Kadhafi: O meu ‘amigo’ que o Mundo odeia

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África Tunísia

Surreal experiência BORNFREEE com Kadhafi.

Os ‘capangas’ chamam a atenção. Os repórteres de imagem que se lhes seguem, em atropelo, aguçam ainda mais a curiosidade. Anunciam figura importante.

Tenho (sérias) dificuldades em acreditar. O risco de encontrar um famoso líder mundial não é elevado, mesmo com a Cimeira Mundial da Sociedade de Informação a decorrer em Tunes, a uns 70 quilómetros. Estamos em 2005. Tunísia.

“É quem eu penso… ?”, segreda-me Isabel, tão incrédula quanto eu. Confirmo, com lento gesto de cabeça. Sem desviar o petrificado olhar, peço-lhe a máquina fotográfica. Uma mão, firme, trava o meu braço antes de apontar. “Esqueça”, diz o segurança, em assertivo inglês.

Os nossos olhos seguem a mítica figura. Deixamos de ser os três únicos clientes da loja da medina ‘turística’. Instantes eternos até que os seus passos o trazem ao nosso encontro.

“Portugueses. Em férias? Estão a gostar?”. Estávamos há dois minutos na loja. E mudos. Nada era suposto saber seja o que for de nós…

Conversa informal. A cimeira. Como os países árabes evoluem na sociedade de informação. A confissão do desejo de visitar Portugal. Experienciar a nação do vinho do Porto. O FC Porto tinha conquistado a Liga dos Campeões no ano anterior…

A base na cara soa a exagerada. Mas é a necessária para as câmaras de televisão. A idade avança, mas manter o regime exige vigor. A confiança do povo na imagem. Recordo-me das suas aparições nas tv’s mundiais nos anos 80. Catalogaram-no de “inimigo número um do mundo”.

“Presumo que gostariam de tirar uma foto juntos”, diz-nos, em sorriso sereno. “Presume muito bem, senhor presidente”.

Posamos os quatro. Mais dois dedos de conversa. Pergunta-nos o hotel “para entregar as fotos”. Em horas regressaríamos a Portugal. Não será viável. “Serão entregues no vosso país”, assegura-nos. Despedidas cordiais. Até um dia.

A foto que semanas depois no chega a Portugal não é a oficial, mas uma outra, representativa da nossa conversa informal. A carta original, oriunda da Líbia, foi violada. Nos correios apenas nos entregam um envelope totalmente em branco. Com três cópias da mesma foto. Sem quaisquer explicações para terem violado a correspondência. Khadafi cumpriu a promessa para com três estranhos. Enviou a foto para Portugal.

Ainda hoje me pergunto quem foi realmente. Aquele louco que o mundo odeia? Ou o que chegou a ser adorado por milhões? A 07 de junho cumpre-se 75 anos do seu nascimento.

Muammar Abu Minyar al-Gaddafi (Khadafi). O “amigo” que nunca o foi. Um mito cordial e simpático para com três estranhos que não tinha necessidade de agradar.

Militar. Político. Ideólogo. Ditador. Chefe de Estado da Líbia de 1969 a 2011.

Sob a sua liderança, a Líbia teve o maior índice de desenvolvimento humano em África. Aumentou a participação das mulheres na vida pública. Deu mais direito aos negros. Chegou a ter a menor divida pública no Mundo.

O crescimento económico impulsionado pelo ‘ouro negro’ e os avanços sociais não o impediam de ser criticado pelo facto de concentrar boa parte das riquezas do país. Tinha fortuna pessoal estimada em cerca de 15.000 milhões de euros, mas boa parte da população do país era pobre.

Quando assumiu deter armas químicas, sofreu as consequentes represálias da comunidade internacional.

Khadafi chegou ao poder em golpe de estado sem vítimas. Abandonou-o depois de bárbara e sangrenta guerra civil. A Primavera Árabe ‘pedia’ o fim do seu regime. Respondeu com extrema violência. Perdeu. Acabou apanhado como incógnito foragido e despediu-se do mundo vítima da tortura que a tantos aplicou…

“Pistolas para quem teme ser vítima de carjacking. Carabinas para praticar tiro ao alvo. Mas  também mísseis anti-tanque e terra-ar e metralhadoras Kalashnikov utilizadas em atentados e conflitos armados. Estas armas estão à venda na Líbia, através do Facebook, e o fenómeno é descrito num relatório publicado na terça-feira pelo Small Arms Survey, um observatório com sede em Genebra, apoiado pelos governos suíço, holandês e canadiano”, noticiou há dias o jornal Público.

