Mardim/Turquia: A curda Gulè, os refugiados sírios e o jardim do árabe Ali

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Médio Oriente Sem categoria Turquia

Mardin é alma e essência do belo Curdistão. 

Como quase sempre nestas paragens, tudo começa com um chá. Os seus expressivos olhos de mel tiram-me a pinta, o seu sorriso tímido solta o convite e num ápice estou sentado ao lado da sua pele de amêndoa. Como quase todas por estas bandas, onde convivem curdos, turcos e árabes: assírios e arménios também abundavam por Mardin, porém foram dizimados pelos otomanos em genocídio na I Guerra Mundial.

Gulè é curda. Até ao tutano. Não quer ser identificada de outra forma. “Nem pela religião, pois sou péssima islâmica, nem por outra nacionalidade que não a curda”.

Por mim, estamos perfeitos. Em Mardin, no coração do Curdistão turco, a menos de 20 quilómetros da fronteira com a Síria, não conheço um único curdo que vista a ‘camisola’ da Turquia. Ou que não sinta a mesma urticária que eu quando ouvem o nome Erdogan, do presidente que vejo ser venerado em várias regiões rurais, mas não aqui nem pelos meus amigos de Istambul. Mas não quero que este texto vá pela política.

Deambulo pela secular Mardin e quando penso estar a entrar em Madrassa, para me abrigar de um calor quase aflitivo, percebo que afinal é uma escola primária. Em período de férias. Gulè, a diretora, conversa no arejado sofá – está entre duas portas – com um professor de língua turca, também ele curdo.

“Nestes dois meses de férias, temos 15 crianças refugiadas da Síria. Diariamente ensinamos-lhes turco, pois não me parece que nos próximos tempos vão para qualquer outro lado e precisam de ser, o quanto antes, plenamente integrados na sociedade”, explica.

A guerra trouxe muitos sírios para estas paragens, abrindo feridas em demasiadas vidas, numa dilacerante dor de ver ficar para trás uma vida. A bondade, solidariedade e afinidade curda procuram minimizar esta catástrofe, no arranque de uma nova existência. O governo turco e a comunidade internacional abstêm-se de qualquer apoio.

Gulè não é de se dedicar à política. Contudo, na sua essência, tem tudo o que devemos exigir aos nossos representantes públicos: coragem, humildade, abnegação, entrega, desinteressada, a um bem maior.

Frontal, diz-me que não gosta de turistas – “nos últimos anos, com a repercussão internacional das políticas de Ancara, felizmente que são infinitamente menos”, regozija-se – pois gosta da sua vida pacata, imperturbável. A mesma que nunca a fez ter curiosidade de viajar para outros países. Entende a minha perspetiva de que experienciar outras realidades nos faz entender melhor o Mundo, crescer e abrir a mente. Promete visitar-me em Portugal, depois de cumprir os desejos da irmã de passar uns dias na sua casa na Alemanha.

Sente-se o cansaço em Gulè. Ainda mais emocional do que físico. Raramente tem férias – “há sempre muitos problemas para resolver e as crianças e suas famílias merecem o melhor de mim” – o que pode ajudar a explicar o seu olhar, que roça o triste. E só me esqueço disso sempre que o seu sorriso desabrocha, como uma elegante flor. O branco dos seus dentes a contrastar com uma pele que, a bater nos 40 anos, ainda não exibe qualquer ruga.

Será minha cicerone nas ruelas da parte velha. Com a pressa de quem me quer mostrar tudo. Não sabe – nem saberá – que já visitei praticamente tudo o que me exibe. Tirando quando me leva para os arredores de Mardin, para ter “outra perspetiva” da cidade.

O jantar será no Seyr-i Merdin, tido como o melhor restaurante da cidade. Atesto, pelo segundo dia consecutivo, a sua verdadeira qualidade. E, acima de tudo, as vistas soberbas para o imenso vale, que só termina, bem no horizonte, na fronteira com um país cuja história recente devia envergonhar, verdadeiramente, a comunidade internacional.

Ainda antes de jantarmos, quando voltamos ao centro histórico, Ali grita pela minha amiga, que, ao volante, julga que o seu utilitário é um indestrutível ‘4×4’. Paramos. Em segundos oferece-lhe um manjerico. Ou algo com odor muito semelhante. Não tenho tempo de pousar o vaso entre as pernas e já vem o segundo. São do jardim do simpático árabe, que, ao ver-me como ‘novidade’, insiste para que tomemos chá com ele.

Não fala inglês e aparenta pouco mais de 50, não fossem os meus cálculos traídos pelos seus 14 netos, de cinco filhos. A sua casa fica bem no alto e o jardim privado, do outro lado da rua. Em ravina colada ao castelo, zona militarizada que não convém sequer tocar. “Quem ultrapassa o arame farpado, já não volta. E, sim, é isso mesmo que estás a pensar…”, atesta. Confesso que essa ideia (ainda) não me tinha passado pela cabeça…

Falam desenfreadamente, como se eu ali não estivesse e houvesse uma vida de notícias e acontecimentos para partilhar. Sou servido três vezes de chá e uma de um pão doce que combina na perfeição. Estamos numa espécie de esplanada e um lago, sob umas tábuas mal-amanhadas que supostamente servem para dar sombra. O cimento acompanha as ondulações do chão. Rodeados de flores, alguma agricultura e, mais afastadas, galinhas. E dois pombos de competição.

