SUDÃO: Pirâmides de Meroe, herança dos Faraós Negros do Egito

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África Sudão

São 117 e constituem Património Mundial da UNESCO.

Dois vultos surgem no horizonte. Inicialmente estáticos, começam posteriormente a mover-se para a direita, crescendo, lentamente, na nossa direção. Vão ganhando consistência no tamanho – e na nossa retina – e parecem disputar a corrida mais louca do Mundo. Chegam com um sorriso. Em cima dos ofegantes animais.

“Montem o camelo. É a melhor forma de chegar às pirâmides. É um belo passeio. Carregam mochilas pesadas e ainda estão longe. Com este calor, acreditem que é a melhor opção”, diz-nos um dos dois interlocutores.

Na verdade, este diálogo não passa de produto da minha imaginação. É pura ficção. “Camel” é a única palavra que lhe entendo num dialeto deslizante – nem sequer decifro se me fala em árabe.

O calor é realmente abrasador. Não há sombra. E ainda temos cerca de um quilómetro de caminhada até às pirâmides de Meroe que a UNESCO classificou como Património Mundial. Foram umas três horas de autocarro desde a capital Cartum e descemos no meio de nenhures. O caminho para as pirâmides no horizonte não passa de um trilho em areia moldado pelos rodados dos jipes que por aqui passam, a conta-gotas.

Já referi que o sol esmaga? Eu sei que sim. Apenas quero enfatizar.

Eu e Bill Sorridente não viemos ao Sudão em ‘turismo’. Temos propósitos próprios – não necessariamente os mesmos – e voltinhas de camelo não fazem parte do guião. Os nossos ‘anfitriões’ seguir-nos-ão, pacientemente, até à entrada do complexo. Tentando, com simpática insistência, convencer-nos a subir.

Entendo. Aqui praticamente não há turismo. E o residual que cá chega vem de jipe. Pomposo. Em redomas pagas a peso de ouro e que pouco contacto potencia com os locais. Com o mais genuíno, a maior riqueza deste surpreendente Sudão: as pessoas.

Meroe surge-nos vedado. Com uma pequena cerca que nos encaminha para uma entrada. Os últimos 30 metros de arrastada caminhada são passadeira vermelha para raro artesanato, com os vendedores a atropelar-se na tentativa de captar a nossa atenção. Qualquer coisa que vendam já lhes permite ganhar o dia. Deixamos isso para o fim, já que Meroe fechará não tarda.

Precisamos de bilhete, comprado em mal-amanhado cubículo. Com um polícia com farda que já teve muito melhores dias, parecendo tão mendigo quanto os três outros personagens que o acompanham.

É uma senhora que nos atende.  Mostra-nos uma folha amassada, rasgada e com manchas de comida com o suposto decreto-lei que define o preço de 20 dólares o ingresso para este site UNESCO. Pena que este dinheiro não sirva para ajudar a recuperar o local, dando-lhe condições que a sua dignidade merece. Sei que será distribuído por quem tem o privilégio de ter algum poder: quem aqui trabalha. Peço o bilhete, para que o meu contributo não se perca. Digo que é para ‘recordação’. Dá-me um ticket, em árabe, que sei que não o é. Não tardaremos a descobrir que é de um…. restaurante.

As pirâmides não têm a mesma imponência das do Egito. Já o sabia. E o estado de conservação não se equivale. Aqui, devemos ter tudo em perspetiva. O turismo no Sudão, que tão maltratado tem andado nos Media internacionais, é verdadeiramente raro.

Difícil resumir 2.700 anos em poucas palavras, mas tentarei: a região da Núbia (atual Sudão) estava em ascensão até que os egípcios, temendo a ambição e domínio império rival, decidiu invadi-lo. O seu domínio foi pouco agressivo, provavelmente mais propício a propagar os seus valores e crenças.