Nos anos 80, os Estados Unidos (sim, quem mais poderia ser?) catalogaram Kadhafi de “inimigo número um do Mundo”. Olhando para trás, para os seus anos de poder, e para a violenta anarquia que é hoje a Líbia (os ditos países ‘democratas’ e ‘libertadores’ continuam a beber o seu sangrento petróleo), pergunto-me se os líbios não estariam bem melhor sob o jugo de Kadhafi. O tal que foi cordial e simpático, cumprindo a palavra para com três estranhos que não tinha qualquer necessidade de agradar

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

46 comments

  1. Francisco Piazenski

    Rui, é sempre um prazer ler seus artigos, com essa fonte de máquina de escrever, e argumentos que prendem à leitura. Deve ter sido uma experiência e tanto esse contato com Kadhafi. Parabéns pelo relato!

    1. Rui Batista Post author

      Francisco, obrigado pela gentileza das palavras 🙂 Ainda bem que gostaste. Abraço e boas viagens!

  2. Analuiza (Espiando Pelo Mundo)

    Será que toda história tem mesmo muitos lados e matizes de cores?! Será, será?! A maldade também tem lados de bondade e simpatia?

    Cresci com Kadafi nos noticiários. Cresci nos anos 80 e acho que ficaria muda se o visse, personagem não exatamente real para a minha meninice, ou talvez real demais, assim, sem querer, caso ainda fosse possível…

    Um texto com muitas entrelinhas de análise…

  3. Itamar Japa

    Confesso que quando aconteceu a invasão estrangeira a Líbia eu não sabia muito sobre Kadafi, muito menos sobre a Líbia, bastaram alguns dias pesquisando e descobri muitas coisas, entre elas as riquezas que o país tinha que iam muito além dos mais de 60 bilhões de barris de petróleo que o país possuía em baixo da terra, mas se estendiam ao gás (3,5% do gás mundial) e uma das maiores reservas em ouro do mundo. Mas o que mais me chamou a atenção é que a Líbia também repousa sobre o Sistema Aquífero Arenito da Núbia (Aquífero de Núbia), nada mais, nada menos que o maior sistema de água fóssil do mundo… Não bastasse isso descobri também que Kadaffi queria unificar a Africa e ficar menos dependente de países ocidentais, como a França e EUA, inclusive queria fazer uma moeda única (Dinar de ouro) pra diminuir a dependência das moedas estrangeiras … A França liderar a coalizão poderia ser só uma forma de os EUA não se exporem muito já que não muito distante disto os EUA tinham invadido o Iraque, e seu povo (e a opinião publica mundial) não aceitaria outra guerra… Mas também pode ser coincidência o fato do Kadaffi estar mexendo os pauzinhos pra tirar cerca de 200 bilhões de dólares dos fundos soberanos da Libia que estavam em bancos franceses e mudando pra bancos da China… Enfim… essa grana toda, o ouro, o petróleo, o gás e a água devem estar bem cuidados… já o povo Libio, outrora oprimido pelo ditador em um país que tinha o melhor IDH da Africa entre outras coisas, hoje vive em um país tomado pelo caos, democratizado pelos EUA… Emfim, peço perdão pelo enorme e polêmico texto, mas fecho meu comentário com sua frase “pergunto-me se os líbios não estariam bem melhor sob o jugo de Kadhafi”… Adorei o post obrigado por contar a experiência. 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Itamar, EU é que agradeço o comentário e a sua pertinência. A verdade tem várias faces. O branco nunca o é totalmente, tal como o negro. Nesta sociedade da informação, nunca fomos tão enganados pela comunicação… e digo-te isto sendo jornalista. Abraço e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Alessandra, obrigado pelo carinho das palavras 🙂 Beijinho e continuação de ótimas viagens…

  4. Viajar pela história - Catarina Leonardo

    Sinto que toda a perceção que tenho é muito condicionada pelo que os media me dão. Eu procuro informação o mais ojetiva possível mas é difícil… Há realmente várias verdades.
    Quem seria Kadhafi? Este episódio que relatas é extraordinário. Daquelas coisas que só acontecem se andarmos pelo mundo.
    Excelente artigo, Rui.

