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SUDÃO: Omdurman, um turbilhão de experiências em mercado milenar

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África Sudão

Em Omdurman o Mundo existe como há 1.000 anos…

O taxista diz-nos para termos um pouco mais de paciência,  mas, enquanto tenta ziguezaguear o decrépito veículo entre a pequena multidão, insistimos em sair mesmo ali, antecipando o fim da jornada. Já temos movimento e cor de sobra a ‘gritar’ pela nossa atenção. Afinal, acabámos de ‘mergulhar’ no mercado de Omdurman. Estamos na capital histórica, cultural e espiritual do Sudão, que politicamente está entregue a Cartum. Creio que estamos no segundo maior mercado de África, depois do Khan el Khalili  do Cairo, Egipto.

Bastam meia dúzia de passos para perceber que não iremos encontrar qualquer turista. E que este mercado estará entre os mais genuínos e estimulantes que até hoje visitei. Não tardarei a confirmar as suspeitas.

A cada passo, uma tentativa de conversa. A esmagadora maioria em árabe. Não há problema: logo surge alguém que arranha duas ou três palavras de inglês e ajuda ao contacto. Convites para comer, inúmeros. E não dá para recusar. Sento-me uma e outra vez e levo os dedos às estranhas misturas que os sudaneses vão partilhando. Aqui é assim: não há talheres e todos partilham os mesmos pratos e travessas. É seguir o lema habitual, “faz como vires fazer”. E é tão fácil arrancar rasgados sorrisos, que se torna complicado deixar a refeição ainda mal provada para seguir a exploração…

Este mercado é feito de vários mais pequenos, ou específicos. Há a zona dos vegetais, outra para o peixe e logo ao lado está a carne. Encontramos roupas, produtos para a casa. Ferramentas. Especiarias. Alfaiates e ourives. Acredito que, se continuar a escrever, perceberei que aqui cabe todo Mundo. E todas as suas atividades relevantes.

Avisaram-me que a hora de almoço seria calma – “boa parte das pessoas vão estar a rezar” – mas o burburinho é tal que nem noto. Curioso o facto de encontrar bancas sem dono, ocupados nas orações a Allah. Com a certeza de que ninguém surripiará o que quer que seja.

Uma e outra vez me deparo com expressões de espanto quando me sabem português. O que faço aqui? Porquê o Sudão? Omdurman?!? Terei TODA a paciência do Mundo para explicar que não há lugares no planeta que me façam mais feliz do que mercados milenares onde pouco mudou ao longo dos séculos…

Insistem em ‘selfies’…

Quem ainda não sabe, digo-lhe que Omdurman é cidade gémea da capital Cartum. Os Nilos Azul e Branco, que aqui se juntam, tratam de dividir a enorme urbe em três.

Andarei tempos infinitos em busca de uma feira de camelos – que verei mais tarde – só que o mestre do tuc-tuc anda completamente a leste. Ao fim de 20 minutos, percebemos que nem sequer sabe para onde desejamos ir. Limita-se a andar de um lado para o outro, até que notámos a sua desorientação e o interpelamos. Com auxílio de tradutor improvisado na berma da rua.

Continua sem norte. Refazemos planos e ficamos na Casa do Califa, que governou o Sudão desde a então capital Omdurman. O agora museu está fechado. No último dia que temos para o visitar. Encontrarei forma de convencer o guarda da minha vontade, sem que prejudique a sua função. Afinal, algo se perdeu na tradução. Consigo avançar, mas apenas posso deambular pelas zonas exteriores. Não tem a chave que permite entrar no museu de história. Uma pena. Ainda assim, delongo-me no edifício, com muitos detalhes interessantes. Um crime os carros antigos ao abandono…

Atravessando a rua, o túmulo de Mahdi. Em mesquita com crentes que não deixam o herói sudanês só. Foi recuperada depois dos ingleses arrasarem a cidade na primeira metade do século XX.

No exterior há que faça piqueniques. Oferecem-me comida. Ouço música e cantares. Tiro fotografias. Até às primeiras mulheres que mo permitem no país. Mais do que intimidadas ou coartadas pela religião, sentem-se honradas, orgulhosas pelo meu interesse. Genuíno.

Ao lado uma madrassa, mais gente interessante e a máquina que não consegue parar de ‘disparar’. Deslumbrada em registos fotográficos até que uma mão, firme, me agarra o pulso. “Polícia do Estado. Venha comigo!”.

