Fez: Bem-vindo a um estimulante passado…

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Património Mundial da UNESCO, Fez é uma das grandes jóias de Marrocos.

Quando, enfim, todos dormem, é quando os meus sentidos despertam para o momento em que mais aprecio explorar uma cidade. Principalmente se esta parou no tempo e estiver embrulhada em mistério e ‘caos’, como a marroquina Fez. Admito, há algo profundo em mim que não me permite o mesmo deslumbre em destinos demasiado ‘arrumadinhos’.

Chegar a Fez foi (quase) assim. O dia praticamente desmaiava e depois, o Maison Bleu Riad El Kakdi não me permitiu começar logo a exploração. Trata-se, de facto, de um projeto hoteleiro de excelência. E não falo somente pela sua fotogénica piscina que, mais tarde, percebo ser a menina dos olhos de muitos instagramers do life-style internacional. Lá iremos…

Gosto quando a agitação descansa. Sabe-me bem apreciar a fotografia dos lugares ainda inertes. A repousarem para nova jornada de intensa azáfama. Deambular pelas quase desérticas ruas da medina de Fez quando a noite vai avançada é como estar no ‘pit stop’ de um Grande Prémio de Fórmula 1, naqueles intensos momentos antes da largada. É assim que me sinto. Todo este impávido ambiente medieval me envolve, pronto para a loucura do dia prestes a nascer, que explodirá nas cores, nos odores, nos sons e sabores.

Amanhece. Estou pronto para sair. Há um Património Mundial da UNESCO (ano de 1981) com 1200 anos que espera por mim. Afinal, esta é a cidade imperial mais antiga das quatro do país, fundada em 789, bem antes de Marraquexe (1062), Rabat (1150) e Meknes (1672).

Confesso a minha saudade por Fez, que não visitava há 16 anos. Pouco ou nada parece mudada, no que mais lhe aprecio: a sua medina. Gosto verdadeiramente de destinos que desafiam todos os nossos sentidos. Sem exceção. O colorido artesanato, as odoríferas especiarias, a textura das portas trabalhadas, o chamamento do muezim, o viciante paladar da gastronomia marroquina… Tudo muito genuíno, misturado com gente simpática, inúmeros felinos domésticos (gatos) e alguns burros, quem mais sofre (deveras) com este estilo de vida ainda muito rudimentar.

Em Fez sobram riads, antigos palácios com surpreendentes jardins interiores, lojas e tradições centenárias que vão passando de pais para filhos. Não esqueço as inúmeras fontes, os arcos e portas monumentais. E arquitetura de caráter Andaluz. Embeiço-me por estas mesquitas e madraças. Tudo ligado por um rendilhado de milhares de estreitas ruelas, que lhe conferem esse encanto tão singular, especial.

É um privilégio ter, por instantes, parte da madraça Attarine só para mim. Um ícone de beleza de 1323 ali à minha inteira disposição. Minutos em que a pude fotografar sem qualquer testemunha. Há uns quantos séculos, destinava-se a formar os altos funcionários da administração merínida. Agora, é o turismo que se deslumbra com a sua formosura arquitetónica e decoração. Dos pisos superiores, olhar para a zona velha e os atualmente verdes telhados da universidade Quaraouiyine, a mais antiga do Mundo. Tornou, por isso, Fez uma das urbes mais evoluídas do planeta.

Um antigo caravançarai abandonado e transformado em livraria de ocasião, bem como atelier para alguns artesãos, prende-me a atenção. Para muitos, um lugar desprezado e a precisar de rápida restauração (como outro ali bem perto, já remodelado), para mim, puro prazer e curiosidade.

Dois pés e umas quantas fotos depois, a colorida praça Seffarine: pequena, mas alberga todo um mundo em si. Abstraio-me da realidade e imagino-me, literalmente, em plena idade média. Pouco terá mudado. Uma dupla de músicos/dançarinos adorna-a. Continuo embeiçado pelas tradições e ofícios de outros tempos.

Em Fez os ‘souks’ entrelaçam-se e a verdade é que nada melhor há do que perdermo-nos nos seus labirínticos estímulos. Mesmo que me depare com a decapitada cabeça de um camelo em frente a um mal-amanhado talho, dando conta de que dispõe desta iguaria para venda.

Dois castelos – um a norte e outro a sul – vigiam o burgo, que tem várias portas imponentes, como a Bab Boujloud, talvez a mais visitada e mais bem conservada. É também nos limites do burgo que encontramos a tradição de azulejos. Uma visita para apreciar esta arte que, felizmente, ‘contaminou’ toda a Península Ibérica. Todo o processo está bem segmentado até ao produto final, exibido em grande,  loja. Sim, confesso, esperava ser algo pressionado para a comprar, contudo nada disso aconteceu.

