E o campeão do Mundo de futebol é o… Burundi!!

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África Burundi

Quando o futebol nos leva a outro ‘planeta’: Uma ‘luz’ num dos mais pobres países do Mundo?

Alemanha e Argentina estavam a dias de disputar mais um título Mundial, neste caso no Brasil2014. Pelo caminho ficaram o anfitrião Brasil e a Holanda, eternamente à beira do sonho. Seleções repletas de ‘estrelas’, que povoam a ilusão de qualquer equipa ou adepto. Falamos da elite do futebol Mundial. E como é no… Burundi?

Para quem não sabe, é um pequeno país africano. Dada a extrema pobreza da nação, bem se pode orgulhar do (na altura) honroso 128.º no ranking da FIFA, composto por 209 seleções.

Os factos dizem-nos que a sua realidade desportiva é de outro… planeta. Garantem-me que o título de campeão nacional vale ao clube o chorudo prémio de… 2.500 euros. Insuficiente para pagar o meu atual périplo por África. Mas é isso que espera ao campeão do 10° país com menor índice de desenvolvimento do Mundo. A recompensa pela vitória em jogo ‘complicado’ dá direito a menos do que bilhete duplo de cinema em Portugal. O ordenado mensal não paga uma conta normal de luz. Deverei acrescentar que, na ausência de balneários, o banho após o treino é em plena rua? Ser campeão do Burundi é mesmo assim. Rico em factos de ficção. E mordomias…

“O nosso campeonato tem muitos futebolistas com valor para jogar na Europa. Apenas não somos seguidos porque somos um país demasiado pobre. Ainda assim, a nossa posição no ranking da FIFA mostra o que sabemos”, diz-me interlocutor que não quer ser identificado. Aliás, como todos os outros das quatro formações das primeira e segunda divisões que treinam em simultâneo em amplo ervado não muito longe do lago Tanganhica. Sim, leu bem: ‘e r v a d o’. E em muito mau estado. Cada um com o equipamento de diferentes nações.

“Técnica e velocidade” são as principais qualidades do futebolista do Burundi, asseguram-me. Capacidades desenvolvidas em terrenos de que até algumas cabras desdenham. Outras, alimentam-se por aqui. Literalmente. Este amplo espaço, onde cabem uns quatro relvados normais, tem mais peladas do que erva. Bem grande e cheia de tufos.

“Estamos habituados às dificuldades. Se jogamos bem nestas condições, imaginem em campos relvados decentes”, reforça, não desperdiçando uma oportunidade para valorizar o produto local.

As balizas não estão alinhadas nem têm redes. Os guarda-redes que usam luvas, e nem todos o fazem, têm-nas mais do que desgastadas. E os trabalhos podem ser invadidos por qualquer um. A todo o instante. Neste momento, não são apenas dois cães, que passam despercebidos, a cirandar pelo meio do entusiasta desafio. Também um vendedor de bebidas e snacks faz a sua aparição, enquanto se joga. Invade serenamente a área onde se compete e em segundos sai pela imaginária linha lateral oposta, com cesta mais leve e bolsos certamente mais felizes. Sem que o apronto seja interrompido. Posteriormente, repete o raide que vai alternando nos trabalhos de cada equipa. Surreal.

Os treinos decorrem à porta aberta, mas “raramente os treinadores gostam de preparar a estratégia contra o próximo rival”. Normal. Vão disputando improvisadas peladinhas, porém abstêm-se de o fazer contra o adversário do fim-de-semana seguinte. É sensato.

Estou entusiasmado. O tom de pele denuncia-me. E a máquina fotográfica, que insiste em disparar, levanta natural curiosidade.

