Hverfjall: o vulcão islandês que nos transporta ao Paraíso

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Hverfjall. Todos os nomes islandeses são impronunciáveis. Hverfjall. Bom, Hverfjall até nem é dos piores. Uma cascata? Será um fiorde? Talvez num sobrenome?

Nada disso. É um cone de tephra, um vulcão. Adormecido nas terras do norte há ‘escassos’ 2.500 anos. Imensamente belo, qualquer que seja o angulo pelo qual o contemplemos.

Quero subi-lo. E contornar a sua ampla cratera. Apesar do frio, que chega a ser violento, todo o grupo Bornfreee está determinado a seguir os mesmos passos. Vemos minúsculos pontos humanos a mover-se no horizonte, subindo a encosta. São negros, contrastando com a neve que o embrulha. Quero aproximar-me, mas não encontro a rota até à sua base, ao ponto de partida. Não somos os únicos. Estamos a uns dois quilómetros do lugar desejado, mas ninguém faz ideia como chegar ao centro interpretativo. Tirando quem já lá está. Que chegou em robustos 4×4. 

Há um casal norte-americano que está tão perdido quanto nós. O vento fustiga-os. E sinto-me responsável por garantir-lhes que estão na direção errada, completamente perdidos. Saio do carro, dentro do qual ganhamos energia – e coragem – devorando um bom almoço – e faço-os voltar à base. Um pequeno parque de estacionamento. Com grutas que escondem cristalinas e tépidas águas termais. Na verdade, devem estar bem quentes. Exalam um calor que me faz pensar duas vezes quanto ao regresso ao exterior. Não neva, mas nem por isso o tempo está convidativo para andar ao relento.

Maps.me. Bendito. Indica-nos o início do trilho. Que seguiremos fielmente durante 1,8 quilómetros até à base do Hverfjall. A caminhada demora menos do que as pessimistas previsões dos meus companheiros de viagem. É acidentado, mas plano. E vamos a bom ritmo. Lentamente, o vulcão está cada vez mais próximo. O solo é vulcânico. A flora diversificada e colorida. Proporciona os contrastes perfeitos: terra negra. Céu azul. Neve virginal. Laranjas, amarelos, verdes e castanhos. Uau… que privilégio! A cada passo, abençoados pelos mais envolventes elementos cromáticos em paisagem sublime. Indiferentes à areia e gravilha solta que dificultam a subida – não excessivamente. O andamento é calmo. A cada passo viramos costas ao carreiro para contemplar um panorama que não para de nos surpreender, ganhando crescente encanto.

Finalmente, diante de nós uma das mais belas crateras da Islândia. Do seu tipo, das maiores do planeta. Com uma vista panorâmica impressionante. Rodeada de campos de lava. Lagos, montanhas e outros vulcões… Para o interior, a vista é igualmente assombrosa. Este é lugar perfeito para se estar. E permanecer. Intemporalmente.

Frio? Que frio? Alguém quer saber da neve que, a espaços, vai conferindo um tom ainda mais fantasioso à tela? Em 600 metros de encosta, ganhámos 90 metros na proximidade ao céu. Se for este o caminho do Paraíso, sou capaz de desejar a salvação!

O bom senso aconselha-nos momentos de contemplação e posterior descida. Ninguém quer saber. Há um magnetismo que nos impede de cumprir esse destino. A diferentes ritmos, todos avançam firmes pelos acidentados – e, por vezes, traiçoeiros – 3,2 quilómetros que contornam a cratera, com um declive de uns 100 metros.

O Dimmuborgir está ali. Entre nós e o Lago Myvatn. Trata-se de campos de lava de formas invulgares. Grutas vulcânicas, figuras inusuais, estruturas dramáticas… diz-se no folclore islandês que o Dimmuborgir liga a Terra a regiões infernais. Na tradição cristã nórdica, também é dito que Dimmuborgir é o lugar onde Satanás ‘aterrou’ quando foi lançado dos céus e criou o aparente ‘Helvetes katakomber’, as Catacumbas do Inferno. A banda norueguesa de black metal sinfónico Dimmu Borgir inspirou o seu nome nesta região. Esclarecedor…

