Uzbequistão, o teu ‘peito’ em estimulante viagem de comboio

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Médio Oriente Uzbequistão

Não há melhor forma de ‘mergulhar’ num país do que usar o comboio.

Invariavelmente, os rostos vão-se abrindo. Como flores a desabrochar em soalheira manhã primaveril. Notam que o meu não é daquelas bandas. E não é por me faltarem dentes em ouro. Aceno com a cabeça, movendo-a de um lado para o outro. Vou exibindo o meu sincero esgar de lábios e soltando uns “olá” na língua nativa, tentando estabelecer conversa.

É uma pena que o normal cidadão uzbeque raramente arranhe o inglês. Os sorrisos aquecem-nos, mas falta-lhe a etapa seguinte. Que permite um verdadeiro e mais profundo contacto. E, sinto, não tenho mais desejo do que este bom povo em comunicar. Todas estas expressões que desfilam perante a minha curiosidade transpiram calorosos “bem-vindo” e a vontade de algo mais.

A providência, não sei se divina, coloca-me no caminho de uma jovem que vai a Tashkent com missão “dura”: passar um exame internacional de inglês. Dito isto, até eu invejo a sua fluência. Maria está insegura. Esta é a porta para um novo horizonte de oportunidades. Deseja prosseguir os estudos em Inglaterra ou na Coreia do Sul – há uma profunda ligação entre o Uzbequistão e o país asiático -, mas o pai não está muito para aí virado. Espera que esta esteja já casada aos 25 anos e não lhe sobra tempo para cumprir com o designo que não é o seu.

Está claramente apreensiva. Sobra-lhe gentileza, num rosto que denuncia preocupação pelo grande momento. Tem sorte. Carla, do grupo Bornfreee, é professora de inglês. Analisa o seu livro, o tipo de teste e dedica boa parte da viagem a improvisada lição. Uma conexão perfeita que ambas agradecem. Estão tão imbuídas do seu papel…

Antes que se percam nos afazeres, a nossa interlocutora vai alternando prosa própria com tradução para os curiosos que já nos rodeiam. Ao saberem-nos portugueses, há a inevitável associação a Cristiano Ronaldo. Mudarão de expressão quando lhes exibo vídeos de ‘CR7’ nos últimos jogos internacionais de Portugal (Egito e Holanda), na Suíça, e lhes confesso que irei estar, a trabalho, no Campeonato do Mundo de futebol, na Rússia.

Deambulando pelas carruagens – há, como é bom este ‘exercício’ – é mesmo um recordar o Transiberiano/Transmongoliano. O cenário é o idêntico. Um fervilhar de vida. Famílias inteiras em ‘casa’ provisória. Demasiadas malas. Comida a rodos. Um misto de odores. Caos visual. Hábitos de higiene diários. Como se esta jornada não tivesse fim.

De quando em vez, sou presenteado com iguarias locais. Provo. Sorrio. Agradeço. E continuo a exploração. Sempre ávido de contacto, de perceber em que ponto da existência encontro os meus pares. Conhecer as suas rotinas, os seus sonhos, o que os faz correr no quotidiano. Sobram faces de ‘gente boa’. Surpresa com a nossa presença, já que os estrangeiros só excepcionalmente utilizarão os comboios regionais.

Estas quatro horas e picos são tão intensas que mais parecem um longo dia. Uma jornada inspirativa. Envolvente. Quem de inicio torcera o nariz a suposta míngua de conforto, não tarda a descobrir as benesses de tão genuína ‘expedição’, rasgando o coração do Uzbequistão.

Junto a nós há um grupo de jovens, maioritariamente meninas, de 14/15 anos que segue para um estágio da seleção de ténis. Partilham a última carruagem connosco e são os mais comunicativos. O mais pequeno, de apenas 12 anos, quer ser programador e é quem melhor se desenrasca em inglês. Vai traduzindo para os seus amigos que soltam gargalhadas de felicidade a cada revelação ou elogio nossos.

Há quem dance. E cante. Com surpreendente descontração. Há uma nova geração pronta a conquistar o Mundo. Num ápice, gera-se um ambiente de festa, que já nos havia surpreendido ao chegarmos à pomposa estação de Samarcanda.

Por instantes, pensara que a nossa presença era motivo mais do suficiente para tão descomunal celebração. Largas centenas de crianças e adolescentes empunhando bandeiras e entusiastas cânticos, devidamente orquestrados por adultos. Pompa de tal ordem que me faz imaginar que, não sendo para mim, para nós, só poderá ser para um grande líder. O presidente ou primeiro ministro do Uzbequistão, logo sentencio. A locomotiva é moderna, de alta velocidade, e todo este aparato só pode ser reservado a uma figura de Estado. Há câmaras de televisão e jornalistas em direto. Misturo-me na colorida e ruidosa confusão e tento perceber. Até que começa o desfile…

Palmo e meio. Sim, é gente de palmo e meio que sai da composição, em ordeira fila, sendo que de cinco em cinco metros há alguém que carrega uma placa revelando a sua origem. Bucara recebe um encontro nacional de jovens estudantes e o entusiasmo e frenesim é tal que nos engana por completo. Pelos melhores motivos.

