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Turquia/Sultan: Um Parque Nacional, um casamento e uma pequena Princesa.

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Médio Oriente Turquia

Quando a natureza se impõe e os Humanos fazem parte da paisagem.

Há uma reta de passadiço que toca o horizonte e me faz duvidar da minha demanda. Caminho há uns bons minutos e, lamentavelmente, o meu tempo não é ilimitado. Como o mais puro dos crentes – tenho alternativa? -, depois de uns 80 quilómetros de bonita estrada de montanha desde Goreme (Capadócia) seria indesejável ‘morrer na praia’. Ou, melhor, deixar-me afogar neste (autêntico) pântano, já na Anatólia.

Flamingos cor de rosa. Garças. Garajaus. Mergulhões. Gaivotas. Pelicanos. Gansos. Guindastes. E Morcegos… Além de vários exemplares em vias de extinção, que aqui encontram abrigo seguro. São 301 espécies de aves – incluindo as minhas novas ‘amigas’ cicatriz anã, íbis marrom, colhereiro, marmelente, zarro-de-topete-vermelho e galeirão pernilongo – em plena vida selvagem ao longo de 25.000 hectares de paraíso. Dos quais 8.000 a 13.000 hectares são de área é pantanosa, dependendo a dimensão da estação do ano. Aqui até se escondem ‘ilhas’ com crustáceos vermelhos, alimento gourmet para as colónias de flamingos.

Esta área protegia recebe milhares de aves em duas importantes rotas migratórias: Europa-África e Ásia-África. Na época mais agitada, chegam aos 600.000 exemplares – 85 espécies de aves reproduzem-se aqui. Muitos comparam a riqueza e diversidade de fauna e flora de Sultan com o delta do Okavango, no Botswana. Mas não pensem que tudo o que vemos voa. Não faltam ratos de água, raposas, coelhos, carpas, cobras d’água, lagartos, tartarugas e sapos.

Estes labirintos de juncos e outras plantas – 428 diferentes, 48 delas endémicas – integram um raro ecossistema onde água salgada e doce coexistem. Esta reserva natural deve ser explorada, preferencialmente, em passeio de barco. Tentarei essa jornada, mesmo não tendo o tempo desejado para a missão. Não há mais clientes, nem por isso a negociação se revela fácil. Não lido bem com intransigências. Nem explorações de ocasião. Assim sendo, avanço, a pé, pelo dito interminável passadiço.

O fim do percurso de uns dois quilómetros chega no momento exato. E bifurca para dois lagos ‘abertos’. Onde podemos deleitar-nos em sereno ‘bird watching’. Aliás, só esta paz já justifica a caminhada. O meu entretém será, essencialmente, com as peripécias de jovens e singulares patos, que não consigo ‘catalogar’ cientificamente. De todo desnecessário, na verdade. Fecho os olhos e deixo-me seduzir por esta sinfonia ímpar. Zen. Deixo-me estar. Intemporalmente…

No regresso, já carregando o coração cheio, deparo-me com o inesperado. A meio da tela de verdes e castanhos, destaca-se um ponto branco. E um negro ao lado. Que vão ganhando volume à medida que me aproximo. Compreendo bem esta dupla. O casamento está à porta e as fotos oficiais antes da cerimónia – ritual em muitos países do Mundo, que Portugal bem podia adotar – são tiradas na serenidade deste éden.

Há dúvidas? Poisss… lá terei de saber alguns detalhes de mais uma história de amor que terminará em união que se espera para a vida. Apesar dos rasgados sorrisos com que me brindam, não me delongarei a atrasar a sua missão. Elogios (sinceros) à noiva. Conselhos de cavalheirismo ao futuro ‘chapéu’ da casa. As fotos da praxe. E votos de que a felicidade que trazem tatuada no rosto seja para durar. Eternamente…

Nesta altura já deslizo, não caminho. Estou leve, leve. E acompanho a direção do vento. Sorrio com os inesperados e constantes encontros com gente boa e situações invulgares. E recordo todos os que me garantem ter nascido de ‘rabinho para o ar’ (irmãos brasileiros e PALOP’s, isto significa tão-só alguém com “muita sorte”, apenas isso).

Sigo de queixo levantado e peito a transbordar de sensações fantásticas. Até que o estranho chapinhar na água interrompe a melodia da natureza. Surpreendentemente, revelará um grupo de cavalos. Em liberdade no pântano. O ‘cowboy’ – é assim que traja, sem tirar nem por – que cuida da sua vida parece mais integrado na paisagem no que determinado a condicioná-la. E isso agrada-me. Penso em abordá-lo, mas tenho de seguir. O relógio está contra mim.

