Ronda: Andaluzia de lendas e intrigantes mistérios

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Ronda inspirou poetas e viajantes. Orson Welles repousa aqui para a eternidade…

“Tomem um copo e sentem-se connosco”, atira uma jovem, surpreendendo-nos com o amigável convite. E ainda mais com o seu colorido e trabalhado traje de ‘goyesca’, semelhante ao das ‘sevilhanas’. Peço somente uma indicação de direção, mas ela e o casal seu amigo têm outros planos para nós. Desejam que nos ‘quedemos’. “A noite está boa para beber. Cantar e dançar. E fazer novos amigos. Afinal, hoje é mais um dia de festa”, completa, com sorriso luminoso. Irrecusável

O calor da quase-madrugada é espesso e a lua tem-nos acompanhado pelas ruelas de Ronda. Também ela deseja ‘ficar’, depois de deambular connosco em estimulantes ziguezagues com o único propósito de confirmar o que já tínhamos confirmado à luz do dia: Ronda é, sem dúvida, um lugar muito, muito especial.

Gin e Kas limão. Refrescado por gelo em altivos copos que vamos bebendo. Sem cerimónia. Ricardo está noivo. A sua amada não está trajada a rigor – ‘goyesca’, como a sua amiga –, porém sobra-lhe brilho no olhar e uma sensualidade na dança que nos amarra a atenção.

E é assim que, do nada, nasce improvisado espetáculo. Ricardo diz-nos como devemos bater as mãos, em lição de flamenco em parcos dez segundos. A sua prometida, dança. E a companheira goyesca  xxxx . O verdadeiro sonho de uma interminável noite de verão. A mente está mais embriagada do que o corpo, que não faz questão de resistir ao  alcoólico ‘refresco’…

Perdemos a notação do tempo. Do espaço. Do momento. Até que, de algures no velho casario, sai uma voz desejosa de silêncio. Suspira por merecido descanso. Fazemos-lhe a vontade e cada um segue o seu caminho.

Ronda é peculiar até na sua principal festa: não celebra qualquer santo, mas um toureiro: Pedro Romero (1754-1839). Que viveu no século XVIII. Mas dizem que esta festividade honra três personagens de outros tantos seculos, pelo que cabem igualmente ao pintor Francisco de Goya, que aqui viveu longos dias de inspiração, e outro toureiro, Antonio Ordóñez, filho da terra.

A quem nunca visitou esta pérola da Andaluzia, talvez seja mais familiar a sua histórica ponte. Cenário de muitas inspirações e da popular série A Guerra dos Tronos. As vistas são dramáticas daqui para o horizonte. E vice-versa. A ‘nova ponte’ demorou eternos 42 anos a ser construída – o que diz bem da sua complexidade – e ficou concluída no distante 1793, ligando assim a velha parte da vila à nova. É o monumento mais emblemático.

A noite é de festa e ainda vamos a tempo de envolvente concerto de flamenco. Ao ar livre, que o calor convida, entre o velho casario e muralhas. Momento solene. Vivido pelos locais com o respeito e intensidade de último sopro nesta existência. Impossível não nos inebriarmos com o ambiente.

Aqui e ali vamos vendo as famosas Damas Goyescas. Não estaremos por cá para o dia do seu desfile no qual se celebra a beleza dos trajes típicos que se vestem de autêntico património cultural. Inspiradas nos quadros de Goya, cada uma das damas representa o melhor da mulher ‘rondeña’.

Ronda é tida como a cidade-berço das touradas. Iguala-se à nossa Guimarães em beleza, mas não aprecio esta característica que também lhe dá fama. Os seus 35 mil habitantes são fervorosos adeptos da ‘faena’ e orgulhosos da sua praça de touros, inaugurada a 1785 e obra do arquiteto José Martin de Aldehuela, o mesmo que erigiu a nova ponte. É uma das maiores (cabem 5.000 espetadores) e mais antigas do Mundo. E tem uma escola de promoção de equitação com origens nas agora desusadas que sobressiam por ensinar o manejo das artes bélicas a cavalo. A família Romero (Francisco, avô de Pedro nascido em 1695, foi o precursor da tourada moderna) iniciou uma escola que continua conhecida pelo estilo clássico e rigoroso cumprimento das regras. A praça tem um museu próprio e visitas guiadas.

A meseta rochosa 739 metros acima do nível do mar está dividida em duas partes por um precipício conhecido como “el Tajo de Ronda” (penhasco de Ronda). Não, não é o nosso Tejo, mas o rio Guadalevín. E é neste cenário que entra a mítica ponte. A um par de minutos a pé, um rochedo de queda abrupta com o vale dos Moinhos a seus pés. Acredito que posso voar…

Tendo sido território mouro por vários séculos, é natural que Ronda tenha banhos árabes. Dizem que são dos mais bem preservados de Espanha, mesmo sendo oriundos de finais do século XIII. Mantém em funções a caldeira utilizada para aquecer a água. Inspiradas nos banhos de Alhambra, em Granada, estrelas dominam o teto das áreas de ventilação. Usufruir deste espaço é experiência que não se esquece…

Esta também é terra de palácios e o Mondragon (1314), outra vez responsabilidade do rei Abomelik, alberga museu que retrata a história da cidade e jardins luxuriantes, nos quais podemos desfrutar de paradisíaca serenidade. Chegou a servir de residência oficial dos reis Fernando e Isabel.