O comboio no qual embarcaremos não é o rápido ou confortável. Parece-se, até, demasiado com o Transmongoliano que fiz em 2016. Todo ele uma longa sucessão de vagões-cama. Com os devidos lençóis e almofadas. Excetuando a última carruagem, que nos transportará.

É hora de serenar. De me abstrair dos outros e me dedicar apenas ao meu egoísta prazer. Arranjo banda sonora. Encosto cabeça ao vidro e deixo-me embalar na paisagem, usufruindo os derradeiros momentos da viagem…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

30 comments

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Victoria 🙂 NADA se compara em viagem a uma bela viagem de comboio “local”…

  1. Vitor

    Viajar de comboio e a forma que mais gosto, muito bom artigo sobre a vida quotidiana das pessoas, isso fascina me a cada viagem que faço seja para que destino for…

  2. Lulu Freitas

    Viajar de trem é sempre uma ótima oportunidade para conhecer os moradores locais e seus hábitos, ainda que a barreira do idioma se faça presente, como no seu caso. Lindo texto.

  3. angela sant anna

    eu adoro viajar de trem! um dos mais memoráveis foi no Vietnã quando havia um casal com um saco grande na minha cabine. Subi na cama de cima para deixar as minhas coisas e quando desci ouvi um COCÓ dentro do saco…na hora eu ri muuuito pois lembrava das historias q meu pai contava do interior…depois o casal sumiu assim como a galinha. Passou um tempo serviram canja de galinha e ri mais ainda ahueaheu

    1. Rui Batista Post author

      Eloah comboio é SEMPRE a minha primeira opção… permite-nos histórias como esta 🙂

  4. Analuiza

    Está bem aí porque os trens são sempre minha primeira opção de meio de transporte. Gosto de observar o desenrolar da vida local. Lembrou-me vaga e palidamente um dos trechos que fiz da transiberiana… queria fazer toda um dia…

    1. Rui Batista Post author

      Analuiza, esta jornada também me fez lembrar a aventura no Transiberiano… muitas semelhanças no cenário interior do comboio 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Luiz, assim deixa-me sem jeito 🙂 Obrigado pelas palavras… do coração. Grande abraço e boas viagens!

  5. Flavia donohoe

    Esse seria um lugar que nao conheceria nada se nao fosse pelo seu relato, interessante como a cultura e ao mesmo tempo parecida e diferente, deve ter sido uma viagem inesquecível!

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Flávia, super-interessante… O planeta está repleto de lugares e gente assim 🙂

  6. Cleber Yamamoto

    Lindo texto! Uma hora senti na pele da menina que quer algo a mais, outrora virei um pequeno explorador que almeja o mundo, mas os sentidos aguçaram quando me imaginei estático no meio de pessoas marchando distantes um palmo e meio. Foi um texto bem envolvente! Obrigado por compartilhar.

    1. Rui Batista Post author

      Faz muito bem, Diego. Sem dúvida, uma zona muito estimulante do planeta. Abraço e boas explorações!

    1. Rui Batista Post author

      Estamos em sintonia, Leo. Partilhamos o mesmo gosto por essa romântica forma de viajar 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Márcia, um pouco de inglês não nos faz muito mal 🙂 Poder comunicar desta forma abre-nos um arco-íris de possibilidades. Obrigado pelas palavras. Bjks e boas viagens…

  7. Luis Felipe

    Muito legal este teu contato com a população local. Certamente agrega muito conhecimento sonbre as pessoas, sobre as nações. Uma viagem de horas em um trem, com certeza propicia muito este conhecimento. Parabéns!

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Luís, NADA como uma estimulante viagem de comboio. É o transporte em que melhor podemos conhecer um país… não apenas por podermos apreciar todo o tipo de paisagens, mas porque nos potencia e facilita um contacto singular com os locais. Abraço!

  8. Renata Rocha Inforzato

    Adorei o relato, viajar de trem é uma delícia, ainda mais para ver culturas tão diferentes… Falar inglês nessas horas pode ajudar na comunicação, mas o sorriso é a linguagem universal

    1. Rui Batista Post author

      Universalíssima, Renata 🙂 O inglês torna-se fundamental para podermos ir mais além, ter um contacto ainda mais profundo. Obrigado e boas viagens…

  9. Roberta Lan

    Eu gosto muito de viajar de trem (é o meu meio preferido), mas nunca fiz uma viagem muito longa. Sempre me pergunto se é confortável dormir nessas camas. Você sabe me dizer?

    1. Rui Batista Post author

      Roberta, para mim é confortável… o facto de interagir com desconhecidos oferece-me TODO o conforto do Mundo 🙂 Certamente não será o sono mais tranquilo, mas noites excepcionais são isso mesmo 🙂

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