O gesto é surpreendente e brusco. E logo me puxa em sentido contrário àquele que seguira Bill Sorridente, que me esperava mais à frente. Insisto que não vou a lado algum sem o meu amigo. Mostro-me firme até que alguém intercede. Alhdi Karim Khalil. Minutos antes, a sua gentileza tinha-me oferecido um chá e vários dedos de interessante conversa. Neste momento, surge em versão ‘anjo da guarda’.

Agora ele é o alvo da ‘ira’ do zeloso representante da ‘moral’ do Estado, que traja à civil. Não gosta que tenha questionado a sua autoridade. Que se tenha intrometido. Muito menos perante um estrangeiro. Sigo-os. Quase já me esqueceram. As ‘chamas’ ardem agora em outro lado. O furioso agente da moral leva-nos até à entrada da casa do Califa, onde chama três agentes, fardados, para discussão.  Que, ao contrário do esperado, vai crescendo de tom, ao invés de serenar e tudo resolver.

Perante olhares perscrutadores, serei obrigado a apagar as últimas fotos – com a autorização do próprio, retratei alguém que, pelos vistos, seria um mendigo e não mais um peregrino, como pensei – antes de me mandarem embora. No Sudão há regras apertadas quanto a fotos. Com efeito, até precisamos de uma declaração das autoridades, que nos deve acompanhar em todo o país (‘esqueci-me’ de tratar disso).

Agora que me indicam para seguir o meu caminho, sou quem fica. Alhdi Karim Khalil foi corajoso. Foi Homem. Sabia que corria riscos e, ainda assim, foi assertivo em minha defesa. Neste momento, sou quem interrompe a conversa entre engalfinhados sudaneses. Pergunto-lhe se está tudo bem. Diz-me que sim, mas as expressões faciais e corporais dos seus interlocutores dizem o contrário. Só abandonarei a discussão quando o deixam ir, definitivamente, em paz. E depois de longo e apertado abraço de gratidão, por um gesto que jamais esquecerei…

É sexta-feira e, não muito longe, há dança sufi. Um ritual chamado ‘dhikr’ no túmulo de Sheikh Hamad-al Nil, um líder sufi do século XIX. Os devotos dançam num frenesim e transe enquanto recitam o nome de Allah, ajudando a criar um estado de abandono extático que supostamente permite que os seus corações comuniquem diretamente com o seu Deus. A tentação é ENORME, mas tenho de optar. Ganhará a experiência no noturno casamento sudanês…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

20 comments

    1. Rui Batista Post author

      Sem dúvida, Lulu. As pessoas é que “fazem” um destino… e o Sudão é o perfeito exemplo disso.

    1. Rui Batista Post author

      Concordo plenamente, Jair. E, na verdade, não sei viajar de outra forma 🙂 Grande abraço!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Fabíola 🙂 Na verdade, são os países e lugares fora dos tradicionais roteiros que mais puxam por mim. E os mercados – de todo o tipo – são a minha verdadeira perdição… :)) Beijinho e boas viagens…

  1. VICTORIA M FARINA

    Ual, que experiência incrível que você teve. Eu amo esses países exóticos para descobrir e ter situações diferentes e empolgantes também. Estou louca para explorar o Sudão só de ler tudo isso 🙂

  2. Ruthia

    Este relato só confirma aquilo que já suspeitava, apesar de não te conhecer pessoalmente. És um ser humano decente, Rui. E isso é cada vez mais raro, a ponto de me trazer lágrimas aos olhos. Que bom que correu tudo bem com o leal Alhdi Karim Khalil…
    Abraço

    1. Rui Batista Post author

      Agora foste tu a emocionar-me, Ruthia. Temos, TODOS, a responsabilidade de deixarmos este Mundo um pouco melhor do que o encontramos. O mesmo – essencialmente – com as pessoas. Beijinho e abraço bom 🙂 Obrigado… mesmo…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Edson. Para mim, as viagens não existem sem esse contacto com as pessoas. Abraço e boas aventuras pelo Mundo!

  3. Angela Castanhel

    Admiro pessoas que conseguem se introduzir na cultura local. É como estar livre e se entregar a uma experiência. Parabéns por mostrar isso tão bem! Texto impecável e fotos lindas

  4. cris

    Suas experiências são sempre tão enriquecedoras, Rui! Parabéns pelo relato e continue nos presenteando!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Adriana 🙂 Gosto de cuidar os relatos, com fidelidade e rigor. Melhor se diversifico no vocabulário :))) Beijinho e boas viagens…

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