses são ‘assertivos’ a dar conta dessa invasão: acredito que não é fácil ter perdido a privacidade. Quando em 1995 a UNESCO celebrizou estas aldeias, certamente que os seus habitantes ainda desconheciam que era a sentença para acabar com a sua apreciada paz. Definitivamente. E em qualquer altura do ano. É que este pedaço de éden comete o ‘pecado’ de acolher várias cenas clássicas do Japão: plantação de arroz e flores de cerejeira na Primavera, jovial folhagem fresca no Verão, coloridas folhas de Outono e a paisagem de neve e casas iluminadas no Inverno. Sempre irresistível…

São pouco mais de 100 casas que resistiram ao tempo. Várias ainda habitadas, outras convertidas a museus como os que retratam a vida e a arte Gassho (Gassho-styled Life Museum e o Gassho-styled Jin Homura museum of art).

Também poderá procurar o castelo Kaerikumo que um terramoto engoliu numa noite de 1586. As entranhas da terra também trataram de sorver uma mina de ouro das redondezas. Até hoje se especula sobre o valor da fortuna à espera de regressar à ‘vida’, sendo que o montante mais comum entre os ‘entendidos’ é de uns 100 milhões de… euros.

Deve avançar, sem receio, para algumas casas culturais abertas à nossa curiosidade, como a Wada, a Kanda ou a Nagase, as mais antigas e melhores exemplos deste estilo. Ogimachi-Jyoshi, o templo Myozen-ji e os museus Doburoku e Gossho-zukuri Minkaen são lugares que deve reter para visita cuidada, se for com tempo.

Na verdade, deve explorar a aldeia sem a pressão do relógio. Aventure-se em caminhadas pelas encostas das montanhas, procurando diferentes ângulos da idílica Shirakawa-go. Serão regularmente surpreendidos pela ruralidade do milenar Japão. A alma de Shirakawa-go não pode estar dissociada das montanhas que a abraçam.

Foi mesmo a localização remota e inacessibilidade durante largos meses do inverno que fez com que estas aldeias desenvolvessem a sua própria cultura e costumes tradicionais, adaptados ao exigente clima.

Não tive a oportunidade de o fazer, mas pernoitar em Shirakawa-go deve ser experiência bem interessante. Menos turística e mais relaxada. Propícia para contemplações. E para percebermos o quão privilegiados somos em poder estar a usufruir de um dos maiores ex-líbris de uma numa nação distante e tão fantástica quanto esta.

Próximo, o monte Haku (Hakusan) é uma das três montanhas mais famosas do país, com a sua base rodeada de floresta virgem. Taka, Naka e Ki são cascatas muito apreciadas, tais como a Hakusui, que jorra do lago artificial Hakusui. E não esquecer as várias estancias termais da região.

Esta aldeia é ‘verdadeira’. Continua a ser habitada por gente ‘real’ que mantém as suas tradições e estilo de vida, indiferentes ao crescente número de visitantes. Shirakawa-go resistiu ao tempo, à modernização, a guerras e terramotos. Sobreviverá ao turismo?

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

20 comments

  1. Carla Mota

    Quando viajei para o Japão não tive oportunidade de explorar os Alpes Japoneses, o que foi uma pena. Cada vez acho mais que o devia ter feito. Depois de perceber que são regiões remotas atraem-me cada vez mais. As aldeias parecem belíssimas.

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Carla, de facto, são. Relaxa, com o teu ‘andamento’, estou mais do que certo de que o Japão vai contar com a vossa ilustre visita mais cedo do que pensas 🙂 bjks e boas viagens…

  2. Oscar | www.viajoteca.com

    Ainda não visitei o Japão, mas Shirakawa-Go é um dos lugares que adoraria conhecer.. E apesar de a florada das cerejeiras ser um espetáculo belíssimo da natureza, eu também acho que o Outono deve ser a melhor época para se visitar o Japão. Estive na Coréia do Sul nessa mesma época e a mudança de cores da vegetação, especialmente dos Acer’s dá um charme especial à paisagem.
    Obrigado por compartilhar com a gente um pouco mais sobre esse lugar lindo dos alpes japoneses

    1. Rui Batista Post author

      Oscar, partilho da tua ‘visão’ sobre as cores da natureza 🙂 Nesta viagem estive para dar um salto à Coreia do Sul, mas o país merece que me delongue por bons tempos… tal como o Japão justificava a minha atenção exclusiva. Abraço e boas viagens!

  3. Margarida Nobre

    Que lindo! 🙂 … eu sou absolutamente fã de montanhas em qualquer época do ano… O Japão já está na minha lista há bastante tempo… quando concretizar essa viagem vou tentar explorar um pouco esta região. Obrigada pela dica!

  4. Analuiza (Espiando Pelo Mundo)

    Um texto inspirador, apaixonante, assim como o local descrito. Quase me vi andando pela aldeia-museu perdida em todo o seu encanto! Quando visitei o Japão não estive em Shirakawa-go. O mais próximo de lugar bucólico como esse que visitei foi Takayama distante pouco mais de 1 hora.

    Não vimos turistas ocidentais na cidade, apenas um grupo de japoneses e a cidade era toda nossa. Era inverno, nevou e carrego as melhores lembranças. Se um dia voltar ao Japão, Shirakawa-go estará na lista para ver de perto as casas Gassho-zukuri e me perder no passado. Obrigada pela apresentação!

    1. Rui Batista Post author

      Analuiza, eu montei ‘base’ precisamente em Takayama. A região é mesmo bela. Ficas com mais motivos para regressares ao estimulante Japão 🙂 Obrigado pela gentileza das tuas palavras. E continuação de estimulante exploração do Mundo no teu Espiando pelo Mundo 🙂 bjksss

    1. Rui Batista Post author

      Renata, acredita que te vais sentir num bem estimulante recanto do planeta quando visitares esta região. Beijinho e boas viagens.

  5. Fabia Fuzeti

    Que lugar encantador! Como você disse, a neve pode ser cruel por ali. Cheguei a ver casas praticamente enterradas na neve. Os moradores só cavavam em frente a porta para poder sair. As janelas estavam encobertas, uma camada imensa cobra a casa toda. Fiquei impressionada!

    1. Rui Batista Post author

      Estamos em sintonia, Karatina 🙂 Não demores muito a visitar o Japão, é um país fantástico… bjkss e boas viagens…

  6. Anderson Kaiser

    Eu acho fantástica a arquitetura japonesa. E com essa paisagem de cartão postal então. Japão é um plano um pouco distante ainda, mas tenho muita vontade de conhecer, dicas anotadas.

    1. Rui Batista Post author

      Vai subindo o Japão na lista de prioridades, Anderson. Certo de que vais gostar. Abraço e boas viagens!

  7. Mayte Scaravelli

    Rui, que texto incrível! Eu me senti dentro da aldeia. Andando, caminhando sem a pressa do relógio e admirando as cores do outono que é a minha estação preferida, me senti abraçada e acolhida pelas montanhas e da mesma maneira que vi o sol nascer eu vi famílias trocando as palhas dos telhados. Que delicia de passeio.

    Eu adoro esse tipo de destino, que foge um pouco do clichê turístico e nos leva para lugares “verdadeiros” com pessoas “reais”.

    1. Rui Batista Post author

      Mayte, muito obrigado pelas tuas palavras. O tipo de feedback que nos faz felizes 🙂 Beijinho e ótimas viagens…

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