Baião, esplêndida “Vida Natural”

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Em Portugal

Baião é Douro. Marão e Aboboreira.  Oferece-nos o melhor dos dois Mundos.

Foto: Susana Luzir

Montanha e água. E muitos verdes. Plenos de vida. Muita ‘vida natural’. Se o ponto mais alto do concelho de 20.000 acolhedoras almas chega aos 1415 metros, o mais baixo, junto ao rio, não ultrapassa os 100 acima do nível do mar. Entre este acentuado declive, há inúmeras tentações por descobrir: surpreendente cultura, maravilhosas paisagens, densa história, viciante gastronomia, encantador turismo rural em palacetes, quintas e casas de sonho…

Foto: Susana Luzir

Começo pela serra, onde sobressai a vida dos verdes que abraçam a dureza do xisto e granito. Enquanto beberico refrescante vinho verde local e degusto deliciosa gastronomia, espraiado na esplanada da elegante Tasca do Valado (www.tascadovalado.pt), nas alturas de Mafómedes, sinto o verdadeiro privilégio que é poder dedicar uns dias a Baião.

Estamos a meio da semana e o balcão para entusiasmante natureza é somente nosso. Nas nossas costas, e a ‘fugir’ para os lados, quase em forma de ferradura, o imponente Marão. Para a frente, a montanha que desliza e que, mais além, acabará no Douro. Sinto-me na autêntica poltrona do lema de Baião, “Vida Natural”. Não lhe poderia assentar melhor.

Foto: Susana Luzir

É hora de repouso. Antes, calcorreara misteriosos trilhos. Aprendera detalhes sobre a rica fauna e flora. Aqui podemos encontrar algumas espécies faunísticas únicas em toda a Península Ibérica e ainda 30 a 40 por cento de algumas espécies animais e vegetais existentes em todo o território português. Dizia ainda que me embeiçara por cascatas que brotam nas veias da serra. Que me enamorara de saltitantes cabras guiadas pelo seu paciente pastor. Subira a imponentes montanhas que me proporcionaram infindáveis horizontes. Jurava que podia tocar o céu e ser dono deste e de outros universos. Aqui, sinto que não há limites. Para nada…

Foto: Susana Luzir

Respiro qualidade ambiental. Afinal, 63,5 por cento do território de Baião é área verde e floresta. Aqui convivem as esbeltas serras do Marão, da Aboboreira (mantém um conjunto fabuloso de monumentos megalíticos, de uma pré-história com mais de 5.000 anos, o Campo Arqueológico da Serra da Aboboreira) e de Castelo de Matos. A seus pés, os rios Douro, de encantos mil, Teixeira, com grau de conservação e valor ecológico superior aos restantes rios da região, e Ovil, um importante polo de atração turística, devido à pureza das suas cristalinas águas, praias sedutoras e riqueza de peixe.

Foto: Susana Luzir

Baião em si é o que se pode esperar de uma vila que não terá mais de 3.500 habitantes. Pequena, mas acolhedora. Na qual se percebe o legado histórico do concelho. Os principais serviços concentrados junto ao edifício autárquico, a igreja paroquial, uma praça com esplanadas e informação sobre cada uma das freguesias. E o convite a uma visita ao Núcleo de Arqueologia do Museu Municipal.

Descendo rumo ao Douro, encontro vestígios pré-nacionalidade no Mosteiro de Ancêde, zona onde me hospedaria, na inigualável Casa da Lavand’eira. Fundado no século XII, podemos visitar os espaços recuperados dos antigos celeiros, adega e lagar. A envolvente engloba também a Capela da Nossa Sr.ª do Bom Despacho. Complexo de grande influência social e económica na região no período medieval, nomeadamente no Douro entre o Porto e a Régua. 

Imperdível a visita à Fundação do nosso Eça de Queiroz, preferencialmente seguida de repasto ‘queirosiano’ com um dos mais fantásticos panoramas da região para o Douro: invejável tónico para os amantes das letras, apreciadores da boa comida e os indefetíveis da natureza. Não conheço muitos conceitos de maior felicidade. Mais detalhes da experiência AQUI: http://bornfreee.com/2017/06/17/fundacao-eca-queiroz-baiao-alimentar-alma-saciar-gula/

Agora a beijar o rio, em Santa Cruz do Douro, temos o Museu Rural e Etnográfico Casa do Lavrador, onde podemos redescobrir como era a vida há um século. As agruras e dia-a-dia do camponês do século XIX.