A mulher de Ali parece – no ar e no traje – uma colorida cigana romena. Tem um ar austero, que se desfaz por completo quando brinca com um dos netos. Enquanto espalha fumaças do cigarro que vai mantendo colado aos lábios…

Ali é defensor acérrimo de Erdogan. E de Ataturk, a grande figura da Turquia moderna (oficial do exército, estadista, revolucionário e fundador do país), personagem igualmente execrável para Gulè. Na escola, não tem alternativa a ‘conviver’ com repetidos pósteres de ambos. Mas, como referi, isto hoje não vai para política. Nem para contar que Erdogan mandou prender Ahmet Turk, do partido das regiões democráticas, tido como “o mais pacífico, mais inclusivo, mais anti-violência, mais moderado e sábia figura do movimento político curdo”. Em 2014 foi eleito autarca de Mardin. Dois anos depois, com as qualidades  intactas, foi detido sob “acusações de terrorismo”, e substituído, convenientemente, por um fantoche de Ancara.

Neste momento, não quero pensar neste nojo. Insisto, isto hoje não vai MESMO pela política. Até agradeço que os meus interlocutores não falem língua que entenda. Sinto-me como quero: invisível.

Saboreio o chá, suspiro com a brisa que finalmente chega para acalmar o calor de Mardin e contemplo a vasta planície que, acredito, continua fértil em esperança de melhores ventos para os curdos…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

34 comments

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Mariana. O problema deste Mundo é que todos temos ‘umbigo’ e não sabemos olhar para os outros… Enquanto a nossa zona de conforto não for atacada, parece que tudo está bem. Obrigado e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Muito obrigado pelas palavras, Fabíola. Bom saber que alguém gosta e que se interessa pelas histórias… pessoas. Beijinho e boas viagens…

  1. Livia Zanon

    Quanta história e cultura hein Rui? Amei conhecer mais um pouquinho da Turquia e saber que não tem só os passeios com balões, rs! Gosto de viajar e saber as curiosidades também, obrigada por compartilhar!!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado eu por leres, Livia 🙂 A Turquia é um país fantástico, com gente muito boa… Em termos políticos, há poucos países a poder exibir orgulho pelos seus representantes…

  2. NiKi Verdot

    Belo texto. E que experiência. Quando cheguei à França tive a oportunidade de estudar/aprender francês com vários refugiados, inclusive da Síria. Também ouvi histórias incríveis, e outras muito tristes. Chega a ser surreal ver que existe tanta maldade nesse mundo.

    1. Rui Batista Post author

      Surreal mesmo, Niki. Não entendo como é que, nesta fase da história, em que a humanidade esta no expoente máximo da sua evolução (e não esquecer a tecnologia), ainda é possível assistir a histórias de terror como estas… uma barbárie que pensávamos enterrada na Idade Média…

  3. Carol Duque

    Adorei a sua forma de compartilhar sua experiência. Deve ter sido incrível poder viver isso. Achei bem interessantes as suas histórias. Parabéns pelo texto!

    1. Rui Batista Post author

      Muito obrigado pelas palavras, Fabiane 🙂 Ainda bem que gostou. Beijinho e boas viagens…

  4. Lais

    Que texto lindo, muita sensibilidade.. Incrível como as crianças têm uma energia boa, em qualquer situação, um olhar doce…

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Nana, muito interessante… Certamente, para um tipo de viagem diferente do habitual…

    1. Rui Batista Post author

      Filipe, benditas as Gulè’s que se cruzam nas nossas vidas 🙂 Um dia trocamos ‘cromos’. Grande abraço e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado pelo carinho, Filipa 🙂 E sê bem-vinda ao Bornfreee. Espero que encontres muitos motivos para ires ficando… 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Assim fico sem jeito, Catarina 🙂 Obrigado pela gentileza… sabes que a admiração é mútua, o teu Wandering Life é uma inspiração. Beijinho e boas viagens…

  5. DEisy Rodrigues

    Adorei a sensibilidade na sua escrita e ter a oportunidade de conhecer esse seu olhar sobre a Turquia que vai muito além do que costumamos encontrar.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, DEisy 🙂 Bom ouvir palavras doces. Espero que continues a ter boas viagens, também em Bornfreee… Bjksss…

    1. Rui Batista Post author

      Edson, concordaremos que é um incrível… acredito que, em breve, recuperará o nível de turismo que já teve no passado. As pessoas merecem… já Erdogan…

    1. Rui Batista Post author

      Vítor, a recuperação da Turquia significará o declínio de outros destinos turísticos – o de Portugal, entre outros – mas o país e a suas gentes bem que merecem uma oportunidade para serem felizes. E o curdistão justifica um outro olhar – e ação – do hipócrita Mundo político internacional. Abraço!

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