O Palácio do Rey Moro e La Mina são palco de muitas lendas e vistosos jardins, projetados pelo francês Jean Claude Forestier, que projetou o soberbo parque María Luisa, em Sevilha.

Desta natureza espraiam-se 231 degraus que levam até ao rio. La Mina foi sempre a única fonte de água para os habitantes. Trabalho para os escravos, acorrentados. Foi daqui que em 1485 as tropas cristãs forçaram caminho e tomaram a povoação aos Mouros.

Os árabes fortificaram o burgo com muralhas ainda hoje bem conservadas. Ajudam a explicar a resistência de Ronda, queia além da sua posição estratégica.

Não esquecer a pitoresca Plaza Duquesa de Parcent, com vários monumentos históricos, incluindo a gótica e renascentista igreja de Santa Maria Maggiore, que demorou dois séculos a ser erigida.

Os Jardins de Cuenca são igualmente imperdíveis, bem como os seus miradouros. Quanto a vistas, inigualável o Mirador de Aldehuela e o Balcón del Coño. Olhar vertiginoso para vales exuberantes.

“Um homem não pertence ao lugar em que nasceu, mas ao lugar que escolhe para morrer”. O cineasta norte-americano Orson Welles foi surpreendido na sua vontade por um ataque cardíaco que o vitimou em Los Angeles em 1985, aos 70 anos. Mas a sua alma estava preparada. E há muito que sabia onde passar a eternidade. Dois anos depois da sua morte, cumpriu-se o seu maior desejo. As suas cinzas foram depositadas em Ronda, no Recreo de San Cayetano.

Estamos rodeados por fabulosas lendas e intrigantes mistérios que não anseio desvendar. Navego na quente brisa andaluza apenas suspirando para que este encanto perdure…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

23 comments

  1. Analuiza (Espiando Pelo Mundo)

    Oh, minha querida Andaluzia… para mim, uma das regiões mais fortes, atraentes e interessantes da pequena parte do mundo que já visitei! Delicie-me com mais este texto: eu que dancei o flamenco por mais de 5 anos e me jogava em outro e maravilhoso mundo ao som dos tacóns, castanholas e palmas ritmadas, queria ter visto a manifestação espontânea. Minha única decepção com a Andaluzia talvez tenha sido essa: não encontrar flamenco de alma por toda parte… Talvez devesse ter visitado Ronda. Talvez deva visitar Ronda.

    1. Rui Batista Post author

      Analuiza, a Andaluzia é, realmente, muito, muito especial. Estou certo de que voltarás. Eu farei o mesmo. Uma e outra vez. Estou “doido”, pois não encontro o vídeo que fiz do momento. Mas hei-de encontrar 🙂 Beijinho e boas viagens… PS: Um dia quero ver-te a dançar flamenco 🙂

  2. Michela Borges Nunes

    Olha, adoro ler os teus posts porque me apresentam lugares diferentes, passeios e experiências diferentes. Mas o que mais gostei e acho que gostaria no local, foram as vistas de perder o fôlego.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Michela 🙂 E, sim, tem vistas de perder o fôlego… sugiro visita um dia que antes pela Europa. Beijinho e boas viagens…

  3. Paula

    A Andaluzia é mesmo uma das regiões mais interessantes da Espanha, adoro essas construções mouras, é uma mistura de tudo e acho que isso dá uma riqueza cultural muito grande a região.

    1. Rui Batista Post author

      Paola, assim deixas-me sem jeito :))) Muito obrigado pelo carinho. E continuação de excelentes viagens…

  4. Viviane Carneiro

    Adoro ler os seus textos e sua forma de olhar para os lugares de forma diferenciada. Parabéns!

  5. Zelinda Arêas

    Em primeiro lugar, adorei o post! Confesso que não conhecia seu blog e adorei a sua escrita. Não tinha esse destino na minha lista, mas agora já posso dizer: você me conquistou.
    De quebra, fucei seu blog e vi vários posts sobre o continente africano. Já salvei varios para ler com calma!
    Obrigada por compartilhar
    Foi um prazer

    1. Rui Batista Post author

      Zelinda, seja muito bem vinda 🙂 E nada melhor do que as suas palavras para um belo cartão de visita 🙂 Muito obrigado pela gentileza. Espero que algum texto a possa inspirar para África, um continente soberbo… embora nem sempre fácil. Beijinho e ótimas viagens…

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