“És um ‘olheiro?”, pergunta-me um jogador, atirando-me a bola para a jogar. Dececionado com a nega. “Jornalista também é bom”, acrescenta, após ouvir a minha resposta, recuperando um pouco de ânimo. “Sim, podes contar ao Mundo o que aqui vês”, atira, fixando o seu olhar no meu, como que à procura de um firme compromisso de o fazer. Digo-lhe que sim, a um pequeno universo…

Em vários países africanos o futebol é uma porta de saída de uma miséria realmente profunda. Alguns, conseguem-no. A grande maioria é vitima de redes de tráfico organizadas que somente lhes inflamam a ilusão para logo a seguir os colocar em sérios apuros. Dizem-me que muitos acabam a competir nos ricos países do golfo pérsico. Todos os intermediários ganham, menos quem fornece a criativa mão de obra. Os protagonistas. Quem não se adapta, é simplesmente abandonado e bastas vezes deve mendigar até conseguir meios para voltar ao país. Ou então, embarca em nova aventura, volta a sonhar e…

Não consigo desmobilizar. Não desejo perder pitada desta experiência. Há quem tenha de abandonar o treino mais cedo para atacar o segundo (talvez o principal) emprego. Não há chuveiros ou wc. Nada de nada para uma troca de roupa. Improvisação: conduta de água pública, num plano baixo, a separar o relvado da movimentada estrada. É aqui onde se banham e lavam. Despidos de roupa e preconceitos. Mas defensores da sua da sua honra, zelosos da sua dignidade quando se cruzam com olhares estranhos.

No campeonato só há espaço para simplicidade e precaridade de condições: sem balneários, cada equipa vai pelas ruas rumo ao decrépito ‘estádio’, já trajada a rigor, perante a indiferença da habituada população. “Equipamo-nos onde der. Isso não é importante. Até a casa de um dirigente adversário ou do amigo de alguém conhecido serve”. Por vezes, uns jogadores têm o privilégio de se deslocar de carro para os jogos fora. Outros devem sujeitar-se a apanhar transportes públicos. No destino encontram-se todos. Não, não é fácil. Nada que os demova…

O período do aquecimento físico é uma festa para todo o  europeu. Normalmente é mais uma dança do que correta e verdadeira preparação física. Criativas coreografias acompanhadas regularmente de palmas. Ritmo! Ritmo! Ritmo!

O futebol no Burundi é seguramente um espetáculo sui generis. Sem dúvida, uma lição de vida. Sobram-lhe situações caricatas e motivos de interesse. Numa novela com enredos criativos e finais em suspense.

Fiquei fã. Incondicional…

 

NOTA:

Peritos da ONU exortaram hoje (04 setembro 2017) o Tribunal Penal Internacional (TPI) a investigar com urgência os crimes contra a humanidade e outras atrocidades cometidos pelas autoridades no Burundi.

(…)

O Burundi atravessa uma crise violenta desde abril de 2015, quando o presidente Pierre Nkurunziza decidiu candidatar-se a um controverso terceiro mandato, conseguido em julho do mesmo ano.

A violenta repressão de manifestações e um golpe de Estado falhado em maio de 2015 conduziram o poder a uma repressão sistemática.

A violência já causou entre 500 e 2.000 mortos, segundo fontes como a ONU ou organizações não-governamentais, e levou ao exílio de mais de 425.000 burundianos.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

44 comments

  1. Luiza Cardoso

    Nossa, eu lembro desse vergonhoso mundial de 2014! haha!
    Brincadeiras a parte, muito triste a situação desse país hein! A desigualdade social é matadora! Uns disputando o ranking na copa e outros o ranking de menor índice de desenvolvimento do Mundo. =(
    Apesar disso ainda bem que há quem olhe para esses problemas com olhos como o seu!

    1. Rui Batista Post author

      Luiza, já viste que o preço do Neymar daria para pagar TODO o futebol do Burundi durante mais de um século? Disparidades…

  2. cris

    Uma pena que tantos profissionais de qualidade não são enxergados pela mídia e pelos empresários. Mas, em relação ao campeonato, mesmo com toda precariedade, percebe-se que há muita alegria.