Hverfjall. Concentro-me no Hverfjall. Das mais estimulantes aventuras na Islândia. Imperdível para quem deseja ficar irremediavelmente preso a memórias imortais. Parece que esta terra trajou o seu melhor fato de gala para nos receber. E, com paisagens nevadas, o encantamento transforma-se em arrebatadora paixão. Este foi cenário da série (que nunca vi) Guerra dos Tronos. Altivos no topo da cratera, o vasto horizonte parece súbdito das nossas vontades, tornando-nos verdadeiros soberanos deste Mundo.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

25 comments

  1. Mirella Matthiesen

    A Islândia não para de me surpreender! Visitei o país somente por 3 dias e fico com gostinho de quero mais, agora, quando me pego lendo outros relatos, me imaginando retornando para aquela terra gelada e que não para de ventar, para curtir novamente um dos lugares mais incríveis que já visitei!
    Belo relato 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Mirella, volta rápidoooooo e por muito tempooo!! 🙂 Vais AMAR!! bjks e boas viagens…

  2. Analuiza (Espiando Pelo Mundo)

    A Islândia nunca mais será a mesma para mim depois de o acompanhar até lá através de seu (poético) texto! Um lugar muda totalmente de contexto dependendo que quem nos apresenta e a Islândia hoje está em outro patamar para mim! O que eu posso dizer?! Obrigada?!

    Hummm… vou voltar lá para o texto, para ler, ver, viajar mais um pouquinho!

    1. Rui Batista Post author

      Analuiza, gentileza (e bondade) tua 🙂 Acho que as viagens só fazem sentido partilhando parte das nossas emoções. Não tenho jeito para fazer ‘guias’, pelo que me limito a usar os sentidos e as memórias para imortalizar as experiências 🙂 Agradeço a honra das palavras e desejo-te muitas e excelentes viagens 🙂

  3. Miriam Pina

    Rui, que vontade da Islândia, que vontade de tratar por tu cada um desses nomes estranhos que dizem coisas que quase só o nosso imaginário parece ter conhecido…agora tu também conheces e fazes crescer em nós essa vontade de ir. P.S. já nos imagino com a Mia às costas.

    1. Rui Batista Post author

      Miriam, quanta honra essas palavras de alguém que as trabalha de forma tão sublime como tu 🙂 Estou certo de que irão à Islândia… e que sobrarão inspiradores relatos e fotos dessa aventura. Bjkss e abraços…

  4. Flávia Donohoe

    A Islândia foi um país que me surpreendeu bastante, são tantas belezas naturais e lugares de tirar o fôlego, esse vulcão é um deles, uma pena não tê-lo conhecido, mas pelo seu post pude matar a saudade! Abraços

    1. Rui Batista Post author

      Flávia, um dia que voltes (e todos os lugares mágicos merecem o nosso retorno), sei que não o deixarás fugir 🙂 Beijinho e boas viagens…

  5. Flávia Donohoe

    A Islândia foi um país que me surpreendeu bastante, são tantas belezas naturais e lugares de tirar o fôlego, esse vulcão é um deles, uma pena não tê-lo conhecido, mas pelo seu post pude matar a saudade! Abraços

  6. Pedro Henriques

    Olá Rui! A Islândia é uma dos países que está na minha lista. Estava a pensar em viajar com um casal amigo e filhos e alugar uma autocaravana. Mas já estive a ver os preços e parece-me tudo muito caro hehe vou ter que repensar o modo e a companhia para a viagem, Abraço

    1. Rui Batista Post author

      Pedro, contacta-me em privado no fb e dou-te as dicas que desejares. Sugiro uma carrinha (normal) e privilegiar Airbnb, em sistema self-catering 🙂 Abraço e não deixes de ir à Islândia!

  7. Fabia Fuzeti

    Você nos conduziu por uma aventura linda! Me senti lá com você caminhando por esse lugar maravilhoso.Áreas vulcanicas são sempre muito interessantes, com seu solo rico, o negro que se mistura as cores da vegetação e do ambiente. Me encanta.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Fabia 🙂 Um dia aventura-te por estas terras inóspitas… beijinho e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Não exige esforço físico sobrenatural 🙂 É fácil e a recompensa é fantástica! Bjks e boas viagens…

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