Estónia ‘soviética’: Excesso de velocidade ‘virou’ pesadelo

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Estónia Europa
Exceder os limites de velocidade nunca é boa ideia. Em país ainda ‘mergulhado’ na mentalidade soviética é pior. E quando não falamos a mesma língua…

Duas faixas de rodagem para cada lado e fila compacta na esquerda a 50 km/hora é impossível de digerir quando se tem (muita) pressa de chegar. A impaciência leva-me ao lado direito da via e a acelerar, ultrapassando em crescente velocidade a massa espessa de carros que parece integrar uma lenta procissão. Não preciso sequer de um par de quilómetros até ao inevitável arrependimento pela ousadia.

À saída de Parnu, Estónia, em direção à fronteira da Letónia, na movimentada Via Báltica, que a União Europeia financiou bem antes dos dois países aderirem ao grupo. Polícia invade a estrada e dá sinal de paragem. Nada a fazer.

Explicam que íamos a mais do dobro do permitido. Ou esforçam-se por isso. Apenas mostram os registos. Não falam inglês. Eu não compreendo estónio. Presumo que o português também lhes passa ao lado. Ambos arranhamos alemão. Insuficiente para o demover da multa.

Percebo que não posso paga-la no local. Também não tenho dinheiro. Diz-me que tenho de voltar a Parnu e procurar a esquadra da polícia, no centro. Respondo-lhe que não conheço a cidade e que será complicado lá chegar. Adivinho que tenta convencer-me do contrário. Começa a chover. Fortemente. “Follow us”, sugere. Afinal, os deuses têm alguma compaixão.

A chegada à esquadra não é bonita. Uma mulher, que aparenta trabalhar no negócio do prazer, como que bate num agente. Na verdade, tenta e consegue. Este procura ser gentil, permite o inadmissível a quem estará detido. Ou em vias de o ser. Surreal.

O corredor é frio. Impessoal. Esperamos. Até que somos chamados a uma sala, com um balcão a separar-nos da representante da lei. Preparamos o cartão de crédito. Acena com a cabeça. Supostamente não é bem assim. Perceberemos que teremos de falar com outro polícia. Toca-nos o chefe da esquadra, alegadamente o único que fala inglês.

Sentamo-nos. Parece que a coisa pode ser complicada. Explica-nos a infração e a gravidade da mesma. Assumimos. Pedimos desculpa. Explicamos o sucedido. A diferença cultural na abordagem à situação.

Surpresa. Manifesta alguma compreensão. “Mas vou ter de vos punir na mesma. Ainda assim, aplico-vos a segunda pena mais baixa”, sossega-nos. “Ultrapassando o dobro da velocidade legal, entenderão que não posso optar pela pena mínima. Mesmo tendo em conta as atenuantes”, acrescenta. Pacífico.

Uns trinta e tal euros acabam por ser um alívio. Esperávamos resultado bem pior. Agradecemos. Prometemos não voltar a prevaricar. Regressamos ao guichet com o papel que nos dá. A agente assina, carimba e indica-nos que devemos pagar. Inesperadamente, não pode ser resolvido com ela. “Têm de ir ao banco. Pagam, eles dão-vos o comprovativo e trazem-mo”, declara. Com mais gestos do que palavras percetíveis.

Temos pressa. Este modo de operar não facilita a nossa vida. Compreendemos que em 2001, ainda com muitos vícios soviéticos, a burocracia domina naturalmente o aparelho. Procuramos uma agência. Levantamos o montante exato para saldar a infração, uma vez que estamos em vias de deixar o país.

Tarda, mas chega a nossa vez. Tudo certo, não fosse uma taxa qualquer de uns trinta cêntimos bloquear o processo. “Levantamos exatamente o montante da coima. Aqui não fala nada em taxas”, replicamos. “Pois, mas o banco cobra comissão que deve ser acrescentada à multa”, responde-nos a funcionária, indiferente à frustração que evidenciamos.

O levantamento mínimo não deixará de nos custar os olhos da cara, em taxas. Encaramo-la novamente, com ar evidentemente contrariado. A insensibilidade da nossa interlocutora ganha. Naturalmente, não quer saber.

Sem tempo a perder. Voltamos à polícia. Entregamos o comprovativo de pagamento para recebermos os documentos. Desejamos seguir viagem. Já não estaremos em Riga com luz do dia. Cumprimos a nossa parte. As autoridades complicam um pouco mais no seu dever.

“Agora vou ter de ligar ao agente que tem os vossos documentos, informá-lo de que está tudo regularizado”, informa-nos. Não queremos acreditar. Burocracia é um doce eufemismo comparada à inesperada experiência. “Está em serviço por perto. Não demorará”, tranquiliza-nos. Ou tenta.

Esperamos. E desesperamos. Meia hora depois, está de volta. Com a carta de condução e demais papeis. Entregamos-lhe o papel mágico fornecido pelos serviços. Devolve-nos os nosso pertences. E orienta-nos até à saída da cidade, abrindo-nos caminho com o seu moderno carro.