    1. Rui Batista Post author

      Um dia os mercados tradicionais estarão tão… esgotados, que África voltará a ser um bom viveiro para alimentar as exigências internacionais 🙂

  3. Gabriela Torrezani

    Que conto cheio de magia, nos faz reconhecer nossos privilegios e pensar na força que o futebol tem. É muito triste ver a condição de extrema pobreza de Burundi, eu honestamente queria que essa desigualdade absurda que há no mundo acabasse…

  4. Fábio Jr. Alves

    É incrível ver o quão dedicados e profissionais são esses atletas, que mesmo com pouca ou sem nenhuma condição se dedicam com esmero ao esporte. Muito triste saber que pessoas má intencionadas se aproveitam deles por serem de certa forma ingênuos por acreditar que estão se aproximando para oferecerem uma vida melhor.

    1. Rui Batista Post author

      Fábio, o Mundo está cheio de bons exemplos… que fazem acreditar na Humanidade… mas também sobram situações más, o “labo B” que a todos nós cabe combater, para tornar este planeta um pouco melhor. Abraço e boas viagens.

  5. Francisco Piazenski

    Que bacana seu relato, aliás, mais um… blog repleto de ótimas histórias. Adoro!
    Bacana ver a alegria com que disputam seus campeonatos locais, apesar de toda dificuldade por conta da pobreza extrema. Parabéns por conseguir trazer aos olhos do mundo.

    1. Rui Batista Post author

      Susana, aconselho o Burundi integrado em viagem “maior”, juntando-lhe, por exemplo, Ruanda e Uganda. O que precisares, avisa. Em privado posso dar-te mais informação. Beijinho e boas viagens…

  6. Oscar | www.viajoteca.com

    Adoro suas postagens sobre destinos não convencionais. Interessante a forma que você chama atenção para coisas que muitas vezes a gente “take for granted” morando em um país mais desenvolvido. Pobre ou rico a paixão pelo futebol permeia condições difíceis e fazem a alegria de todos independentemente das condições econômicas de cada povo.

  7. Luis Felipe

    Enquanto uns poucos felizardos ganham milhões e nos divertem em campeonatos cheios de estrutura e rivalidade, outros, como em Burundi, mantem a real filosofia do esporte. Incrível que apesar de todas as dificuldades, ainda se orgulhem da posição 128 no ranking.

  8. Patricia Brito Câmara

    Obrigado pela partilha de uma história fantástica e com um texto muito bom! Adorei ler. Continue por favor!

  9. Robba Caravieri

    Ficou incrível a sua matéria, essa cultura e muito interessante e diferente, as pessoas das fotos incrivelmente sorridentes embora a situação não tão boa assim em que vivem. Maravilhoso! Parabéns!

  10. Lua Ferreira

    Nunca pensei em conhecer Burundi. Acho incrível esse poder do futebol de alegrar um povo, mesmo quandoele enfrenta tantas adversidades. Mas é impossível não pensar que tem tantos ganhando milhões ( e mtas vezes são mais garotos propaganda do que jogadores), enquanto tantos outros não te ao menos a chance de serem vistos.

  11. Adriana Mendonca

    Impressionante o poder do esporte, futebol então nem se fala! Não sabia sobre o Burundi, mas a história é mesmo marcante. E como eles disseram, imagine se tivessem melhores condições?

    1. Rui Batista Post author

      Os imensos meninos-mimados do futebol deviam ter uma experiência de uma semaninha no Burundi. Bastava 🙂

  12. angela sant anna

    adorei a frase “Capacidades desenvolvidas em terrenos de que até algumas cabras desdenham.” auehaue fiquei pensando nas cabrinhas vendo o jogo de futebol apinhadas numa arvore hahueahue

    1. Rui Batista Post author

      Belo cenário, Angela :))) Já estou a ver o “filme”… lol Beijinho e ótimas viagens…

  13. Luiz Jr. Fernandes

    Oi Rui, tudo joia? Como não se impressionar sempre com um relato de viagem verídico sobre países africanos, assim com a sua escrita tão envolvente. Muito obrigado por essa pérola. Abraço!

    1. Rui Batista Post author

      Luíz, eu é que agradeço a tua “prosa” elogiosa, que me deixa sem jeito 🙂 Obrigado, abraço e boas viagens!!

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