Uzbequistão: E que tal ‘tropeçarmos’ em ‘pré-casamento’?

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Uzbequistão

No Uzbequistão, o amor anda no ar. E os casamentos acontecem…

Bret é um desassossego. Um BORNFREEE de ‘saias’, com faro para o surpreendente. Samarcanda: a uns 30 metros, avisto uma mulher a transportar agigantado urso de peluche para uma moradia, seguida de ajuda e de vários outros presentes. Quando atravesso a rua para averiguar o fenómeno, já Bret (Teresa) espalha charme e socializa com quem não dá uma palavra de inglês.

Estamos juntos nesta aventura. E somos ‘apenas’ 10. Não tarda, estaremos a dançar com estranhos. E o dia ainda mal começou. Não, não é um bailarico. Trata-se de uma cerimónia que antecede o casamento uzbeque. E nem há dois meses participei em matrimónio no Sudão… Será um sinal divino? Não creio…

Há uma espécie de batuque que marca o ritmo, frenético, e não resistimos a juntar-nos. De repente, há uma pista improvisada, sorrisos e inesperada partilha. Alegria a rodos. Um saudável descontrolo geral.

Daí até subirmos ao primeiro andar é um instante. Descalçamo-nos e somos convidados a assistir a outra parte interessante da cerimónia. As mulheres – não há homens, eu, o Pedro e o fotógrafo oficial somos as exceções – sentam-se no chão em torno da mesa e a matriarca dirige a reza. Com as palmas das mãos juntas, em forma de concha. Quando terminam, entra em cena um baú. Depois o segundo. E é aqui que começa o desfile. São prendas da família do noivo para a consorte do benjamim, ausente.

Sumptuosos vestidos de noite – não propriamente o mais discreto estilo ocidental -, roupa interior, artigos para o lar, toalhas e lençóis, um sem número de oferendas para que nada falte no novo lar. Há ainda dinheiro, belos tecidos, doces e carnes. A família do noivo costuma ter os custos do matrimónio, embora hoje em dia a repartição de custos tenha cada vez mais adeptos. Até porque manda a tradição que sejam muitos os convidados e a comida com que os satisfazer.

O mais triste de tudo? A noiva. Nem podia ser de outra forma. É esse o estado de espírito que o uso impõe. Afinal, vai deixar a casa dos pais. Mais do que estar alegre pelo novo lar, deve exibir a desolação por deixar os entes queridos.

No fim, aparece um bolo. A sogra pega no garfo e dá à noiva a primeira fatia de bolo, levando-lhe mesmo o utensílio à boca. Esta retribuirá da mesma forma. E fará o mesmo com a sua mãe e com as cunhadas.

E restantes convidadas. Ao som de entusiastas palmas. E nós a ver…

Os costumes dos uzbeques têm séculos de tradição e os do casamento são dos mais antigos do planeta. E há poucas cerimónias tão valorizadas para as famílias, com papel muito ativo, desde o início do processo. Os pais do noivo chegam a contratar pessoas para se documentarem sobre a futura nora, usando, amiúde, informações através de amigos e conhecidos.

O estatuto social da família, o nível de educação e formação e a capacidade de cuidar do lar são os fatores mais importantes. Encontrada e aprovada a candidata, são escolhidos dois elementos do sexo masculino e enviados à sua residência para revelarem a sua conclusão da primeira impressão, incluindo da sua família. Os ‘casamenteiros’ avaliam, entre outros, a sua habilidade para as limpezas e receber visitas.

No dia do enlace, que ainda está por vir, será confecionado um gigantesco ‘plov’ (ou ‘pilaf’, como é designado em vários outros países), nas residências dos progenitores dos noivos, mas cozinhado exclusivamente por homens. Parentes, vizinhos, colegas de trabalho e conhecidos são bem-vindos. Muitas vezes, o número de comensais ultrapassa os 300 ou 400. Hoje em dia, quem pode aposta em restaurantes para assim se libertar de canseiras.

Haverá ainda ‘manti’, um prato tradicional oriental de carne, ‘naryn’, macarrão com carne de cavalo em fatias finais, ‘turup’, salada de rabanete, e ‘kazi’, salsicha de cavalo, além de outras iguarias e muitos, muitos doces. Tudo regado com cânticos e danças tradicionais. Os casamentos são celebrados com grande aparato, esplendor e abundância de convidados…

Curiosamente, a noiva só deve abandonar a residência dos seus procriadores no dia seguinte, quando o casamento estiver cumprido preto no branco, incluindo no notário. Tradicionalmente, os pais lamentam a partida da sua filha, desejando-lhe uma vida familiar feliz. Dão-lhe colchões, roupa de cama e utensílios de cozinha. Esta sairá do lar acompanhada de amigos que levarão o seu enxoval e cantarão músicas de despedidas.