Mais tarde, numa altura em que o império egípcio estava dividido, o rei na Núbia, Piye (770 AC), investiu militarmente, tentando reunificar politicamente a nação, o que conseguiu. E foi assim que deu início à 25.ª dinastia, conhecida por ser a dos faraós negros. Terá durado cerca de um século, até que em 674 AC os assírios invadiram o Egito e acabaram assim com o reinado do último faraó negro, Taharga.

Foi quase um século de supremacia de uma civilização africana, contrariando a ideia generalizada do Mundo ocidental quanto ao atraso dos povos deste Continente.

Com o fim da dinastia, os faraós negros voltaram para a Núbia e desenvolveram uma civilização singular, que se nos revela hoje nas 117 construções, a maior concentração de pirâmides do planeta.

Deambulando por este santuário, que alberga parte das 117 pirâmides do país, imagino como seria nesses tempos. Acredito que este lugar seria bem mais fértil. Agora está quase engolido pelas dunas douradas, que ajudam a camuflar este riquíssimo património na paisagem monocromática.

As pirâmides até que resistiram bem ao tempo, mas sofreram demasiado com a ganância dos exploradores europeus. Em busca dos tesouros dos núbios, o italiano Giuseppe Ferlini (1834) explodiu, com dinamite, o topo de todas as pirâmides. O saqueador encontrou pouco ouro e destruiu muita história. Fez-nos o ‘favor’ de tornar ainda mais difícil desvendar os mistérios do reino que sobreviveu a egípcios, gregos e romanos.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

40 comments

  1. Francisco Agostinho

    Olá!! Visitaste as pirâmides e tiveste direito a um bilhete “recibo de restaurante”, passam recibos no restaurante ? hahah Quero ver se não pago 20€ para ver Meroe, li algures que o preço oficial era mais baixo, se pagar 20€ fico lá a dormir 😉 Boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Francisco, quando lá fores vais entender… Ali será o que tiver de ser 🙂 Cheguei demasiado tarde ao complexo. Não me custa pagar 20 dólares para visitar um lugar destes, ‘dói’ é saber que dali não vai sair um cêntimo para a recuperação e preservação do local. Abraço!

    1. Rui Batista Post author

      Carla, Meroe e Jebel Barkal foram os locais que mais gostei, a par de um surpreendente complexo religioso nos arredores de Kassala. Beijinho e boas viagens…

  2. Maria Cristina

    Mais um patrimônio mundial que terei que colocar na minha listinha. Ainda que tenham sofrido um pouco, resistiram bem! Só achei caro.

    1. Rui Batista Post author

      Maria Cristina, que a lista seja cada vez maior e mais ambiciosa 🙂 Beijinho e boas descobertas…

  3. angela sant anna

    odeio essa “ideia do mundo ocidental” que estas civilizações eram atrasadas, olha quanta coisa deixamos de conhecer… aí vão lá explodem, roubam tudo, tornam os “Países de primeiro mundo” ricos com a miséria e sofrimento de outros

    1. Rui Batista Post author

      É isso mesmo, Angela Sant Anna temos mais a ganhar se tivermos genuína vontade de aprender e se não nos deixarmos vencer pela ganância: os ‘evoluídos’ europeus já fizemos demasiados estragos no planeta. Boas viagens!

  4. Camila Neves

    Nossa, que espetáculo! Sem dúvidas, o lugar que mais quero conhecer no Sudão. Sou apaixonada por piramides!

  5. Ana Clara Flores

    Parabens pelo belissimo texto e por nos deixar com vontade real de visitar este lugar! Acho que o termo que usaste para descrever o sol nos fez entender e sentir o peso daquele calor! Novamente, parabéns!

