Sri Lanka: Quando o paraíso pode ‘virar’ Inferno

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Ásia Sri Lanka

O belo Sri Lanka é um destino idílico, mas até no ‘éden’ se escondem perigos…

 

Nos momentos que precedem o quase inevitável pânico, que não chega a conquistar a minha mente, vejo-me a gritar e gesticular. Como que dentro de uma bolha inviolável, desejo libertar-me para que todos tomem consciência da iminente desgraça. Berro a plenos pulmões e agito os braços atabalhoadamente. Para que não haja dúvidas: a situação é mesmo de emergência.

Segundos antes, experimentara boiar. A água é cálida e pouco mais cobre do que a cintura. A espaços, devo saltar, para que as ondas não me ultrapassem a cabeça. Em relaxados 15, talvez 20 segundos, percebo que o mar me ‘engole’ uns bons 25-30 metros. Não tomo verdadeira consciência do perigo. Em duas ou três rebentações, a sorte transporta-me para junto dos meus amigos. Que assim não se apercebem do verdadeiro perigo.

Sou devolvido ao grupo, mas antes de que possa avisar os meus amigos, Sílvia denota preocupação. Diz que não consegue regressar à praia. Visivelmente incrédula, pede ajuda a Luís. Sem hesitar e indiferente ao risco, o amigo avança para ela e segura-lhe a mão. Num ápice, e perante o meu testemunho incrédulo, o mar já os levou. Uns bons 10, 15 metros.

“Saí já daí”, atiro para Alda. Com voz firme, alerto-a para que o seu destino seja diferente. Mas os meus dedos já não conseguem atingir os dela… “Enterra os pés na areia. Tenta prender-te ao solo!!”, suplico. Em vão…

Sem que possa contar até cinco, o trio já está bem fora do meu alcance. Aliás, quarteto, pois Rodrigo também é apanhado desprevenido. E não tarda todos são meros pequenos pontos no horizonte…

Só agora entendo, verdadeiramente, o perigo de verdadeira tragédia. Há gritos secos. Pânico que a constante rebentação abafa. A natureza é impiedosa. Não adianta contrariar os seus humores. A força da sua sina.

Os meus berros e mãos suplicantes chamam a atenção de Ana Paula. Rapidamente entende o que se passa e replica o meu desespero gestual. São segundos que parecem eternidade. Até que o primeiro nadador-salvador irrompe pelas traiçoeiras águas do Indico. Logo seguido de outros dois, de hotéis privados, solidários no auxílio a quem está em cada vez mais cansado pânico.

Devolvo o meu olhar ao mar. E já só vejo uma espécie de reticências onde apenas deveria haver um belo horizonte.

O tempo congela. Mantenho-me estranhamente sereno, mas esta aparente calma está no limite de desabar perante o que pode ser uma das maiores desgraças que testemunho…

Há curiosos que se aproximam da água. Rostos de estupefação. Preocupação e impaciência. De quem (também) está em suspenso pelo destino destes desconhecidos.

O alívio chegará. Enfim. Por fim. Conto todas as cabeças. Uma e outra vez. E confirmando, com olhos de ver, os rostos.

Regressam em abraços. Ofegantes. Há também quem se entregue ao choro descontrolado. Depois a calma que se recupera. Já na areia, partilha-se a incredulidade pelo que aconteceu. E a rapidez como tudo se precipitou. Trocam-se as diferentes experiências. Até chegar o silêncio. Profundo. Absoluto. Percebemos que o destino pode ser generoso com segundas oportunidades…

Horas depois, Alda ‘rabiscaria’ o seu relato, na primeira pessoa.

 

 

A DIFÍCIL ARTE DE BOIAR

Era um daqueles raros dias, do início de outubro, que amanhecem de sol em Mirissa. A cidade é das mais procuradas pelas suas praias no Sri Lanka. Aqui chegam muitos turistas todos os anos, alguns interessados na prática do surf.

Mirissa ficou praticamente devastada pelo tsunami de 2004, mas o tempo e a perseverança dos srilankeses, habituados a vidas pouco fáceis, mas sempre de sorriso no rosto, repuseram a normalidade. Hoje os poucos bares e restaurantes existentes na praia ficam no topo de uma colina de areia e a extensão do areal, entre esta e o mar, é quase inexistente.