Quando entra na sua nova casa, tem os familiares do marido à espera e um ponto perante o qual se deve curvar, sinal de respeito para os novos parentes. Receberá dinheiro e tudo o mais de que precisa para a vida conjugal: móveis, tapetes, eletrodomésticos, jóias, flores, doces…

Tiraremos fotos de conjunto. Entendem que damos sorte. Bastantes sorrisos de ouro – sinal de abastança mostrar dentes do dourado metal – e uma cara sorumbática, a noiva. Bela, mas sempre, sempre triste.

Sem que nos apercebamos, e enquanto ainda estamos maravilhados com a experiência, toda a gente desaparece. Vamo-nos calçando para voltar à exploração de Samarcanda. Apressam-nos e as portas fecham-se. Ainda incrédulos com tão bela partilha, ficamos sem perceber o nosso papel e que parte da cerimónia experienciámos…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

35 comments

  1. Gaia Vani

    Como deve ser incrível participar de uma cerimônia tão rica como esta! Está aí uma experiência que poucos turistas passam. Adorei seu relato!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Gaia 🙂 Acho que começo a ficar com grande aptidão para casamentos… dos outros :)))

  2. Analuiza

    Como é vasta e diversa a cultura deste mundo! Como eu gosto de conhecer, seja de que maneira for, as forma de se viver dos povos do mundo. O Bornfreee tem se tornado um celeiro de novos e interessantes conhecimentos e vivências de experiências à distância.

    Hummm… anm, mas não sei não, estou achando sim que andam te enviando sinais dos céus… rsrsrs

    1. Rui Batista Post author

      Analuiza, não confio muito nesses sinais dos céus :))) Obrigado, de coração, pelas palavras. Maior estímulo não pode haver, ainda por cima vindo de alguém que não conheço pessoalmente. Beijinho e ótimas e inspiradoras viagens…

  3. Luis Felipe

    Imersão mais profunda que essa na cultura de outro povo não deve haver. Linda essa tradição uzbeque. Muito bom ter recebido essa história!

  4. Michela Borges Nunes

    Que experiência interessante, que viagem maravilhosa. Fazer parte de uma festa destas, diferente de tudo o que vemos no Ocidente, nossa, uma experiência inesquecível. Só uma dúvida, ela é recepcionada pela família do noivo no novo lar, mas eles moram todos juntos?

    1. Rui Batista Post author

      Michela, não moram juntos. Mas a família dele está lá, em peso, a dar-lhes as boas vindas. É um gesto simbólico de união familiar. Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Juliana… tenho de encontrar ‘tempo’ para isso. É o meu calcanhar de Aquiles, não conseguir esse tempo e paz de espírito para concluir, arranjar, finalizar um trabalho já com mais de 100 páginas. A ver… e muito obrigado pelas palavras 🙂

  5. klecia

    Que aventura einh? Entrar assim na cultura de um povo é a melhor parte de qualquer viagem! E parece que foi mesmo uma festa e tanto!

  6. Viaje Comigo

    Que máximo! Isso é o melhor que pode acontecer quando estamos a viajar! Não há nada igual do que fazermos parte da histórias dessas pessoas também. Agora… de facto, a noiva estava triste como a noite. Coitadita! Felicidades para os noivos! 😀 Boas viagens!

  7. Marcia Picorallo

    Rui, pensei imediatamente ao ler o título o mesmo: ‘sinal dos deuses’ ahaha.
    Que riqueza esta sua vida de explorador de culturas e sempre com um olhar sensível e relatos gostosos de ler. Também faço votos para virarem um livro.

    1. Rui Batista Post author

      Marcia, obrigado pelas palavras… que me deixam sem jeito 🙂 Do coração. Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Angela, essa diversidade cultural é que torna este Mundo bem fantástico e estimulante, não é? :)))

    1. Rui Batista Post author

      Super-privilégio, Deisy. E maior ainda o estímulo 🙂 Beijinho e boas aventuras…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Edson. Confesso que é sempre uma emoção e grande estímulo sempre que me deparo com diferenças culturais… grande abraço e boas viagens!

  8. Renata Rocha Inforzato

    É muito interessante essas diferenças culturais. Em países mais “conhecidos” já é um aprendizado e tanto, imagina nesses que a gente não ouve muito falar ou que são cercados de clichês.. Belas fotos

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Renata 🙂 Estes países menos badalados são, sem dúvida, os meus favoritos 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Eloah 🙂 É um prazer para mim partilhar o muito que vou aprendendo…

  9. Roberta Lan

    Gente, que demais! Adoro saber detalhes de outras culturas. Se bem que eu não tenho muita paciência pra casamento (o meu inclusive fiz mini, justamente por isso), que dirá um pré-casamento, rs

    1. Rui Batista Post author

      Roberta, há culturas para as quais o matrimónio é um sem número de rituais… Não sou o maior fã do casamento – nunca casei – pelo que deve ser por isso que curto este tipo de cerimónias 🙂

  10. Camila Neves

    Que demais essa oportunidade de imersão que você teve! E muito legal aprender um pouco mais sobre a cultura deles através do seu post 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Camila, quando deambulamos sem grandes preocupações, sujeita-mo-nos a esta maravilha de encontros 🙂

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