Rohingya: O ‘calvário’ diário rumo a Kutupalong

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Bangladeche

Os humanitários na crise Rohingya no Bangladesh também sofrem…

O mapa indica 35 quilómetros entre Cox’s Bazar e os campos de refugiados de Kutupalong, no Bangladesh, mas a jornada diária de boa parte dos trabalhadores humanitários obriga a umas cinco horas (total de 70 quilómetros) na caótica estrada, contabilizando também o regresso.

Na verdade, há duas estradas – uma pela costa e outra pelo interior – que se unem sensivelmente ao quilometro 25: a maior beleza cénica abraça a que vai acompanhando o mar, contudo o generalizado caos não difere.

Muitos dos mais de 3.000 trabalhadores humanitários internacionais nesta crise deslocam-se diariamente para Kutupalong, tal como milhares de voluntários do Bangladesh, bem como a ajuda internacional, rotinas que sobrelotaram as estradas, contribuindo decisivamente para a sua rápida deterioração.

Estes dias em Kutupalong começam invariavelmente com viagem entre as 07:00 e as 08:00, hora a que Cox’s Bazar vive já uma azáfama intensa, que inclui muitos animais onde deveriam estar apenas pessoas.

Numa das zonas centrais, onde sobram prédios inacabados e outros abandonados, é hábito estarem reunidas umas duas dezenas de vacas e ‘pastar’ no lixo de ‘espécie de restaurantes’, não sem que alguns corvos lhes deem animada luta.

O lixo é mesmo um dos grandes problemas do Bangladesh, senão o maior, aliado à pobreza, já que dificilmente há um metro quadrado que escape a esta tradição cultural de atirar literalmente tudo para o chão: os espaços públicos tornam-se ainda mais caóticos e pouco recomendáveis, até para Cox’s Bazar, um dos grandes ex-líbris turísticos da nação.

Esta jornada dificilmente permite algum sono extra, pois boa parte da estrada está em muito precária situação, em alguns locais com crateras difíceis de contornar. Não é caso para desesperar, pois o trânsito intenso também não favorece muito maior velocidade.

Carros, camiões, tuque-tuques, pessoas, animais, nada falta à demorada estrada para Kutupalong, um conjunto de campos que alberga cerca de um milhão de refugiados Rohingya, oriundos do Myanmar.

Esta zona rural é fértil em campos de arroz e cada povoado na beira da estrada tem um grande mercado, onde tudo se troca, num ambiente sob inúmeros cabos de eletricidade  geralmente caótico, e não apenas para a visão, já que os tímpanos dificilmente escapam a uma eterna sinfonia de ruído e nem sempre o ar é o mais respirável, e não apenas pelo pó. 

Estamos no dia da língua materna e sucedem-se as manifestações, sobretudo nas escolas: apresentar-nos-emos como forasteiros interessados, num par de minutos seremos convidados de honra, desafiados a discursar, ao microfone, para algumas centenas de alunos. São de ambos os sexos e estão fardados, sendo amiúde disciplinados por varas, aqui tão populares com o propósito de bater, ordenar.

Dizem-nos que o grande e aparatoso complexo que acabámos de passar, literalmente no meio de nada, é a escola nacional de estudos de contabilidade, não muito longe de um aparatoso complexo militar, que inclui campo de golfe junto à estrada. Contradições numa das mais pobres regiões do planeta.

Quando entramos no complexo de Kutupalong, nem nos apercebemos que já o fizemos, pois estamos numa das mais pobres regiões do Bangladesh, uma das nações mais carentes do planeta, e a diferença na paisagem humana não é, de todo, acentuada.

Isto ajuda a explicar a ação da ajuda internacional: as agências de emergência atuam junto da população afetada, mas também na acolhedora, para não criar atritos entre ambas, já que esta tem de partilhar os seus recursos com os ‘invasores’. As agências de desenvolvimento, que não tratam da ajuda imediata como comida, roupa ou abrigo, por exemplo, têm a responsabilidade de medidas mais estruturantes no tempo, como construção de escolas, hospitais, estradas…

Após cinco horas em trabalho nos campos para um documentário no âmbito de uma bolsa de exploração da Nomad, que inclui almoço (comemos, no carro, para evitar desconfortos, o que é possível trazer do pequeno-almoço no hotel, nomeadamente uma ou outra fatia de pão de forma, ovo e maçã) o regresso a Cox’s Bazar será feito pela estrada da costa, famosa pelas imagens do por do sol, que vai conferindo também singular beleza aos campos de arroz, ainda com trabalhadores na azáfama diária.

As instruções, rígidas, são para que ninguém de fora permaneça nos campos de refugiados quando a noite cai, principalmente por questões de segurança, já que é nesta altura em que há mais relatos de violência e todo o tipo de abusos aos direitos individuais, incluindo violações e ações que visam o tráfico humano. Mas essas duras histórias não são para este relato.