Agora guiados por ritmo prudente. Aproveitamos e gastamos os trocos que sobraram em gasolina. Ups… medimos mal o consumo. Fazemos confusão com as vírgulas. Abastecemos mais do que a verba que temos disponível. Há dias…

Candidamente, explicamos a situação. Pretendemos pagar em numerário e o restante em cartão de crédito. Pois… houvesse máquina que o permitisse.

“Não faz mal. Fica assim”, surpreende-nos o funcionário. E a diferença não é pouca. Muito menos num país que neste período da sua história ainda está em atraso económico. Agradecemos. Sinceramente.

Passamos novamente pelo lugar do crime. Lá está o carro da polícia. Ohhhh… afinal não está. É apenas uma imitação em tamanho real. Substitui o original. Um painel que visa assustar. Moderar o ímpeto acelera dos condutores. Algo comum nos países do norte. Há um par de horas tivemos menos sorte.

Cumprimentamos os polícias fictícios. A multa reforça a vasta coleção de punições similares em vários cantos do globo. Troféus de guerra em histórias engraçadas, mas que melhor seria não colecionar.

 

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

30 comments

    1. Rui Batista Post author

      É isso, Pedro. Mais sorte que juízo 🙂 Mas valeria a pena… só pelo insólito de toda a história. Abraço e boas viagens!

  1. Gabriela Torrezani

    Gente, que aventura mais doida! hahahha adoro o jeito que você escreve esses contos de viagem. Daria um livro, sabia? Nesse caso foi um mix de diferenças culturais, burocracia extrema e diferenças linguísticas… que bom que deu tudo certo no final 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Excelente ideia, Gabriela 😉 E obrigado pelo carinho das palavras. A “piada” é essa mesmo: um mix com um pouco de tudo… e, mesmo que desse errado, continuaria uma boa história :)))

  2. Andrea

    Dica muito importante. Gostei do seu relato…e o bigode do homem também foi uma atração a parte. Obrigada por compartilhar essa informação com a gente.

  3. Tina Wells

    Adoro ler seus textos e o jeito que você conta suas histórias. Eu teria ficado com muita raiva ao ver que o carro não estava mais lá! Mas, fazer o que, viagem que segue e mais experiências, boas e ruins, pela frente!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Tina 🙂 Acho que “mereci” não ver lá o carro na segunda passagem lol Prefiro ter pago a multa e ter passado por tudo isto. São das boas memórias de viagens… bjks e boas aventuras…

    1. Rui Batista Post author

      Nem mais, Juliana. Quando corre mal, corre muito bem: fica uma ótima história 🙂 bjkss e boas viagens…

  4. Diana Guerra

    Ah pois é, o pé pesado tem as suas consequências… Por cá também tenho o pé pesado mas nunca me aconteceu uma dessas. Ainda assim tiveste bastante sorte, 30 euritos pelo dobro da velocidade? 😛

    1. Rui Batista Post author

      Bons velhos tempos, Diana. Acredito que agora o “tombo” seja muito maior 🙂 Terei interpretado bem o papel de condutor exemplar… que prevaricou pela primeira vez 🙂

  5. Marcia

    Adoro ler seus relatos, que soam mais lindos com sotaque Português.
    Só fui parada uma vez pela polícia, mas tenho uma coleção de histórias de perder o caminho e não conseguir me comunicar.

    1. Rui Batista Post author

      Marcia, tens de partilhar essas histórias 🙂 Bom, confesso ter multas suficientes para decorar a parede da sala 🙂 Quase todas com boas histórias. Obrigado pelo carinho… beijinho e boas viagens…

  6. Deisy Rodrigues

    Que experiência inesperada em um país estrangeiro com a cultura tão diferente, adoro sua forma leve de escrever, deixe leve tá uma situação tão tensa, mas fica a dica pra não abusar da velocidades nesses países com a burocracia ainda tão engessada.

  7. Alessandra

    Gente que loucura isso. Que medo, se fosse comigo estaria perdida, não falo alemão…rs. Muito boas estas informações, servirão para ficarmos atentos em uma visita a Estônia. Obrigada.

    1. Rui Batista Post author

      Alessandra, entretanto tudo mudou (até já fui multado em inglês lol). Podes ir sossegada, o país é, agora, bem diferente…

    1. Rui Batista Post author

      Há agentes da lei “sensíveis” ao choro feminino 🙂 Até podia resultar lol Beijinho e boas viagens, Juliane.

  8. Keul Fortes

    Nossa, gente! Que aventura hein? Uma para o resto da vida, pensa… Quanta burocracia né? Mas a melhor coisa nessas horas, em um país bem diferente do que o nosso é seguir as regras e fim! Ainda bem que no final deu tudo certo. Ufa!

    1. Rui Batista Post author

      Keul, quando as coisas correm “mal”… na verdade correm muito bem: fica excelente história para contar o resto da vida 🙂 abraço e boas viagens!

  9. Robba

    Tenho bastante medo desse tipo de aventura (risos) mas ainda bem que nnao foi nada pior. Pelo menos deu uma ótima história pra ser contada no site. Parabéns pela materia

    1. Rui Batista Post author

      Michela, gosto destas aventuras. Quando corre mal… já penso no bom que vai ser contar a história :)) bjks e boas viagens…

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