    1. Rui Batista Post author

      Muito obrigado, Catarina 🙂 A conversa dos Media daria para uma longaaaaaa dissertação. Para teres uma ideia, prescindi de TV (todo e qq canal) em 2010. Disse BASTA ao lixo que nos impingem diariamente. Os jornais não vão por um caminho muito diferente… Acho que o Kadhafi seria de extremos. Um bom “#$!”#$&!”#$, mas, por outro lado, a Líbia era um exemplo de desenvolvimento em África. Muito haveria para analisar… bjkssss…

  5. Ana Flores

    Que experiência fantástica! Tive um encontro similar com a Princesa Anne, filha da Rainha Elizabeth. Ela me cumprimentou com a cabeça, perguntou meu nome. Quando ouviu um nome parecido com o dela, ela decidiu saber mais sobre minha vida. Longos 5 minutos numa tentativa de manter o mais correto inglês. Aparentemente, meu inglês foi aprovado por ela, que elogiou, inclusive, o sotaque.

    1. Rui Batista Post author

      Ana Flores, isso é fantástico 🙂 Realmente, o ‘destino’ prega-nos partidas interessantes…

    1. Rui Batista Post author

      Luiz Fernandes, obrigado pela simpatia da observação. É bom que o ‘critério’ do teu olhar aprecie os textos 🙂 Abraço e boas viagens!

  6. Francisco Agostinho

    Muito bom Rui, sou teu fã e deste texto sobretudo. O mundo simplesmente vive consoante os “caprichos” dA medição de forças leste/oeste e depois os “outros” com mais recursos pagam as favas, os outros sem recursos (tipo nós) nem sequer contamos para nada, principalmente desde que a Europa passou a pactuar demasiado com estes esquemas…bom mas isto era uma looooonga conversa

    1. Rui Batista Post author

      Francisco, então vamos trocar ‘cromos’ quanto a admirações 🙂 Sabes que tens igualmente a minha. Sim, este tema dava para conversa demasiado longa. Espero por ti no Porto para esta e outras 🙂 Grande abraço!

  7. Anderson Kaiser

    Achei bem interessante seu relato. E que experiência deve ter sido, não apenas encontrá-lo mas saber que ele ainda enviou as fotos para “desconhecidos”. Adorei o detalhamento do encontro.

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Anderson, nem sei qual delas foi maior surpresa 🙂 Grande abraço e boas viagens!

  8. Pedro

    Que loucura, cara a cara com o Coronel. Muito interessante a história e sua narrativa. Eu acho que ficaria muito nervoso se ele se aproximasse de mim e puxasse uma conversa.

    Abraço!

    1. Rui Batista Post author

      🙂 Pedro, a oportunidade de encontrar uma “figura” assim levaria o nervosismo para bem longe. Foi situação super-interessante, até por ser o mais natural e imprevista possível. Abraço e boas viagens!

  9. Juliana Moreti

    Como não ficar de boca aberta e sem reação?
    Em 2008, o papa Bento passou na minha frente, me deu tchau com as mãos e o màximo que fiz foi pensar: “Acabei de ver o papa! Justo eu! Que entro em igrejas para apreciar obras de arte” (e para descansar os pés quando andei demais).
    Não o fotografei e nem tive a sorte de receber fotos de nosso encontro! Que bom que pelo menos aquela foto tua chegou!

    1. Juliana Moreti

      Que interessante!
      Sao 22h46 do dia 10 no Brasil. Meu post foi lançado para você com horàrio de Portugal! Até aì, ok! Mas o que mais me divertiu: eu nasci em um 11 de junho, às 1h40!

  10. Oscar Risch

    Ual!! Que historia incrivel!!
    Seus textos tem uma capacidade incrível de transmitir emocao do momento vivido. Uma pena que a carta foi violada, mas o que importa no final das contas foi a experiencia que voce viveu. Essa nunca sera apagada ou violada.
    Abs

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado pelas palavras, Oscar. Tento ser fiel aos momentos. O que mais me fascina em viagem. Sim, o facto da carta chegar deu um “elan” extra a esta aventura 🙂 Abraço e boas viagens!

  11. Rayane

    Rui, que texto! Uma reflexão e tanto…
    Às vezes pergunto-me “será que eles estariam melhor antes que agora”? Sou apaixonada por história e, como fisioterapeuta, tenho uma grande paixão por ajudar quem precisa. Morro de vontade de fazer uma ação humanitária naquelas bandas e “tentar” entender melhor a história.
    Seu texto é sensacional, daqueles que dá vontade de ler até o final, parabéns!

    1. Rui Batista Post author

      :)) Rayane, muito obrigado pelo carinho. Acredito que haverá várias ONG’s a fazer trabalho de valor na região. É questão de te informares. Todos somos poucos para ajudar os imensos que precisam de nós neste Mundo. Beijinho e boas viagens!

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