A propaganda ao islão que tínhamos encontrado de manhã persiste: uma mesa improvisada, um microfone para dois homens e instalação sonora a plenos pulmões. Juntam-se-lhes adolescentes e adultos – o sexo masculino predomina claramente nos espaços públicos – na berma da estrada a distribuir panfletos, perto de uma das muitas pilhas de tijolos feitos nas redondezas. A construção, quase sempre desordenada, sem regras, floresce…

A escola terminou e há um transporte singular que as leva a casa: uma pequena jaula, que parece mesmo prisão ambulante, ligada a uma bicicleta puxada por corpo gasto, cansado.

Protegida da estrada por milhares de árvores, a praia é de vastíssimo areal plano, tem vários barcos típicos de pesca – estilo oval com proa e popa levantados – e sobressaem dezenas de crianças, jovens e adultos a jogar futebol e cricket, o desporto nacional do país. Há quem não resista e este areal transforma-se no melhor campo de futebol do mundo…

Quando estamos a uns cinco quilómetros de Cox’s Bazar, em jornada na qual continuamos sem ver algo verdadeiramente novo ou limpo, o trânsito está cortado e ninguém passa. As autoridades mandam-nos para trás, mesmo sabendo que isso implica umas duas horas adicionais de caminho.

A habilidade da nossa motorista de 20 anos, que não se esgota no cinturão negro em determinada arte marcial, faz-nos passar essa barreira, até ficarmos, definitivamente, retidos um pouco mais à frente, numa amálgama de todo o tipo de veículos, pessoas e animais, que nos impossibilitam de avançar mais um metro que seja.

Estamos a cerca de três quilómetros do hotel e continuaremos a pé, chegando a um ponto em que a estrada vai prosseguir pela praia – desvio enquanto se arranja o troço habitual – onde nos acompanham centenas de pessoas no escuro da noite, iluminadas pelo transito que apenas flui em nossa direção, e que só vai complicar a situação que abandonámos.

Entrar ou sair da praia será um martírio para carrinhas, carros, motas e tuque-tuques atolados na areia e sem força de braços humanos que lhes valha. É um caos ainda maior do que o habitual. Uma tão inesperada, quanto surreal balbúrdia. Há veículos que continuam imobilizados quando na manhã seguinte nos voltarmos a dirigir a Kutupalong, onde o mundo parece manter a questão rohingya debaixo do tapete das suas preocupações.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

28 comments

  1. Ruthia Portelinha

    O lixo não é um dos maiores problemas do Bangladesh, é um dos maiores problemas contemporâneos do planeta. Só que nós, no primeiro mundo, colocamos o saco no contentor, fazemos uma triagem de resíduos recicláveis e não damos conta da dimensão da coisa.
    Foi o que mais me impressionou, na primeira visita a Angola: as montanhas de lixo da altura de um primeiro andar e as crianças a brincarem no meio daquilo. Já melhorou bastante, entretanto

    1. Rui Batista Post author

      Tens toda a razão, Ruthia. Contudo, no Bangladesh, o lixo toma proporções anormalmente grandes… É parte de todo o tipo de paisagens. Não nos dá tréguas. É mesmo cultural: aconteceu estarmos a queixar-nos disso mesmo, com interlocutores “bem formados”, que concordavam e, no minuto a seguir, atiravam algo fora. Instintivamente. É urgente que isso mude… em todo o lado.

  2. ana P paula

    Que relato de arrepiar! Como não nos tocarmos lendo tudo isso?
    Tenho formação em Eng. Ambiental e desde a faculdade discutíamos sobre o lixo no mundo. Este será nosso grande problema no futuro próximo, mas ninguém parece estar vendo de verdade. Uma pena. Estamos destruindo um planeta lindo…
    Abraços e parabéns pela forma como escreve,

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Ana Paula. Sim, o lixo é um problema GIGANTESCO, ENORME, mais um que o Mundo prefere (ainda) não olhar. Quando ignora genocídios como os que estão a acontecer com os Rohingya, mais facilmente olham par ao lado quando se trata de problemas ‘secundários’, como o lixo…

  3. Eduardo Pineda

    A resiliência dos humanos em qualquer parte do mundo é impressionante. Os teus relatos mostram bem como é árdua a tarefa de começar de novo, a partir do quase nada.
    E como começar tb é importante.
    Quando te vês numa zona do mundo que está a um nível organizacional aparentemente menos desenvolvido do que a Europa, dá vontade de sacudir as pessoas para fazerem melhor, no entanto, o caminho tem de envolver mais as mentalidades das pessoas no local, do que a inferência direta nossa, do nosso tipo de organização, isto referindo o exemplo do lixo.
    Por aqui em Angola é também impressionante a quantidade de lixo que é produzido diariamente. Muito plástico descartável ainda se utiliza em vez de materiais reutilizáveis. Mas a montante existem muitas lacunas nas infraestruturas, na habitação, na recolha do lixo, na separação, na reciclagem…
    Sem pretender impor um modelo, o maior legado dos povos de países mais organizados é esse, promover a melhoria das condições para maior qualidade de vida, sem impor um modelo.
    Afinal o planeta é o mesmo para todos. Quando o sentirmos assim, seremos sem dúvida mais colaborativos.