    1. Rui Batista Post author

      Muito obrigado pelas palavras, Ana Clara 🙂 Nada melhor do que ajudar a inspirar os outros a partir à descoberta de novos lugares e sensações…

  6. Eloah Cristina

    Sem dúvida as Pirâmides do Egito estão na lista do QUERO URGENTEMENTE CONHECER. Adorei o texto, principalmente dos pontos que levantou sobre a civilização, cultura, etc.
    Obrigada por compartilhar sua experiência.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Adriana. A discussão dos recursos iria levar-nos a longaaaaaaaaaaaaaa conversa 🙂 Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Catarina, sem dúvida que não se pode ir ao Sudão sem passar por Meroe… um lugar diferente: cenário “Guerra das Estrelas” 🙂 Beijinho e boas viagens…

  7. Patricia Câmara

    Já visitei o Egipto e adorei! Mas realmente o Sudão ainda não me tinha passado pela cabeça! Sem dúvida que este post já me fez mudar de ideias. Quanto aos 20 $? lol Aposto que não é preço fixo ahah

    1. Rui Batista Post author

      Ah ah ah… Patrícia, acredito que sim. Eu é que já estava sem energias – e tempo – para discutir :))) Beijinho e boas viagens…

  8. Keul

    Gente, que post! Surreal o quanto estou fascinada com essas informações e fotos. Adoraria conferir tudo isso de perto! Parabéns pelo post.

  9. Ruthia

    A astúcia da funcionária, fazer passar um papel de um restaurante pelo bilhete. É preciso alguma imaginação para sobreviverem, suponho. Já estive no Egipto e sei de que sol estás a falar (onde ainda se fala da civilização núbia com bastante reverência). Gabo-vos a coragem de caminharem sob esse sol africano, no meio de nenhures…

    1. Rui Batista Post author

      Ruthia, este sol quando brilha… esmaga 🙂 Sim, a civilização núbia deixou as suas marcas e há um grande orgulho daqueles que ainda lhe pertencem. Acredito que irias gostar deste lugar…

  10. Bruna

    Que interessante! Tenho bastante vontade de conhecer o Sudão e fiquei ainda mais animada ao ver esse lugar lindo, ainda que tenha alguns obstáculos. 😉

    1. Rui Batista Post author

      Bruma, os obstáculos apenas estimulam o nosso interesse e vontade 🙂 Abraço e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Lulu, sendo um país pobre, haverá outras prioridades. Mas a UNESCO bem que podia fazer algo mais do que apenas classificar Património Mundial e dar dinheiro… que normalmente se ‘dilui’ nas mãos erradas…

  11. NiKi Verdot

    Nossa, que sonho fazer essa viagem!!! Mas ai, Rui… Adorei seu relato. Gosto demais da forma que você escreve. E ri demais com você inventando um diálago na sua cabeça hahahaha…

    1. Rui Batista Post author

      Niki, deve ter sido do sol. Depois perdemos o juízo :))) Obrigado pelas palavras! GRande abraço e boas viagens!

  12. Aninha Lima

    Nossa, eu nunca havia lido nada sobre piramides no Sudão, você realmente veio a desbravar um lugar incrível!
    Eh uma pena que não estão tão bem conservadas, pois o turismo certamente ajudaria a economia do pais!

    1. Rui Batista Post author

      Aninha, um dia de cada vez… acredito que se mais viajantes apostarem no Sudão… poderemos dar um contributo interessante ao país. Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Fabíola, por vezes o sol em demasia faz-nos delirar 🙂 OBrigado e continuação de belas viagens em família…

  13. Fabia Fuzeti

    Adoro ler post de destinos pouco visitados e que não temos oportunidade de acessar muitos relatos. Pena que estas pirâmides não estão tão bem preservadas, mas ainda assim interessante a visita. E sério que deram o ticket de um restaurante????!!!

    1. Rui Batista Post author

      É o ‘preço’ de não saber árabe :))) Faz parte da experiência. Dá para contar e rir mais tarde…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Rebecca 🙂 Cinematográfica, mas fiel À realidade. Como tem de ser 🙂 Beijinho e boas viagens…

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