TURQUIA / SOGANLI: Frescos em igrejas-caverna ‘perdidas’ na Capadócia

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Médio Oriente Turquia

Na remota Capadócia há surpreendente herança humana…

Erdem convida-me para café, porém há uma urgência em mim em iniciar a exploração de Soganli. “Agradeço e aceito, mas apenas quando voltar. Está prometido”, garanto-lhe. Há um sorriso cúmplice que me é devolvido e, assim, decido avançar de imediato. Sigo por um carreiro que, progressivamente, me vai levando a subir o monte, fazendo com que a encosta do outro lado do estreito vale também se vá despindo, exibindo-se diante do meu encantado olhar.

A paisagem está polvilhada de grutas e de igrejas-caverna, várias em rochas em forma de gota. O vale de Göreme tem as igrejas pintadas com os frescos mais bem preservados da região, o de Zelve, uma maravilha em invulgar topografia vulcânica, não lhe fica atrás: Soganli tem outros encantos e completa o trio. Não será esquecida da história, nem que seja pelo facto de ser onde nasceu São Jorge, venerado nas igrejas católica, ortodoxa, anglicana, luterana e em várias religiões afro-brasileiras. Imortalizado na lenda em que mata o Dragão, foi instituído Padroeiro de Portugal.

Surpreendentemente, estou só. Um lento olhar a 360.º e confirmo que não há uma alma – não que seja precisa, bem pelo contrário! – com quem partilhar este maravilhoso cenário natural e arquitectónico.

As ruínas de tempos gloriosos inspiram-me a atrever-me numa das igrejas com mais do que um piso e que ameaçam ruir a qualquer instante. A improvisada vedação com fitas de segurança aconselha algum juízo. Se a vontade não fosse mais forte do que qualquer proibição…

Os tetos ainda revelam restos de frescos, bem como as partes altas de algumas paredes. Um labirinto com três andares e uma vista realmente impressionante. Creio que só assim faz sentido para os eremitas. Refúgios em montanhas que nos inspirem. Que nos mantenham mais próximos do divino em que se acredita. Imune a religiões, quedo-me somente a ouvir o silêncio que aqui impera há séculos.

Soganli terá umas cinquenta igrejas espalhadas num pequeno perímetro reduzido a um par de quilómetros. Disfarçadas na natureza, esbatidas no relevo, ou em invulgares rochas que os nossos antepassados teimaram em moldar. Garantem-me que eram 10 mil a viver, literalmente, no interior da pedra da Capadócia. Abandonada há séculos.

A paisagem revela ainda muitos pombais. Engenhocas dos contemplativos monges em busca do seu profundamente útil guano (fezes de aves e morcegos, utilizado como um excelente fertilizante devido aos seus altos níveis de nitrogénio). A necessidade aguça o engenho. E assim as videiras agradecem e os religiosos também pelo excelente vinho, que eleva qualquer alma a um estado superior.

Os pequenos buracos que proliferam pelas cavernas eram pintados de branco para atrair os pombos. Eram feitos de forma que não lhes permitia pousar, obrigando-os a entrar e aproveitar as estacas estrategicamente colocadas no interior. Um bom local para dormir e fazer a sua higiene pessoal, verdadeiramente apreciada.

Dizem os entendidos que esta foi a última aldeia da região a ser conquistada durante as invasões árabes, no século VIII. Sognali (“Sona Kaldi” traduz-se como “deixado para o fim”) pode ter cedido ao exército de Abdallah al-Battal, contudo o seu charme resistiu aos tempos, pelo que não merece morrer no esquecimento humano.

Tokali. Kubbeli. Tahtali. Barbara. Geyikli. Karabas. Sakli. Meryem Ana. Tudo com o aditamento ‘Kilise’, que significa igreja. São algumas das mais interessantes. Exibem-nos cenas da vida de Jesus. Dos apóstolos e de vários santos. Referencias bíblicas. O inevitável São Jorge a matar o dragão, que, afinal, será uma cobra… Posteriores graffiti de gregos e arménios. Episódios do velho e novo testamento. Tantos estímulos para nos entregarmos a delongado deambular neste (quase) fim de Mundo.

Revoltam-me as paredes rabiscadas por pobres idiotas que acham que o seu insignificante nome deve sobrepor-se aos restos de um fresco. Mais de um milénio de convívio com romanos, bizantinos (altura de maior apogeu, quando Soganli se tornou importante centro monástico – os seus pináculos rochosos transformaram-se em casas, capelas e celas para os monges) e árabes não deviam ceder a um incógnito acéfalo. É o custo do estado de abandono de um lugar que já foi deveras turístico, mas que presentemente mirra, perante a dor do meu interlocutor.