Encontro com a querida D. Maria dos Prazeres

Por todo o lado, deparo-me com genuína simpatia e pura simplicidade. E é quando paro para fotografar um poético palacete abandonado que me embeiço pela D. Maria dos Prazeres, que aos 84 anos continua firme e bem ativa, apesar dos múltiplos problemas de saúde que não lhe permitem a vida que deseja. Ouço-a porque tem (muita) vontade de falar. E aprendo. Humildemente, sou seduzido pela pura autenticidade do seu ser. Algures na conversa, oferece-me uma cebola, de entre os vários legumes que cultiva e vai entregar a uma vizinha, a troco de parcos euros, vitais para o seu sustento. Faz questão que a aceite. Poucas prendas terei recebido que me tenham emocionado a este ponto. Simbolismo e gesto que não esquecerei. Faz-me apenas um pedido. Que lhe envie a foto que juntos tiramos. Coloco-a aqui, para a posterioridade, pois não desejo esquecer este momento.

Eça de Queiroz não se apaixonou unicamente pelas paisagens de Baião ou pelas suas encantadoras gentes.

Certamente que os seus apetites também se enamoraram da região. E não falo somente do arroz de favas com frango alourado referenciado na sua obra “A Cidade e as Serras”.

Baião é terra de Anho Assado com Arroz de Forno, que até tem direito a festival. Esta é a sua verdadeira imagem de marca. Mas há mais. Muito mais. O fumeiro é outra das suas especialidades, pelo que também tem direito a festividade própria. Destaca-se ainda a posta de vitela Arouquesa. Com biscoito da Teixeira e um refrescante vinho verde. Na fronteira com a Região Demarcada do Douro, Baião integra a região interior da demarcação dos vinhos verdes. Azal e Avesso (brancas) e a Amaral (tinta) são as castas da região. “Entra mais na alma do que qualquer poema ou livro santo”.

De todas as vastas opções para comer em Baião, que muito bom tratamento me deram, destaco a graciosa Tasca do Valado. Vale bem a deslocação a Mafómedes. TODA a gastronomia experienciada soou a divindade para o meu palato: as gostosas entradas de produtos regionais, o suculento bacalhau na brasa, que também tratou bem a posta… e o vinho gelado, na temperatura certa. Benzi-me antes de atacar o queijo com doce de abóbora. Tudo diante de uma das melhores vistas do norte de Portugal. Este privilegiado balcão bem que justifica a visita.

Esta é igualmente terra de gente inspiradora e tenaz. É o berço da amiga Luzir, mulher de épicas lutas, entre a quais a de colocar o Marão no patamar de reconhecimento que merece. Muitas das imagens deste artigo são fruto da sua sensibilidade, paixão e qualidade fotográfica.

Eça de Queiroz não foi o único homem das artes a dedicar-se a Baião e suas paisagens. Camilo Castelo Branco, Alves Redol, Agustina Bessa-Luís e Soeiro Pereira Gomes, que aqui nasceu, juntaram-se-lhe na admiração por esta surpreendente terra e seus dóceis habitantes.

Foto: Susana Luzir

Estes dias inspiradores foram passados na deslumbrante Casa da Lavand’eira (www.casadalavandeira.com), sem dúvida um dos melhores projetos de turismo rural que já experienciei pelo Mundo. São 16 hectares de genuíno e tradicional, ancorados em fantástica casa senhorial com decoração a preceito. Uma piscina. Adega. Vinha. Oliveira. Tasca. Salão de eventos. Passeio pedonal junto ao rio…

Sei que muito ficou ainda por ver e descobrir, por isso voltarei a Baião. E não será apenas uma vez…

 

 

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

55 comments

  1. Analuiza (Espiando Pelo Mundo)

    Esse é texto é pura poesia e prazer! Derreti-me por todos os elementos: dos verdes à matadora gastronomia, mas nada superou àquela cebola: de marejar os olhos (não pelo ardor que poderia provocar, veja bem!) e encher a alma de esperança na humanidade! bj e que venham mais textos e viagens como essa

    1. Rui Batista Post author

      Analuiza… deixaste-me sem respiração 🙂 O facto de teres “tocado” na cebola sensibilizou-me. Significa que tens o necessário para ajudar a construir um Mundo melhor. Muito obrigado – mesmo – pelas tuas palavras e depoimento. Bjkssss e abraço…

    1. Rui Batista Post author

      Francisco, quando quiseres um Portugal surpreendente e fora dos destinos ‘óbvios’, parece-me excelente opção 🙂 Abraço e boas viagens!