Quase de volta ao ponto de partida, distraio-me com uma casa, bem ao longe. Cativa a minha atenção. “É só um pequeno desvio”, convenço-me. Avanço, alterando o meu percurso de regresso. Há uma criança que me vê e num ápice já se entrincheirou entre quatro paredes. Aqui topam um forasteiro à légua. Resignado, fotografo e sigo a minha vida. Até que a Princesa sai do seu imaginário palácio, juntamente com irmão da mesma idade. Ao meu sinal amigável, correm ambos em minha direção. Como loucos, sem hesitar. Como se fosse amiguinho de longa data. Estou já atrasado, já vos disse? Muito. Demasiado. Efetivamente, tenho MESMO, MESMO de ir. Contudo, mas, porém… falta-me o (essencial) desejo de voltar…

 

(PS: O carro alugado será, obviamente, devolvido fora de horas…).

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

30 comments

    1. Rui Batista Post author

      Jorge, há uma atração fatal por casamentos… dos outros :))) Esta quinta-feira tenho outro, neste caso um luso-georgiano e será em Portugal 🙂 Nunca se sabe se não sai outras história gira lol Grande abraço!

      1. Jorge

        És o verdadeiro Santa Casamenteiro em viagem 🙂 Eu apanhei um, uma vez em Portsmouth, mas nenhum dos dos recém-casados parecia muito contente… Não sei como terminou (ou se já terminou). Fico à espera dessa história luso-georgiana. Abraço!

  1. Ana Campeão

    Belo relato para paisagens magníficas:) os casamentos não podem faltar numa viagem Bornfreee:)

    1. Rui Batista Post author

      Ana Campeão, o que se pode fazer??? :))) Os casamentos dão sempre belas histórias… pelo menos, os detalhes dizem-nos muito sobre as diferentes culturas. Beijinho e boas viagens…

  2. Gabriela Torrezani

    Rui, estou sem palavras para esse lugar, essas fotos… todas parecem pinturas! Como é possível a natureza ser assim tão perfeita e às vezes não valorizamos, né? ótimo post!

    1. Rui Batista Post author

      Gabriela, há lugares que são mesmo incríveis… E, felizmente, são IMENSOS.. 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Quer dizer… que aprecio os casamentos dos outros 🙂 Uma virtude, saber apreciar o amor nas várias formas de expressão culturais. Abraço!

  3. Ruthia Portelinha

    A intransigência resultou num momento tão belo, que a tua mestria literária (quase) não conseguia transmitir. É tão bom quando um destino nos deixa a alma tão leve que ela quer elevar-se no ar… Grata por este momento poético.

    1. Rui Batista Post author

      Ruthia, as tuas palavras é que são poesia para os meus ouvidos 🙂 Vindas de ti, exímia contadora de histórias… Beijinho e boas viagens…

  4. Amilton Fortes

    Seus textos são sempre muito interessantes, cheios de poesia. Parabéns pelas histórias e por compartilhar mais esse momento, abs

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Amilton. Apenas algum cuidado com a minha língua mãe 🙂 Abraço e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Gisele, nada se compara à natureza pura… sem o Homem a estragar a sua beleza ímpar…

  5. Mariana Antunes

    Que lugar idílico! Fantástico, nunca imaginei que poderia estar na Turquia! É uma faceta do local que turistas exploradores conseguem nos mostrar! Obrigada por esse post! Natureza fantástica!

    1. Rui Batista Post author

      Mariana, nada como explorar lugares menos visitados e não menos interessantes do que as grandes ‘mecas’ do turismo…

    1. Rui Batista Post author

      Edson, para mim, o turismo longe das massas – e perto do mais genuíno e autêntico – é incomparavelmente mais atrativo. Abraço e boas viagens!

  6. Livia Zanon

    Nunca vi casamentos em viagem, mas já alguns ensaios… São lindos, e essa história mt fantástica… Turquia parece ser demais!

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Livia, a Turquia é um destino maravilhoso… Eu é que tenho um “feeling” especial para casamentos… alheios :)) Beijinho e boas viagens!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Angela 🙂 A Turquia tem uma natureza bem diversa e que pode surpreender quando não a identificamos com os verdes mais típicos da Europa.

  7. Diana

    Não sabia deste paraíso tão perto da Capadócia! as fotografias estão de outro principalmente as primeiras três.. parabéns! E que sorte teres apanhado um casamento!!

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