O ‘miúdo’, a paixão e a hospitalidade do Uzbequistão.

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Uzbequistão

Como é fácil no Uzbequistão sermos acolhidos como família…

No táxi onde vai apinhado, no banco de trás, com mais quatro mulheres portuguesas, Sardor descuida-se. Deixa perceber que a foto de ecrã do seu telemóvel foi tirada de véspera. Uma imagem de sorrisos e gentileza, a dois, com uma das belas donzelas do grupo Bornfreee no Uzbequistão.

Estamos a caminho de Urgut, um pequeno povoado junto às montanhas a uns 40 quilómetros de Samarcanda. Tínhamos ido passar o dia a Shahrisabz, Património Mundial da UNESCO e berço do adorado rei Amir Timur, e a aldeia do nosso novo amigo não fica muito fora de mão.

Tinha negociado com os três táxis serviço completo que incluía visita a Urgut, porém Sardor, talvez temendo que o seu sonho poderia não se realizar, antecipou-se e já nos espera no cruzamento que depois nos levará à sua terra. Após emaranhado de mal-entendidos, que o inglês não ajuda a resolver, transferimo-nos do nosso transporte para nos concentrarmos em apenas duas viaturas. Contando com Sardor e os condutores, há duas carcaças de quatro rodas a transportar 13. Numa das estradas mais esburacadas que já vi. Em que cada metro se arrasta como penoso quilómetro. Cada desvio de cratera na via dolorosa leva a condensada e espessa massa humana a baloiçar no interior e a despertar, inevitavelmente, necessidades fisiológicas.

A inevitável paragem, em longa reta, leva as meninas em apressada procissão rumo a casa desconhecida. Sardor, sempre cavalheiro, acompanha-as e explica à dona da propriedade ao que vão. Ficarei a saber que a missão é executada com êxito. Apesar de não se livrarem da companhia de uma vaca em ambiente muito básico, no qual uma tímida fenda no chão é a única indicação de que se está, realmente, num wc.

Sardor irradia luz. Mais do que honrado e feliz, sente que está a cumprir um sonho. Aos 20 anos tem sorriso meigo e sobra-lhe vontade de comunicar. Super delicado e educado. Para o que temos visto no país, veste bem e, nota-se, é de ‘boas famílias’. Estuda inglês há apenas dois meses e surpreende pela desenvoltura das primeiras palavras. Na véspera, enchera-se de coragem para abordar uma mulher do nosso grupo no mercado de Samarcanda. Ajuda-a a comunicar num inesperado conforto com a língua de Shakespeare que, afinal, num par de minutos veremos que não se confirmará.

Ficará connosco todo o dia – a sua sugestão de almoço, para o qual o convidamos, custar-nos-á o absurdo de 1.38 euros por pessoa, num Uzbequistão onde, mesmo esforçando-nos, nunca conseguimos ultrapassar os sete euros e tal, já contando com vinho e cerveja – e faz questão de nos convidar a visitar a família, que vive na pacata Urgut, a uns 40 quilómetros de Samarcanda.

Estamos a cumprir o seu sonho. Nos pouco mais de 20 esburacados quilómetros rumo à sua casa, insiste, uma e outra vez, que temos de ficar lá a dormir. Duas horas antes, ao telemóvel, a sua conversa era a mesma. E jamais encontrei ninguém tão persistente num convite.

“Têm de ficar. Amanhã vou mostrar-vos as montanhas. E a minha família ficará muito feliz e honrada por vos receber”. Esta frase será repetida até quase à exaustão. Seguida de um insistente “prometam-me que ficam”. Sardor está tão entusiasmado que não entende que, culturalmente, pode começar a roçar a inconveniência. Mas é jovem. Puro e inocente. Relevamos. É recompensador ver alguém assim feliz…

A sua irmã e cunhado desmultiplicam-se em sorrisos (sim, não faltam dentes de ouro, tão populares no Uzbequistão) quando nos recebem no portão de entrada para a ampla casa que toda a família habita, incluindo os pais e mais duas crianças e outros tantos adolescentes. Uma das salas tem uma mesa e em minutos já a estamos a rodear. Sentados no chão, como aqui se faz. Na presença dos dois taxistas, igualmente convidados, pois são quem nos levará de volta a Samarcanda.

A tradicional hospitalidade uzbeque é servida de chá e doces. Para os nossos padrões, a hora já exige salgados e ‘quentes’, porém nestas bandas as regras são outras. E, acreditem, os uzbeques são bem acolhedores, pois esta não será a única vez em que somos solicitados a entrar em casas alheias. Receber bem é mais apreciado do que a riqueza ou prosperidade. Não receber bem um convidado é como desgraçar a família.

Dizia então que, como manda a tradição, somos recebidos à porta com respeitosos cumprimentos que incluem a mão no coração. Somos desafiados a entrar e ficamos com os ‘melhores lugares’ à mesa, onde raramente os nossos anfitriões se sentam, imbuídos no frenesim de trazer chá e outros doces. Até nem um palito caber à mesa. Não cumprimos com a tradição antiga de homens e mulheres em mesas diferentes. Somos um grupo. Os pais de Sardor só chegam no dia seguinte, pelo que o chefe de família não presidirá à mesa. Na qual os convidados mais honoráveis ficam longe da porta da sala (seguindo a tradição, serei, provavelmente, o menos importante).

