Ushguli (Geórgia): és Mundo parado há 1000 anos.

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Geórgia Médio Oriente

Remota e distante: a mais alta aldeia habitada da Europa.

O nosso objetivo anuncia-se na penumbra da chuva. Várias horas de bucólica e bastante desconfortável viagem e estamos a chegar. Mais um par de curvas e o remoto povoado na agreste cordilheira do Cáucaso ganha novos contornos. Que em breve terão textura e todos os outros sentidos exacerbados.

Avançamos em região que a UNESCO protege. A paisagem montanhosa de Svaneti é um excecional cenário de aldeias de estilo e vida medievais, com típicas casas que simultaneamente são torres defensivas, com mil anos de história. Com vários pisos e paredes gradualmente mais finas, são verdadeiros postos de defesa contra os invasores que em sucessivos séculos atormentaram a região.

A UNESCO diz que a estrutura habitacional revela que desde a pré-história que esta região conta com presença humana, sendo que a mesma tem vivido um longo historial de isolamento, em harmonia com a natureza que a rodeia.

Exploramos a encosta do Chkhara, que a 5058 metros de altura serve de imponente fronteira natural entre a Geórgia e a Rússia.

Para quem aqui se aventura, Ushguli tem um elan místico. De feito assinalável. Vir a este fim de Mundo dá direito a inesquecível recompensa: sentimos – mesmo – que conquistamos algo. Afinal, não há na ‘Europa’ povoação habitada (permanentemente) mais alta, a uns 2.100 metros. Nada como juntar um marco destes a um destino simplesmente idílico, com poéticas paisagens alpinas.

Mas para entender devidamente Ushguli, é fundamental perceber a ‘proeza’ que é chegar a estas paragens, que durante seis meses por ano estão inacessíveis. O frio e manto gelado devolve este icónico sítio às trevas da Idade Média…

O clima não ajuda. Neste éden montanhoso a chuva aparece em abundância mais do que a desejada. Mas nada nos travará da demanda de percorrer a nossa Via Dolorosa para atingir este pastoril céu. Estamos em Mestia, o ‘centro’ da exploração de Svaneti onde não residirão 3.000 almas. Contrato 4×4 e condutor, pois esta é a única forma de alcançar Ushguli. Partimos bem cedo, com o dia fresco. São 47 quilómetros percorridos a velocidade tenebrosamente lenta. Sim, cumpriremos uns 10 quilómetros por hora. Por ásperos trilhos ladeados por aveludados verdes e arrebatadoras vistas. A estrada que apenas abre parte do ano – quando estas terras altas são dominadas pela neve, há pouco a fazer – está em obras em vários pontos. Todo o percurso parece bem necessitado de remendos ou reconstrução.

O motorista é de poucas falas. Pudera, não se atreve numa palavra de inglês. Se o assunto é importante, liga à irmã, diz o que quer e passa-me o telemóvel à tradutora pessoal.

Com soberbas montanhas a fazer peito aos envolventes vales, vamos trilhando o nosso caminho. Sobram picos nevados. Com mais de 4.000 metros. Temos bastante gado bovino, demasiado magro. “As vacas precisam estar magras para poderem trepar montes, subir íngremes encostas”, justificam-me, mais tarde.

Nova paragem. Um bulldozer corta a via. Tira toneladas de terra, enquanto ocupa toda a passagem. Resignado, quem nos conduz aproveita para novo cigarro.

Vão desfilando casas semidestruídas. Em pedra. Como poemas esboçados no mais resistente papiro… cruzamos ribeiros. E fortes cursos de água invadem o carreiro. A serra jorra água pelos inúmeros ‘veios’ que a cicatrizam. Por vezes, o trilho é insuportável. Vamos acariciando, lentamente, as imprevistas formas do acidentado relevo. Pura montanha-russa em enlameada via (verdadeiramente) penosa.

Aparecem as primeiras torres, as míticas que tornaram Ushguli Património Mundial da UNESCO. Estaremos perto. Injeção de entusiasmo. Mesmo quando a lama toma conta de tudo. Subitamente, Ushguli surge nas nossas vidas. E é, em si, um filme épico….