“Há um par de anos, esta esplanada atendia umas quantas centenas de turistas. Tinha vida e paixão. Era um projeto verdadeiramente especial. Atualmente isso é uma miragem. São muito poucos os que agora cá chegam…”, lamenta Erdem (virtuoso, em turco), enquanto manda vir o chá, entusiasmado pelo fim da minha caminhada.

Estou de volta para os prometidos dois dedos de conversa. Numa das esplanadas naturais de montanha mais belas aonde já estive. Aprecio privilégio de ser único, contudo dói-me que este povo mirre. Que tenha a vida suspensa pela aleatória visita de turistas e do seu punhado de liras turcas, em queda livre no mercado internacional (mais um bom motivo para visitar a Turquia).

“Diga ao Mundo que isto é terra segura e de boa gente. Sabemos receber como poucos. E que não faltam bons motivos para nos visitarem”, diz-me o quase sexagenário, segurando-me a mão com as suas, bem robustas, quando me sabe blogger. A um quilómetro há um conjunto de pequenas lojas e restaurantes igualmente à espera que os ventos mudem. Que a bonança regresse para espantar este deserto.

A uns metros da minha conversa com Erdem, sob o conforto da sombra de árvore centenária, quatro mulheres trabalham à mão as típicas bonecas de Soganli. Olhares de bondade mesclados com silenciosa suplica para que leve alguma coisa. A minha mochila já tem a sua dose deste souvenir, no entanto é impossível ficar indiferente, partir de mãos a abanar. E como gostaria de trazer uma destas embaixadoras de trapos para semear sorrisos no rosto de cada mulher que se cruze nos meus dias…

Soganli precisa de equilíbrio. O turismo já lhe abriu as asas, porém a região é das que mais paga o preço da impopularidade internacional da ‘democracia’ de Erdogan. O lugar – e esta gente – merecem a nossa disponibilidade e vontade para nos encantarmos nesta remota Capadócia…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

28 comments

  1. Analuiza Carvalho

    Adoro a melancolia de lugares assim: me permite uma volta intensa ao ontem, um mergulhar em tempos apenas imaginados: como devem ter sido as pessoas nesta época?! Percebo que há mesmo bons motivos para visitá-los e espero fazê-lo um dia. Que possa existir um equilíbrio entre visitas, sobrevivência e preservação.

    Adoro afrescos e estes me pareceram especiais pelo contraste visto na imagem.

    Alma viva não havia para fazer-lhe companhia e compartilhar de suas emoções, massss, almas mortas… 🙂

    Compartilho fortemente de sua revolto em relação aos pobres idiotas e tolos. 🙁

    bjs

    1. Rui Batista Post author

      Analuiza, acho que temos uma forma muito parecida de encarar o Mundo e as viagens 🙂 Acredito que um dia que te aventures pela Capadócia vais ficar fascinada pelos seus múltiplos encantos… Beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Acredite, Maria Antunes… a Capadócia é mesmo assim: como um livro que vamos folheando lentamente…

  2. Aninha Lima

    E cada cantinho desse país reserva uma grande surpresa!
    Adorei viajar com você e conhecer a essência de um lugar tão especial!

  3. Gabriela Torrezani

    Belos lugares Rui, muito diferente do que estamos acostumados e por isso mesmo, incitam à reflexão e me parecem muito poéticos. Como sempre, adoro descobrir o mundo com você! 😀

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Gabriela. O sentimento – quanto à descoberta do Mundo – é mútuo 🙂 Beijinho e boas viagens…

  4. Paloma

    As paisagens são realmente muito lindas, tem cada ligar maravilhoso no mundo pra conhecer, que dá vontade de ser nômade kkkk quero conjecer tudo 🌍

    1. Rui Batista Post author

      Gisele, é mais um dos inúmeros lugares mágicos do planeta… 🙂 Beijinho e boas viagens…

  5. Ruthia Portelinha

    É difícil imaginar que já viveram mais de 10 mil monges nessas montanhas desertas. É uma pena, sem dúvida, o declínio que o lugar regista mas, por outro lado,permitiu essa experiência quase espiritual derivada do isolamento…

    1. Rui Batista Post author

      Ruthia, acho que, com a idade, começo a entender cada vez melhor esses quase-eremitas… a desejar uma experiência destas durante uns dias… 🙂

  6. Fabiana

    Não conheço a Turquia, mas tenho muita vontade de conhecer e viajar por este pais, além do mais depois de ler seu texto e imaginar como seria essas viagem quero ainda mais passear pela Capadocia.

    1. Rui Batista Post author

      Fabian, a Capadócia é das regiões mais cativantes do planeta, sobram (diversificados) motivos de interesse…

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