UZBEQUISTÃO: Mar Aral, és rosto da maior catástrofe ambiental da História.

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Uzbequistão

Há erros que a Humanidade não pode esquecer.

Em poucos lados me sinto tão perto do fim do Mundo como aqui. Não pela distância percorrida, mas pelo desertificado olhar humano e as evidentes precárias condições em que esta gente persiste em (sobre)viver.

Sensivelmente uma hora e meia de voo entre a Tashkent, a capital do Uzbequistão, e a nortenha Nukus. Seguida de outras três horas de remanescentes mal-amanhados 200 quilómetros até Moynaq. Se o aeroporto se revela o mais ‘modesto’ – uma tenda de campanha ‘abriga’ os passageiros que, ao frio (neva e o vento é gélido), esperam pela bagagem, transportada em robusto camião dos anos 60 – onde já estive, Moynaq consegue elevar a imagem de sofreguidão social a níveis impensáveis.

Atravessar esta cidade-quase-fantasma transporta-nos até tortuosos tempos bem distantes: as agruras do clima tornam ainda mais densas as dificuldades deste povo. Nada é novo. Limpo. Ordeiro. Agradável a qualquer observar mais requintado ao nível da estética. Atravessarei o povoado com semblante sério e sem me cruzar com um único dos calorosos sorrisos uzbeques.

Num par de minutos chego ao destino. No topo de falésia-miradouro, a lente da máquina fotográfica entusiasma-se com a paisagem desértica polvilhada de enferrujados barcos pesqueiros. O cenário é maravilhosamente poético, não fosse esconder uma história bem dramática, que nada tem de bela.

Não há muitas décadas, Moynaq era uma próspera urbe. Empregava 60.000 trabalhadores da florescente indústria pesqueira. Quando em 1924 o Uzbequistão integrou a ainda jovem e periclitante União Soviética, Esteline decidiu, desde o Kremlim, que na Ásia Central se produziria algodão, o denominado “ouro branco”. Indiferente às desmesuradas necessidades de água desta cultura, acabou por ter de desviar o curso dos dois rios que alimentavam o Mar Aral. O quarto maior lago do Mundo não tardou a desaparecer, no que é considerado por muitos como o mais grosseiro desastre ambiental da história.

Pura e simplesmente, as políticas de irrigação super-agressivas (e com desperdícios de água rondar os 75 por cento) implementadas – os russos desenvolveram um dos mais ambiciosos projetos de engenharia da história, escavando, à mão, milhares de quilómetros de canais de irrigação a partir dos rios Amu Darya e Syr Darya, os dois maiores da Ásia Central, para o deserto circundante – transformaram 90 por cento de um enorme lago em inóspito desalento. Até aos anos 60 a situação foi preocupante, porém não o suficientemente alarmante. A posterior construção de mais canais foi a gota de água para o verdadeiro desastre ecológico.

Por um período na década de 80, o Uzbequistão, na altura a terceira potência produtora de algodão do planeta, cresceu economicamente mais do que qualquer outro país. Efémero… O Mar encolheu e tornou-se cinco vezes mais salgado. Testes de armamento e projetos industriais aliados ao uso intensivo de pesticidas e inseticidas para o cultivo do algodão fizeram o resto, matando os peixes e toda a fauna e flora da região. As alterações climáticas – verões cada vez mais quentes e invernos ainda mais gelados – secaram a vegetação e até os antílopes desapareceram da região. A próspera industria pesqueira faliu, assim como todos os povoados ao longo das margens. Agora meros fantasmas persistentemente a lembrar-nos desse tortuoso passado. A saúde pública foi dramaticamente afetada. O desemprego e problemas económicos são ainda mais do que percetíveis nesta inenarrável Moynaq.

Durante séculos, o Aral e os seus deltas garantiram o sustento a muitos povoados distribuídos ao longo da Rota da Seda, que ligava a China à Europa. Estas antigas populações de uzbeques, cazaques, tajiques e outros grupos étnicos prosperaram como agricultores, pescadores, pastores, mercadores e artesãos. Esses tempos não voltarão.

Num par de décadas uma pesca abundante – cerca de 1/6 do fornecimento de toda a União Soviética – foi reduzida a pó. Na prática, 60.000 m2 de água com profundidade até 40 metros ‘evaporaram’. Resta 10 por cento do lago. Que está a ser alvo de tentativa de recuperação… do lado do Cazaquistão, com a edificação de uma gigantesca barragem. Que seca ainda mais o grande Aral, da parte uzbeque.

Com a drástica diminuição do seu volume, o Aral assemelha-se a um boneco de neve – um corpo grande e gordo e uma cabeça pequena -, sendo que a cabeça, com apenas cinco por cento da área de todo o Mar, é conhecida como o Pequeno Aral (Cazaquistão). Onde foi construída uma barragem, na sua ‘garganta’. A represa Kokaral, projetada em 1987 e em funções desde 2005, permitiu que rapidamente a água do lago subisse três metros, enchendo o fundo do mar vazio e trazendo-o de volta à vida. As autoridades desejam recuperar o Aral até à sua antiga costa.

Do lado uzbeque, onde me encontro, o pouco que resta está condenado ao deserto que vigora. Uma verdadeira sentença de morte. Ainda por cima, os cazaques acabaram com a única fonte de alimentação do grande Aral. Longe da capital, só os locais parecem preocupar-se.  Na verdade, foram identificados no fundo do Mar depósitos de petróleo e de gás, sendo que é mais fácil extrair estes recursos em condições secas. Com a autorização do estado, empresas de energia russas e sul-coreanas já aqui trabalham a todo o vapor…

Passo Moynaq – de localidade costeira, ficou a 90 quilómetros da água – e deparo-me com um orgulhoso miradouro, para um dos mais tristes cemitérios que visito. Do alto desta falésia arenosa, avisto uma dúzia de enferrujadas carcaças de barcos de pesca encalhadas em poeirento ermo que há mais de duas décadas era Mar. Encontro conchas de bivalves. Estranho. Demasiado.