A praia onde ficámos forma uma pequena baía. No dia em que chegámos foram precisos apenas cinco minutos para cairmos dentro de água. Estávamos contentes por estarmos ali. E, apesar de percebermos que nos banhávamos num mar com correntes, próprias do fim das moções que antecedem a época alta do verão, o calor e a temperatura da água tornaram impossível resistir ao mergulho. Mergulhos que voltámos a dar à noite, e repetimos no dia seguinte.

Ao nascer do terceiro dia de estada queríamos fazer um pouco de praia antes da despedida no dia seguinte. Já tínhamos percebido que o sol era mais amigo dos banhistas de manhã e que a chuva tropical nos presenteava durante a tarde. Por isso, após o pequeno-almoço, rumámos à praia.

A minha loucura pelo mar levou-me, de imediato, para a água, embora tivesse percebido que a nossa opção pela sombra de uma das poucas palmeiras não ocupadas por turistas nos deixava numa zona onde as ondas confluíam de uma forma estranha, que as levava a cruzarem-se. Percebi que a corrente era forte. Mas com alguma força, aqui caio, ali me levanto, lá ia contornado. Talvez tenha sido excesso de confiança, criancice momentânea? Não sei. Estava feliz. E sempre tive respeito pelo mar. Pus os meus pés na areia da Zambujeira do Mar com um ano, e jamais a deixei. Mas nunca fui aventureira quando o tema é o mar.

Com o grupo completo, dentro ou à beira da água, em Mirissa, lá nos íamos alertando uns aos outros: puxava e era preciso ter cuidado.

Eu saltava e continuava a saltar ondas. Sentia puxar. Conseguia vencer. E continuava.

O segundo seguinte fez com que tudo perdesse graça. E a história não terá durado mais de cinco, dez minutos.

Quem faz televisão ou rádio sabe, exactamente, quanto vale um minuto. É longo.

O mar que eu sempre adorei, onde sinto que tantas vezes limpo a alma, simplesmente estava a sugar-me. Como se, em algum momento, eu tivesse ido longe de mais. E fui. “Não consigo!”, gritei e senti. E foi com o coração aos saltos e o pânico a instalar-se no meu corpo que vi a praia a afastar-se. “Não consigo!”, respondi, ao apelo de um dos meus companheiros de viagem para que saísse dali. E a outro para que nadasse: “Não consigo!” Continuava a beber muita água e as pernas, que batia histericamente para sair dali, de nada me valiam contra a sucção. Era impossível sair, pensava meio atordoada e incrédula, meio histérica. “Não consigo! Vou morrer aqui!”

No momento seguinte a dificuldade subiu mais níveis. De tanta força fazer as pernas cediam, e cada vez que uma onda me passava por cima eu demorava agora mais tempo a voltar à tona. Ao meu lado, três companheiros de viagem também estavam em apuros. Não havia nada que eu pudesse fazer. “Vou afogar-me. Coitados dos meus pais. Porquê hoje? Porquê no Sri Lanka”, pensei.

“Ajudem-nos!”, ouvia gritar. Ao longe no areal, que agora era minúsculo aos meus olhos, via a agitação dos restantes membros do grupo sempre que vinha ao de cima.

E só pensava: “Não vi nadadores-salvadores em lado algum. Ninguém nos pode ajudar. Vou morrer aqui! Porquê hoje? Porquê no Sri Lanka?”

Uma voz mais serena, dentro de mim, dizia: “Acalma-te e bóia!”, mas a outra, a do medo, respondia: “Porquê hoje? Porquê no Sir Lanka? Vou morrer aqui!”

“Ajudem-nos!”, continuava a ouvir gritar.

A ajuda chegou. No instante seguinte lá vinha um nadador-salvador. E o meu coração desacelerava e dizia às pernas que tinham que bater mais um pouco porque valia a pena. À minha direita já via aproximarem-se outros dois homens para ajudarem os meus companheiros.

“Afinal vai correr bem”, pensei.

“Are you ok, mam?”, disse o jovem.

“Yes, I am”, respondi.

Teria bastado ler os sinais. Estavam todos lá. Teria que ter lido que o mar não me permitia ser tão segura naquela manhã. E depois, há os tais segundos antes da morte em que dizem que fazemos uma retrospetiva. Aquele momento em que rebobinamos a cassete da nossa vida? Eu não a rebobinei, por isso não tinha chegado a hora. Vou morrer aqui? Não.