  2. Ana

    Fiquei com água na boca e não me refiro só à gastronomia… É um prazer ler os teus textos! Essa cebola tem um gosto especial:) bjinhos

    1. Rui Batista Post author

      Ana, agradeço-te as palavras 🙂 Mais do que ler os textos, aconselho mesmo a visita a Baião 🙂 Beijinhos e boas viagens…

  3. Ana Campeao

    Fiquei com água na boca e não me refiro só à gastronomia… É um prazer ler os teus textos! Essa cebola tem um gosto especial:) bjinhos

  4. Sandra Melo

    Baião é terra quente… de gente boa e de boa gente. Born free enquadra-se perfeitamente neste espirito. Gente ardente e apaixonada pelo que fazem.

    Bem hajam e continuem a deliciarnós com estas “estórias” e vivências

    1. Rui Batista Post author

      :))) Obrigado pelas palavras, Sandra Melo 🙂 Só por isso perdoo o “free” com apenas dois “ee” quando tem 3 (Bornfreee) :))) Beijinho e boas explorações de Portugal…

  5. Paula Marques

    Rui as tuas descrições deixaram me cheia de vontade de ir conhecer esse cantinho do nosso Portugal Lindo, alem disso fiquei com agua na boca com essas comidas de aspecto delicioso 😉
    Conhecer melhor o nosso pais faz parte dos meus planos futuros…fico cheia de inveja das tuas experiências.
    Beijo

    1. Rui Batista Post author

      Querida Paula, um dia ainda te juntas ao projeto Bornfreee na exploração de Portugal… e do Mundo 🙂 Boa? Beijinho e obrigado por ires acompanhando…

  6. SSS

    Como sempre as tuas viagens são experiencias de dar e de receber… na simplicidade que te torna único e contagia os/as que te rodeiam.

  7. Estela Figueiredo

    Muito bom! Dá vontade de fazer as malas e partir :). Excelente texto acompanhado com um óptimo estímulo visual! Bjo

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Estela Figueiredo. A Luzir tem o ‘crédito’ de nos mostrar o melhor da sua terra. Beijinho e boas viagens… 🙂

  8. Xie Jinyu

    Sinto que posso repirar o ar fresco com o cheiro do rio enquanto ler o texto, um lugar maravilhoso para fugir da confusao do dia-a-dia e uma boa oportunidade para comunicar com a natureza. Espero que tenha a oportunidade de estar num lugar assim, caminhar na floresta e descobrir casas antigas durante o dia, e comtemplar a Via Lactea junto com o canto do rio durante a noite!

    1. Rui Batista Post author

      Muito bonito, Xie Jinyu 🙂 Obrigado pelo comentário… e beijinho transatlântico 🙂

  9. Andreia Vieira

    Para uma apaixonada pela obra de Eça de Queiroz como eu, não ter ido ainda à Fundação com o seu nome é uma lacuna grave. Eu já o sabia, mas depois de ler o teu texto, percebi que tenho de resolver isto com a maior urgência. É que da forma como nos apresentas isto tudo – desde as maravilhosas paisagens à gastronomia – pergunto-me porque é que ainda não estou a fazer a mochila para partir já amanhã! Parabéns pelo artigo e obrigada pela partilha!

    1. Rui Batista Post author

      Andreia Vieira… com ou sem mochila, mete-te a caminho 🙂 E parabéns pela bela paixão. Beijinho e ótimas viagens…

  10. NiKi Verdot (1001 Dicas de Viagem)

    Rui, eu já fico impressionada com as fotos que você posta no Instagram, mas agora conhecendo o seu Blog vi que a forma como você escreve também me deixa encantada. Não conheço Portugal, depois de saber um pouco mais sobre Baião, com certeza quando for tentarei encaixar em meu roteiro. Obrigada pela dica!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Niki 🙂 Feliz por saber que aprecias. Portugal é um destino maravilhoso… como no Brasil, tem de TUDO. Quando cá vieres, avisa e ajudo no que precisares. Beijinho e boas viagens!