Enquanto o vento me gela os ossos e envergonhados flocos de neve enrijecem a alma, os meus olhos contemplam o resultado de um projeto louco e irracional que originou um sistema que fácil seria adivinhar que deixaria de ser sustentável. Com devastadoras consequências ecológicas num Mar que desapareceu quase num ápice. Inspiro fundo. É hora de desço e explorar.

Enquanto não vejo o filme Psy (“Stray Dogs”), de Dmitri Svetozarov (URSS, 1989), gravado numa das cidades fantasmas da costa do antigo Aral, entre os edifícios e navios abandonados, mergulho neste cenário estéril, em busca das suas memórias, de entender os seus segredos. À procura de uma digna resposta para tamanha irresponsabilidade humana e social.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

31 comments

  1. Camila Neves

    Muito interessante saber a hstória desse lugar que já passou por tanta coisa. Adorei o post, muito interessante!

  2. Katarina

    Eu não fazia ideia desse acontecimento, Rui. Que relato triste e importante, viajar também é isso. Eu tive um professor do Uzbequistão que me fez ter olhos pra o lugar, mas não sei de muitos lugares pra conhecer. Obrigada pelo post!

    1. Rui Batista Post author

      Katarina, um lugar singular… e uma lição, para não esquecer. Beijinho e boas viagens…

  3. Renata Barbosa

    Uma lição de história e muitos momentos bem vividos para quem, juntamente com o gélido vento e neve na face, te acompanhou nesta (ainda assim) calorosa viagem a Moynaq.

    1. Rui Batista Post author

      Renata… e quando orgulho e prazer em ter uma fantástica companhia como a tua nesta descoberta… Bjks e até à próximaaaaa…

  4. Juliana Moreti

    Duas imagens diferentes…. aquela que enche a lente de um fotògrafo (qualquer amante de fotografia se encantaria com paisagem desértica e barcos pesqueiros enferrujados) e a dura realidade, causada pelo homem.

    1. Rui Batista Post author

      É isso mesmo, Juliana. Entre as duas, bem que preferia um registo de intensa vida natural… beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado pela gentileza, Marcia 🙂 Beijinho e continuação de inspiradoras viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Aline. Infelizmente, há histórias tristes que devem MESMO ser contadas. A ver se a Humanidade não esquece… a esperança de que tenha aprendido.

  5. Bruna

    Nossa, que história mais triste! É chocante o que a ganância humana faz com o nosso planeta e como somos capazes de destruição tão grande!!!

    1. Rui Batista Post author

      Enquanto co-habitantes deste planeta, os Humanos são uns completos imbecis. E esta é uma das inúmeras provas disso mesmo. Felizmente que sobram exemplos que contrariam este tipo de catastróficas decisões…

  6. Analuiza

    Uma resposta digna não creio mesmo que haja. Na verdade, eu ando descrente desse mundo… A pergunta é: como o mundo ainda sobrevive diante de tantos desmandos humanos! De qualquer modo imagino que, apesar da densa e triste história por trás da paisagem, o cenário atual deva ser mesmo impactante! bj

    1. Rui Batista Post author

      Concordo com TUDO. A minha crença também já foi maior. Mas confio que as novas gerações vão ter outra sensibilidade para as necessidades do nosso fantástico planeta. Que os bons exemplos nos inspirem… 🙂 Beijinho e boas viagens!

  7. Ruthia

    Este post prova que imagens esteticamente apelativas são, não raras vezes, provocadas por atrocidades (humanas, ambientais, etc, etc.). Aposto que preferias mil vezes fotografar os sorrisos desse povo usbeque.

    1. Rui Batista Post author

      Ruthia, por vezes, não nos conhecermos pessoalmente não significa nada 🙂 É isso mesmo. Acertaste na ‘mouche’. Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Lulu, espero bem que sim. Estamos na fase de maior informação na Humanidade, nem por isso a das melhores decisões a favor do nosso Planeta. Beijinho e boas viagens…

  8. Amilton

    Puxa, que história hein? Nunca tinha lido nada sobre esse país, adorei saber um pouco mais a respeito. Obrigado por compartilhar. Abs

    1. Rui Batista Post author

      Amilton, um prazer partilhar as vivências… e ouvir e aprender igualmente com os outros. Abraço e boas viagens!

  9. klecia

    Um mundo tão, tão diferente distante e diferente. Fico sempre impressionada com seus relatos, porque você consegue transportar a gente pra lá, e isso é muito maravilhoso na sua narrativa. As fotos, embora lindas, me deram uma ponta de dor no coração – o poder de carregar sentimentos e histórias em uma boa fotografia.

    1. Rui Batista Post author

      Klecia, muito obrigado pela gentileza das palavras. Gosto de contar histórias – sempre fiel ao rigor dos factos – e é bom saber que há quem aprecie… nomeadamente pessoas que não conheço 🙂 Beijinho e boas viagens…

  10. Rafaella Machado

    Nossa, bem interessante essa história, nunca tinha lido nada sobre esse país, adorei saber um pouco mais a respeito e bem diferente seu relato. Bem legal em compartilhar abs.

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