Chazhashi (Chajashi), Zhibiani, Chvibiani (Chubiani), e Murqmeli são nomes de aldeias mais difíceis de encontrar em Svaneti do que de pronunciar. E é este mesclado conjunto que forma a mágica Ushguli. Uma comunidade dominada pelas ditas ‘fortalezas’, a sua característica mais notável, e situadas nas encostas da montanha, com um ambiente natural de desfiladeiros e vales alpinos e um pano de fundo de soberbas serras cobertas de neve.

Aqui, as condições de vida (diria antes ‘sobrevivência’) são um persistente e continuo desafio à condição humana. Os dias de sol não abundam. Calor é termo que mal conhecerão. A personalidade desta gente é peculiar. Isto é outro reino. Com menor apetência para a afabilidade e os afetos. E, infelizmente, os animais também o sentem. Tirar uma vaca da frente com uma seca martelada no fundo do esquelético dorso não é algo que aprecie particularmente. Não gostei. Os cães não andam propriamente com o rabo a abanar, nem se estimulam ou ralham a estranhos. Se lhes propomos uma ‘festa’, começam por expressar duvida. Estranheza. Depois, se realmente insistimos, acabam por ceder a esse forasteiro ‘amor’. Num ápice, parecemos amigos desde sempre.

A exploração segue por quelhos mal-amanhados. Casebres incompletos, pobres, semidestruídos, mas cheias de alma. As torres de vigia e defesa que vagueiam pela erosão são, agora, local de dormida para os animais. E zona para guardar mantimentos no interminável e exigente inverno. Que demasiadas vezes priva estes resistentes do resto do Mundo. Custa só de imaginar… mas é uma ideia que me tenta.

O facto de estarmos tão distantes de tudo e do acesso ser bem difícil levou a que, em períodos de guerra, os maiores tesouros da Geórgia tenham sido transferidos e guardados em Ushguli. Também por isso, estamos em região muito especial.

Essa e outras histórias podem ser ouvidas nas improvisadas ‘guest houses’. Aqui não há estadias ‘programadas’. Somente esboços de habitações geridas por famílias que partilham o seu dia-a-dia com os audazes. O espaço. A mesa. E uma cordialidade que parece escondida no agreste quotidiano.

Almoçamos fiéis ao nosso pecaminoso estilo usual: experimentar tudo. E em doses que ultrapassam o bom senso. O vinho avinagrado – intragável, volta para trás – devolve-nos à realidade. Na verdade, tem tudo a ver com todo o panorama. Afasto-me do néctar dos Deuses e foco-me num enorme cadeirão de madeira meticulosamente trabalhado. “Demorou-me seis meses a fazer”, atira o artista. Verdadeiro.

Isto é um trono. Que cada um dos 200 resistentes deste erudito cenário medieval merece. Viver neste encantador ermo é um teste diário. Todo o nascer do sol é uma autentica conquista. Ushguli tem sido ‘defendida’ pelo seu posicionamento remoto e as verdadeiras dificuldades que se apresentam a quem a deseja alcançar. Essa solidão ajuda, imenso, a que tudo seja preservado, como se o tempo nestas rudes paragens tivesse outra contagem.

O regresso a Mestia será igualmente exigente. Sem luz solar, o trajeto será ainda mais complicado. Mas depois de experienciar as agruras de Ushguli, ninguém ousa queixar-se. Na verdade, não queremos partir. Estamos em local bem singular. Único. Um lugar que só existe porque alguém o terá inventado em criativo filme de ficção…

 

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

46 comments

    1. Rui Batista Post author

      NÃO PERCAS MESMO, Francisco Agostinho. Mesmo que Tusheti seja mais perto de Tbilisi 🙂 Svaneti é paradisíaco (para os meus padrões lol). Podes voar para Kutaisi. Fica a dica 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Carolina 🙂 Estou certo de que o teu espírito de aventura e vontade de lugares únicos um dia te levarão a Ushguli 🙂

  1. Andreia Vieira

    Excelente artigo e com efeitos imediatos: uma vontade imensa de partir à descoberta deste lugar único. Parabéns e continua a partilhar connosco experiências destas para que a nossa lista de lugares obrigatórios nunca deixe de aumentar!

    1. Rui Batista Post author

      🙂 Obrigado, Andreia Vieira. E espero que continues desse “lado”, pois só assim faz sentido escrever. Beijinho e boas viagens…

  2. Gabriela Torrezani

    Confesso que até pouco tempo nunca havia ouvido falar na Geórgia, mas fiz uma amiga de lá nas aulas de catalão e ela sempre fala do seu país… amei ler mais no seu post e ver as fotos, lindo lugar.

