Etiópia: Lutar pela “vida” no fim do Mundo

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África Etiópia

Perdido na Etiópia, uma odisseia para abandonar aldeia remota.

O Islão faz questão de me acordar bem antes do ‘amigo’ etíope, devoto de Ala. O minarete é vizinho próximo e ‘convence-me’ a madrugar, nesta aldeia sem nome perdida no norte do país. Ainda não são 05:00, com o céu de espessa negritude, e já estou na espécie de ‘terminal’ de autocarros. Na verdade, um baldio com um portão que nada protege, apenas assinala o lugar. Há um que rumará a Gondar, mas está mais do que lotado. Com pessoas, animais e trouxas apinhados, inclusivamente no tejadilho. Resta-nos aguardar.

A espécie de hotel onde me instalara tem um WC, coletivo, que tresanda. A longa distância. Por isso me recusara a usá-lo. E é agora, nesta escura amálgama de gente, que o intestino resolve dar sinais da sua insatisfação pelo jantar de véspera. Afasto-me. Não há onde aliviar o meu incómodo. Tenho o frontal na testa e vou vendo a curta distância. Avaliada a situação – e face à urgência da situação – acabo por me instalar entre os rodados traseiros de um TIR. Com a mochila a tapar-me e permitir-me alguma ilusória intimidade. Questiono-me porque pago para sofrer nesta África perdida…

Uma hora depois, minibus – as Toyota Hiace do costume – para Debark, também na única estrada para Sul. A multidão corre e eu não me deixo ficar. Conseguirei ser dos primeiros a entrar, com a mochila ainda as costas. É luta complicada. Física.

Ficam muitos de fora. Sou o único branco nas redondezas. Começam os criativos esquemas para tentar tirar o ‘faranji’ (estrangeiro) do veículo. Há discussões em série. Entra gente, sai gente em indecifrável amálgama de corpos. Abordam-me na janela a dizer que o veículo segue para o lado oposto para onde vou. Digo que não me importo, estou sem destino. Depois uma mão puxa por mim para sair da carrinha. Resisto. Passageiro ao lado diz-me que é polícia a querer confirmar conteúdo da minha mochila. Não quero saber, não vou sair da carrinha. Insiste em puxar-me o braço à força, continuo firme. Este pesadelo de lugar é para deixar hoje mesmo. Vou agarrar esta oportunidade de transporte única.

Finalmente, alguém toma o meu partido e ganho algum sossego. Mas a mochila vai para o tejadilho. Arrancamos ainda noite cerrada e só com a posterior luz do dia percebo que o meu amigo – que não dá uma palavra de inglês – também conseguiu ficar no transporte. Está na última fila. E acena-me. Serão longas horas em estrada que ainda não o é. A montanha já foi rasgada, mas não há um quilómetro de asfalto. Muito pó. Lombas. E paciência. Como em todas as viagens, há varias pessoas a vomitar. Estou forçosamente prevenido: não há forma de tomar pequeno-almoço. E nem água tenho para saciar a boca ressequida. Tudo custa menos com as deslumbrantes paisagens das Simian Mountains, o primeiro Património Mundial UNESCO da Etiópia.

Debark chega com o asfalto. Algures, o meu impermeável deixou de me acompanhar. Não voltarei a vê-lo. Vou mais leve. E fresco. Que faça muito jeito a quem o levou…

Nas instalações de acesso às Simien, pergunto se têm algo vocacionado para jornalistas.  Um kit com informação, a disponibilização de um guia. Qualquer coisa.
Ligam para Adis Abeba. Telefonema para aqui e para ali. Desisto. Digo que não tenho mais tempo a perder. Quero somente o meu bilhete e o obrigatório ‘scout’, para me acompanhar.

‘Você é que complicou tudo. Disse que era jornalista e agora é apenas um turista normal’, diz-me o confuso e complicado responsável. O filme ainda dura uns 40 minutos. Finalmente pago e venho embora. ‘Mas não vai fazer nada estranho na montanha, pois não?’, acrescenta, no fim. ‘Tirando pegar-lhe fogo, nada mais me ocorre’, sorrio, com a resposta mais absurda que me vem à cabeça. Fica algo apreensivo. Venho embora.