A sensação daqueles minutos anteriores foi-se desvanecendo, apaziguada pelo aconchego de um abraço forte e carinhoso, já com os pés em terra, depois de puxada por um dos jovens que nos tiraram dali. Mas imagem do momento retém-se no cérebro. Dura mais, apesar de poder e dever ser transformada. Temos a obrigação de o fazer se não ficamos reféns.

A fórmula, difícil de por em prática, é simples e pode ser utilizada em qualquer situação: todos os dias temos que fazer o exercício de saborear a vida, mas, sempre que for necessário, temos que conseguir boiar. Para não nos deixarmos sugar por algo ou alguém.

Talvez tenha sido com este engenho e arte que os portugueses usaram, mesmo ali, ainda além de Taprobana…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

28 comments

  1. Carla Mota

    Bem, Rui. Que experiência! Nunca me senti à rasca no mar mas imagino a aflição. Aliás, não consigo sequer imaginar. Que horror. Nunca pensamos que estas coisas nos vão acontecer de férias. O que interessa é que acabou bem.

    1. Rui Batista Post author

      Bom, eu senti MESMO na pele uma vez no Laos… igualmente afogamento. Aqui foi o desespero de assistir e sentir-me verdadeiramente impotente. bjks e boas viagens…

  2. Tina Wells

    Que relato incrível! Eu aprendi a nadar no mar, mas sempre o respeitei. Uma vez, quando criança, caí num “buraco” e não conseguia sair. Meu pai foi meu salvador. Desde então nunca mais abusei da confiança! QUe bom que terminou tudo bem!

    1. Rui Batista Post author

      Tina, nada como respeitar a Natureza. Somos meras marionetas nos seus ‘humores’. Os cemitérios estão repletos de ‘heróis’… bjks e boas viagens…

  3. Angela Castanhel

    Que loucura. Comecei a ler o relato e pensei que algo acabaria ruim, mas graças a Deus não. Fico feliz que tudo tenha ocorrido bem. A natureza é linda, quando ela quer, nada a detêm. Beijoss

    1. Rui Batista Post author

      Nem mais, Angela. Respeitar – e estar sempre atento – à bela natureza. Beijinho e boas viagens…

  4. Patricia Camara

    Uau Rui que susto! Nunca tive uma experiência dessas no mar, mas de facto é a última coisa que pensamos quando vamos de viagem. Mas tudo correu bem é o que importa e resultou nesta fantástica partilha!

    1. Rui Batista Post author

      Patrícia, a ideia é NUNCA relaxar. Muitas vezes, os descuidos acontecem quando nos sentimos mais seguros… bjks e boas viagens…

  5. Luiza Cardoso

    Que experiência hein! Não me imagino vivendo o mesmo no seu lugar, a gente realmente nunca espera por uma coisa dessas… mas que bom que no final ficou tudo bem! Muuito interessante a forma como você soube que não morreria, também acredito que esse lance de “rebobinar” ou “passar tudo diante dos olhos” é uma coisa que acontece mesmo. rss!

  6. Fabia Fuzeti

    Nossa, que susto, que medo! Temos que te muito cuidado com a natureza. As vezes a gente se esquece como ela é forte. Ano passado perdi um amigo, um ator famoso no Brasil, Domingos Montagner, que foi sugado por um rio. Ainda bem que todos vocês estão salvos! Ufa!

    1. Rui Batista Post author

      Pois… lamento a sua perda, Fabia. Um relaxamento ‘vigilante’ é mesmo o ideal. Beijinho e boas viagens…

  7. Pedro Henriques

    Olá Rui! Mas que grande aventura esta…que podia ter sido uma tragédia. Nunca devemos subestimar a força da natureza, principalmente em locais que não conhecemos. O que interessa é que acabou tudo bem, mas, fica o aviso. Prudência my friend, abraço!

    1. Rui Batista Post author

      Melhor mesmo esquecer, Francisco 🙂 Sempre que me lembro… o melhor é mesmo pensar em coisas boas 🙂 Que sirva de lição para todos nós. Abraço e boas viagens!

  8. Michelle

    O mar deve ser respeitado sempre. Sou mergulhadora, conheço bem os perigos de corrente e também o que fazer para estar segura. É claro que acontece denos sentirmos táo seguros que às vezes ignoramos os sinais…Mas esses sacontecimentos ocorrem para nos lembra que devemos estar sempre atentos à força da natureza…

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