Todas as refeições começam e terminam com chá, que antes de ser serviço é deitado, três vezes, em chávena e devolvido ao bule. À quarta dá sorte e bonança. Quanto mais honorável o visitante, menor quantidade se serve. Quanto mais vezes este pedir chá, mais honra e respeita a casa. No início a mesa é servida com doces, frutos secos, nozes, frutas e legumes, depois vêm salgadinhos e no final serve-se o ‘plov’ (‘pilaf’, em vários países da região) ou outro prato festivo. Não chegaremos a este ponto. Será mais um motivo para Sardor insistir para que lá fiquemos a dormir, elogiando os dotes culinários da mãe que regressará apenas no dia seguinte.

O fim do convívio terá música e dança. Ambos tradicionais do Uzbequistão. Sardor não perde tempo e vai direto à portuguesa que encanta o seu olhar, mais disposta a usufruir e apreciar o momento do que iniciar uma dança a dois. Só no regresso a casa a nossa companheira de viagem saberá o quanto o seu brilho ‘cegou’ a efervescente juventude de Sardor.

Estamos bem. Sinto-me em paz. Deleito-me com o sublime prazer de saber que estamos a contribuir para tornar os nossos anfitriões nos mais felizes, entusiastas e agradecidos do Mundo. A quantidade de sorrisos e abraços no final diz-nos isso mesmo.

Sardor, obrigado por tudo. Certamente que um dia voltaremos…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

37 comments

  1. Vitor

    Mais uma grande história contada de excelente forma, com o coração!!
    Obrigado Rui…a simplicidade do ser humano não para de nos surpreender..

  2. Marta Chan

    Estou com uma curiosidade enorme de conhecer essa parte do Mundo, Uzbequistão e todos aqueles paises vizinhos que terminam em ao.
    Ao ler o teu relato fui logo para Marrocos onde fui tão bem acolhida por famílias cheias de curiosidade do nosso país. E o chá o tempo inteiro tão bom!

    1. Rui Batista Post author

      Marta Chan, nada há que se compare em viagem a estes momentos de partilha e quebra de todo o tipo de receios e barreiras 🙂 Se tiveres escrito sobre essa tua experiência, partilha comigo 🙂 Beijinho e boas viagens…

  3. Ruthia

    A beleza dos lugares que visitamos, não custa repetir até à exaustão, reside nas pessoas que se cruzam no nosso caminho. A amiga portuguesa não corre o risco de um dia se esquecer do Sardor e do seu país

    1. Rui Batista Post author

      Ruthia, a amiga portuguesa não vai esquecer esse ‘elogio’ do menino Sardor, sem dúvida um excelente ser Humano. E, como bem dizes, a essência não custa repetir até à exaustão 🙂 Beijinho e boas viagens…

  4. Camila Neves

    Muito legal esse post! É incrível ver histórias que nos fazem acreditar que ainda há muita bondade por aí 🙂

  5. Andrea

    Esse mundão é realmente incrível….tantas culturas diferentes por aí e gente boa por todos os lados. Adorei a história. Parabéns.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Andrea. Felizmente que o Mundo está repleto de gente boa mesmo 🙂 Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Catarina. A admiração é mútua 🙂 Sim, todos iguais… em diferentes circunstâncias. Beijinhos e boas viagens…

  6. Rafaella Machado

    Nossa que lugar diferente e ao mesmo tempo incrível a sua viagem. Incrível a sua viagem, conhecer a fundo a cultura e as novas descobertas de um dos lugares diferentes no mundo é sensacional, parabéns.

  7. Ana Morize

    Uau, taí um destino que ainda eu não tinha parado para me imaginar nele. Gostei do seu relato com uma escrita toda particular e que nos prende a atenção

  8. Janete

    Parabéns pela capacidade de nos guiar com as palavras, tornando-nos espetadores destas narrativas. Gostei muito de conhecer o Sardor!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Janete 🙂 É, realmente, um menino bom. Ainda a despertar de uma certa inocência. Beijinho e boas viagens…

  9. Leo Vidal

    O que mais gosto ao ler seus relatos é a forma como você mostra países os mais não somos tão familiarizados no Brasil. Desperta a nossa curiosidade.

    1. Rui Batista Post author

      Leo, tento mostrar os países da forma como os “vejo”, sendo que as pessoas são, sempre, a minha prioridade. Abraço e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      O Mundo está sempre a surpreender-nos, Roberta 🙂 Nomeadamente aquele mais distante do selvagem capitalismo…

  10. angela sant anna

    quanto carinho e hospitalidade essa familia, adorei quando falou dos ~melhores lugares~! recentemente tive uma experiencia parecida, mas com a familia italiana do meu marido que ainda nao conhecia…mais de 30 pessoas nos receberam nas suas casas para ouvir as historias do brasil, encher as barrigas de comida boa e levar para passear por uma semana! detalhe q meu marido nao estava junto aheuae

    1. Rui Batista Post author

      Tens de partilhar essa história, Angela 🙂 O Mundo anda bem necessitado de belos exemplos de humanismo e humanidade 🙂 Beijinho e boas viagens…

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