    1. Rui Batista Post author

      Nem mais, Eduardo Pineda!! A educação, a mudança das mentalidades são fundamentais. Educar pelo exemplo. Por exemplo, perguntei se havia campanhas na TV, outdoors, fosse o que fosse sobre o tema do lixo e… NADA! Num país 1,4 vezes maior do que Portugal e com 165 milhões de habitantes, um terço dos quais a viver em pobreza extrema, não deixa grande margem para que o lixo – e outros problemas – seja uma questão a ter em conta. Cabe-nos, aos países economicamente mais desenvolvidos, partilhar a nossa experiência e ajudar, também com meios, para que essa realidade mude. TODOS partilhamos o planeta, pelo que não basta termos o nosso quintal a salvo. Um dia essa realidade vai mudar…

    1. Rui Batista Post author

      Roberta, o Bornfreee não dá dicas de viagem, apenas conta histórias de situações que vai experienciando pelo Mundo 🙂 Espero que vá continuando desse lado…

    1. Rui Batista Post author

      Belquior, não é propriamente o mais belo dos lugares… mas aqui, no meio do desespero, podemos encontrar coisas bonitas…

  4. Marcia Picorallo

    Com tantos elementos que causam desconforto aqui em seu relato, acabei mesmo pensando no ‘calvário’ a que você se referiu, 5 horas de ida + trabalho + 5 horas de volta, é isso mesmo?

    Quanto ao lixo, acho que já te contei que assisti a um documentário fotográfico (Tales of light) com episódio gravado em Bangladesh. Uma das cenas mostra um lago coberto por lixo e as crianças, por serem leves, eram as únicas que ‘exploravam’ o espaço, caminhando sobre o lixo para garimpar o que pudesse lhes trazer algum troco para o dia. Muitas caem e se afogam…

    1. Rui Batista Post author

      Marcia, 5 horas é o total… 2 e tal para cada lado. 35 quilómetros para cada lado, dá uma média de doidos. Ajuda a ‘situar-nos’. O lixo é mesmo um tema que urge pensar a sério no planeta, pois está a sobrar para todos. Precisamos de educação, de ajuda, de investimento para que alguns países dêem um salto tecnológico a este nível, para diminuir, drasticamente, o volume de poluição…

  5. Mariana

    Que dura realidade, Rui. Saber que as pessoas convivem com o lixo ao redor e que o normal é jogar tudo no chão é muito impressionante. Gosto muito de ler seus relatos, mas acho super interessante ver suas fotos tão lindas de realidades tão duras. É impactante demais.

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Mariana. Na verdade, tenho a ‘mania’ de ver beleza no caos. Acho que é um belo exercício… 🙂

  6. Gabriela Torrezani

    Rui, muito tocante mais esse relato. Kutupalong é mais um daqueles lugares que parece que foi esquecido pela massa ocidental, ainda bem que existem poucas pessoas como você que não fecham os olhos para esse lugar, e que vem contar a sua história aqui para que o mundo ganhe um pouco mais de consciencia…

    1. Rui Batista Post author

      Gabriela, um dos problemas do Mundo é que toda a gente fecha os olhos para o que não interessa.. para o incómodo, para o grotesco. Até que um dia nos calha a nós. Precisamos de mais altruísmo nos nossos dias, ou a humanidade não vai pelo melhor caminho… beijinho e boas viagens…

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Christian. Gostava que o próximo fosse sinónimo de esperança… grande abraço!

  7. MICHELE

    Rui ainda bem que existem pessoas como você que não fecham os olhos para lugares como Kutupalong! Que vem contar a sua história para que o mundo e que através dele percebemos a real realidade do lugar. Parabéns pelo blog

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Michele. Há muitos Kutupalong no planeta… que a nossa consciência coletiva ajude a diminuir esta dura realidade.

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Angela, acho que mostram bem as dificuldades do quotidiano no Bangladesh, maiores ainda nos campos de refugiados…

  8. Paula Abud

    Parabéns, Rui! Seu relato nos preenche com aquele misto de tristeza e revolta, pois é triste e revoltante ver pessoas vivendo em situações tão vulneráveis.

    Ver crianças tendo sua infância perdida em meio as tantas dificuldades, que bom que existem pessoas como você pra abrir nossos olhos pra situações como essa.

    1. Rui Batista Post author

      Paula Abud, é atroz esta desumanização do planeta que nos afeta a todos… Não podemos simplesmente fechar os olhos…

  9. Mariana Antunes

    Não podemos fechar os olhos para situações que acontecem no mundo. Esse relato só mostra a urgência de ajuda que o mundo não vê. Pelo menos você abre uma janela para essa situação, o que já é memorável! Parabéns pelo seu trabalho em Bangladesh!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Mariana. TODOS temos a responsabilidade de tornar este Mundo melhor, mais justo e solidário. Tento apenas fazer a minha parte. Todos os que têm o privilégio de viajar poderiam pensar o mesmo, fazendo-o, por vezes, em favor de causas sociais.

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