  11. Ana

    Extraordinário! Nunca aí estive mas fiquei encantada e com muita vontade de conhecer. E os pratos, que delícia devem ser! Mas são momentos como aquele que tiveste com a Dona Maria dos Prazeres que não se esquecem nunca!

    1. Rui Batista Post author

      É isso mesmo, Ana. A dona Maria DOS Prazeres (faz questão de acentuar o “DOS”) é uma jóia em qualquer viagem… Beijinho e boas aventuras!

  12. Rayane

    Rui, adoro ler seus relatos! Sempre muito bem escrito, daqueles que dá vontade de ler até o final.
    Sobre Baião, ainda não conheço, mas parece que conheci lendo o artigo e fiquei com vontade de conhecer pessoalmente.
    “invejável tónico para os amantes das letras, apreciadores da boa comida e os indefetíveis da natureza.”
    Adoro lugares assim e, como Eça disse acima, Baião é tudo isso.
    Obrigada por me apresentar o lugar! Já vou colocá-lo em minha lista!

    1. Rui Batista Post author

      Rayane, obrigado pela gentileza 🙂 O bom de Baião é que é tudo isso mesmo… dos lugares mais genuínos que podes encontrar. Beijinho e excelentes viagens… 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Eliana… marca a viagem JÁ!! 🙂 Acredita que Portugal tem TUDO para ser a viagem da tua vida… e Baião é um cantinho surpreendente…

    1. Rui Batista Post author

      Juliana, a apenas uma hora do incomparável Porto 🙂 Beijinho e boas viagens…

  13. Francisco Agostinho

    Há pessoal que adora viver perto da praia, eu, como cresci rodeado de montanhas (serra do açor e estrela) tenho uma “pequena” tendência a enfiar-me nas serras. Deve ser por isso também que aprecio muito mais um anho, cabrito assado, costeleta de vitela, presunto, queijo…vinho em vez de marisco ou camarão heheheh

    1. Rui Batista Post author

      Francisco, eu já nem me lembro onde nasci (mentira, foi na casa dos meus avós maternos em pleno Minho), mas, pelos vistos, partilhamos as mesmas preferências… Grande abraço e boas viagens!

  14. Mayte Scaravelli

    Que poesia! O Douro de fato é terra de gente inspiradora, estive recentemente na região do Valle do Douro e foi um dos lugares mais lindos que eu já conheci na vida, nunca vou me esquecer das paisagens!

    Voltar para as margens desse rio, agora olhando de outro ângulo foi como resgatar minhas boas lembranças desses dias…

    Boa comida, natureza e uma boa companhia, do que mais precisamos não é mesmo?

  15. Dhebora

    Que lugar maravilhoso! Não conhecia, mas senti uma paz enorme vendo essas fotos!Outra coisa que achei sensacional foi a sua forma de escrever… lindo, lindo! Parabéns!

    1. Rui Batista Post author

      Dhebora, obrigado pelas palavras de carinho 🙂 Espero que um dia tenhas a oportunidade de visitar Portugal e Baião… boas viagens!

  16. Leo Vidal

    Cultura, natureza e gastronomia de dar água na boca, ainda mais para mim, fã de polvo. Não poderíamos pedir algo melhor. Como sempre ótimo relato e o máximo poder registrar o momento que teve com Dona Maria, ouvi-la certamente a fez muito feliz.

  17. klecia

    Que lugar maravilhoso! Incrivelmente belo -e as fotos ficaram lindas demais também! Eu não conhecia esse destino, mas agora já entrou pra minha lista! Tanto a ver em Portugal!

    1. Rui Batista Post author

      Klecia… tira um bom tempo para visitar Portugal 🙂 E aposta, além do óbvio, em pequenos paraísos como Baião. boas viagens!

  18. Isabel Ribeiro Belita

    Como baionense, revi e senti cada palavra.
    Tudo o que é descrito aliado às imagens que espelham a pureza deste concelho, é tudo o que me faz querer voltar e orgulhar-me da minha terra.
    Terra de gente humilde que nos dá e ensina tanto…
    Baião e os baionenses pediram à Susana Luzir para para que ela os tornasse como dela…
    e foi isso que ela fez.
    Não foi difícil, Ela é a Dona da Luz!
    Bem hajam!

    1. Rui Batista Post author

      Subscrevo, Isabel Ribeiro. A Luzir é, realmente, Dona da Luz… e Baião um destino sublime…

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