Exploro a pequena cidade em ruas apocalípticas. Surpresas com a minha presença, crianças abordam-me e cumprimentam. Com punho no punho. O grupo cresceeeeeee… Pedem-me para lhes tirar foto. E para tentar marcar penaltis com bola de trapos. É uma festa quando marco. Feriado nacional quando sofro, na baliza.

Balotelli é o vendedor de chicletes que me segue para todo o lado. Tem o penteado do seu ídolo do futebol italiano e parecenças físicas várias. Presumo que me apresenta como seu amigo. Caminha orgulhoso a meu lado quando exploro este pequeno povoado. Fica comigo o resto do dia até me recolher para necessitado descanso.

Na madrugada seguinte, quando me preparo para ir para as montanhas Simien, já me espera em frente ao hotel. Somente para sorrir e me cumprimentar….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

18 comments

  1. Francisco Agostinho

    Até eu sofri dos intestinos ao ler a tua saga. Mas já passou hahah. A Etiópia é mesmo um lugar difícil né ? Mas por isso também interessante sem dúvida. É desancoselhada a visita a essas montanhas ? Grande abraço e boas viagens”

    1. Rui Batista Post author

      Francisco, o único conselho que te dou é VAI JÁ!! :)))) Certamente o mais estimulante país de África… e olha que já conheço uns 20. Livra-te é de ires menos de 3-4 semanas… vai saber-te claramente a pouco. Grande abraço!!

  2. Tina Wells

    Adoro suas histórias! Confesso que, as vezes, fico até apreensiva, torcendo para você conseguir se livrar de alguma enrascada, como se estivesse lendo um livro de ficcção!

    1. Rui Batista Post author

      :))) Obrigado, Tina. Em destinos como África é ‘fácil’ ter todo o tipo de histórias… muitas vezes as difíceis que, até ao momento, têm acabado sempre em bem… Bjks e boas viagens…

  3. Viviane Carneiro

    Nossa… suas viagens são verdadeiras aventuras. Acho que nunca conseguiria viajar assim, mas adoro ler esses relatos corajosos. Bjs

    1. Rui Batista Post author

      Viviane, um pouco de adrenalina faz-nos viver melhor (espero que também ‘mais’ lol). Ali não se tratou de coragem, mas fazer pela ‘vida’ :))) Obrigado pelas palavras, beijinho e boas viagens…

  4. Juliana Torres

    Foi se a época que eu gostava de viver no meio de muita adrenalina… Hoje não suportaria. Sei que é isso que te faz se aventurar por uma África perdida, que encontrar as deslumbrantes paisagens das Simian Mountain pode valer todo e qualquer esforço mas eu vejo que isso não é para mim…

    1. Rui Batista Post author

      Juliana, na vida temos fases para tudo. Importa é que cada um esteja confortável com o seu registo 🙂 Beijinho e boas viagens…

  5. Karine Porto

    Que aventura!! Confesso que fiquei tensa com algumas partes da sua narrativa, mas que bom que deu tudo certo no final. Deve ter sido uma experiência incrível!! Espero poder conhecer a Etiópia algum doallia!

    1. Rui Batista Post author

      Karine, não há país no Mundo como a Etiópia… Um dia que África se cruze no teu destino… aconselho este país maravilhoso. Um mês 🙂

  6. Giulia Sampogna

    Uau que aventura. Eu já passei por uma situação parecida com a sua no ônibus quando fui para a China. Ainda bem que foi persistente. Deve ser um choque viajar pela Etiópia.

  7. Deisy Rodrigues

    Acredito que algumas coisas na vida vale toda a adrenalina, esforço e dificuldade, pq elas realmente são únicas, estou ainda lidando com a beleza de Simian Mountains e olha apenas estou vendo uma foto maravilhosa, imagina ao vivo.

  8. Analuiza

    oi Rui… tenho uma pergunta: descobriu resposta para por que pagas para sofrer nesta África perdida?! Sofri junto e se a mim me pareceu mesmo um pesadelo de lugar e de caminho, imagino ao vivo, cores e poeira.

    Nessa vida jamais irei me aventurar por paragens assim, mas entendo que conhecer os mais diferentes povos e culturas tem impacto grande sobre nós. Ainda bem que posso viajar por aqui, no conforto de meu sofá. Conhecer outros lugares sem necessariamente estar neles.

    Viva os aventureiros que nos mostram o mundo! 🙂

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