    1. Rui Batista Post author

      Gabriela, aproveita e visita a Geórgia. Sem dúvida, dos países com povo mais amável e hospitaleiro, e muito rico em termos de paisagens, história e cultura. Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Fabíola 🙂 Podemos escrever a realidade de forma bonita. Beijinho e boas viagens…

  3. Flávio

    A Georgia para mim é um país super desconhecido! Quase não vejo artigos ou informações sobre lá.
    Gostei muito de saber um pouco mais sobre este país. Sua experiência por lá foi muito rica, dá pra ver pelas fotos e pela entonação do seu texto o quanto você aproveitou cada minuto por lá!

    Muito bom seu relato, sua forma de escrita é única! Parabéns!

  4. Xie Jinyu

    Os lugares isolados sao sempre mt diferentes e bonitos!! Quero viver num lugar assim por algum tempo (na minha provincia tem muitos, haha! )

    1. Rui Batista Post author

      Jinyu Xie, tens de me levar novamente às profundezas rurais da China 🙂 Beijinho e boas viagens…

  5. Declev Reynier Dib-Ferreira

    Linda escrita, poética. E que lugar hein?! Não sei se me aventuraria agora com duas filhas pequenas… mas que dá vontade, dá. Só pelo prazer de vencer essas barreiras que você apresenta. Mas, pelas fotos fiquei com uma impressão que o local é meio “feio”, é isso? abraços,

    1. Rui Batista Post author

      Declev, é mesmo isso 🙂 Será para levares as filhas um dia mais tarde… e, não, a parte “humana” não é o esteticamente bonita. Mas eu AMO este degredo-histórico 🙂 E as paisagens envolventes são sublimes. O problema deste dia é que chovia… abraço e boas viagens!

  6. Adriana

    Que lugar cheio de encantos… nao impressiona tanto pela beleza em si, mas seu relato fez com que eu ficasse cheia de curiosidade sobre esse local. Bela escrita!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Adriana 🙂 A beleza que mais aprecio não é a estética. Beijinho e boas viagens…

  7. Alessandra Fratus

    Caríssimo Rui, suas palavras fazem a gente percorrer caminhos ancestrais e voltar no tempo, ponde a vida de verdade se esconde. A cada novo destino que descubro por aqui, a minha lista de vontades aumenta! Parabéns pelo blog inspirador!

    1. Rui Batista Post author

      Alexandra, assim fico sem jeito 🙂 Muito obrigado pelo carinho, e posso retribuir os elogios ao Topensandoemviajar 🙂 Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Marcia 🙂 Muito gentil. Em Ushguli a vida é bem dura para todos…

    1. Rui Batista Post author

      🙂 Ainda bem que serviu para inspirar, Maíra 🙂 Beijinho e belas explorações…

  8. Analuiza (Espiando Pelo Mundo)

    Estou boquiaberta! Como é diversa a forma como se vive neste planeta! Me confirma o que já sabia: o homem é antes de tudo um forte! – não só o sertanejo, Euclides, pelo visto!

    Gostava de ver de perto tudo o que narrou: dos sentimentos aos gostos. Ver de perto esta rudeza, esta aridez e descobrir se há camadas: fundas, rasas ou nenhuma.

    Eres um privilegiado Rui: foi dotado de coragem e bravura para ver de perto este mundão. Ainda bem que partilhas conosco! 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Analuiza, assim fico “sem jeito” 🙂 gosto de lugares menos convencionais, mas também amo o ‘vosso’ Japão e a fantástica viagem que segui… beijinho e boas aventuras 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Edson, quase que nem tem direito a nome de “estada” 🙂 Mas é um desafio fantástico…

  9. klecia

    Quase como voltar no tempo, einh Rui? EU não conhecia o destino, mas fiquei encantada com a narrativa. Quase sinto como se tiveste entrado num portal de tempo, visitando uma vila de difícil acesso, ainda séculos atrás! E que linda e desafiante natureza! Ushguli me encantou!

    1. Rui Batista Post author

      É tudo isso, Klecia 🙂 Senti o mesmo… ainda bem que gostaste do texto 🙂 Beijnho e boas viagens…

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