Gostaria de ter explorado o bairro judeu (Mellah) e vários outros lugares, porém não posso impor-me aos desígnios desta jornada, a convite do Turismo de Marrocos.

A indústria dos curtumes é a imagem de marca de Fez. E é de ramo de hortelã, que gentilmente nos oferecem, colada ao nariz que subo a uma esplanada com olhar panorâmico para uma imagem extremamente fotogénica, embora inumana para quem lá trabalha. A vista regala-se, porém os personagens desta história não lhe acharão a mesma piada. Aqui é onde se trabalham as peles de cabra, ovelha e vaca, se curtem os couros. Nefastos químicos coloridos num rendilhado de pequenas piscinas, como que de um petrificado favo de mel se tratasse. Há mais ‘tanneries’ pelo país, mas estas serão as mais conhecidas de Marrocos. E alimentam, tal como as outras, boa parte do seu artesanato.

Recordado este lugar emblemático, é hora de dar idêntica  atenção ao estômago, que exige igual atenção. E Fez continua a encantar, agora com dois dos melhores restaurantes onde já tive a honrada distinção de comer.

Palais Faraj é um nome a ter em conta. Este antigo palácio árabe-mourisco é um dos edifícios mais belos e simbólicos de Fez. Uma varanda privilegiada sobre a medina. Nomeadamente no L’Amandier, um dos seus restaurantes. O Palais Faraj Suites & Spa presenteou-nos com cozinha marroquina gourmet, no meu caso, com alguns paladares nunca antes experienciados. Com ótimo vinho do país, que de alguma forma me surpreendeu.

No igualmente belíssimo Riad Fés, o peixe tratado com várias especiarias revelou-se, provavelmente, o ponto alto da que foi a melhor refeição em Marrocos. A excelência a unir tradição e modernidade, num Riad Fès – Relais & Châteaux que se distingue pela sua arquitetura mourisca e hispânica, com atenção especial aos detalhes e decoração. Lago, terraços, pátios panorâmicos, e uma gastronomia a exigir rápido regresso.

Os adjetivos de sonho aplicam-se identicamente, e sem o menor favor, ao Maison Bleu Riad El Kakdi. Este palácio do século XIX é um mundo de luxo, em atmosfera romântica. Quatro casas labirinticamente unidas com pátios, jardins e terraços. Suítes de luxo e uma piscina que anda no instagram de figuras internacionais do ‘life style’.

Por mim, sem qualquer vontade de partir. Delongo-me num chá enquanto saboreio o aromático privilégio de aqui estar…
ESTA VIAGEM BORNFREEE FOI REALIZADA A CONVITE DO TURISMO DE MARROCOS.

 

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

39 comments

    1. Rui Batista Post author

      Filipe, nem mais… ainda agora voltamos e já penso em regressar 🙂 Saudinha à ABVP 🙂

  1. Marlene Marques

    Espetacular! Por momentos senti-me de volta às rua de Fez através das tuas palavras. Obrigada por esta nova viagem! E parabéns pelas imagens! Estão fantásticas!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Marlene. Também já me apanhei a reler o texto e rever as imagens para me transportar de volta 🙂

  2. Ruthia Portelinha

    A tua falta de visão tecnológica é amplamente compensada pelo teu dom com as palavras, meu amigo. Lendo esta bela crónica, consegui voltar às sinuosas ruelas da medina de Fez.

    1. Rui Batista Post author

      lol Ruthia, tenho mesmo de rever este pé esquerdo com a tecnologia 🙂 Ainda assim, feliz pela nota positiva no teu exigente crivo com as letras 😉

  3. Aninha Lima

    Adoro suas crônicas de viagens e muitas vezes leio sem nem ter planos de conhecer esses lugares.

    As cores e formas de Marrocos são um sonho de viagem que quero realizar em breve. Óbvio que Fez está no topo dessa lista!

    1. Rui Batista Post author

      Obrigado, Aninha. Muito bom saber que há ‘estranhos’ que, afinal, são mais próximos do que pensamos 🙂 Continue por aí…

  4. Tharsila Fernanda Santos Costa

    Gente eu amo a riqueza da arquitetura e os detalhes desses mosaicos em Marrocos. Já comecei a planejar várias vezes uma viagem pro Marrocos mas nunca rolou. Agora fiquei super animada para retomar esse projeto.

    1. Rui Batista Post author

      Tharsila, URGENTE marcar viagem para Marrocos!! Acredita que tem TUDO para ser uma jornada fantástica… “não tem como dar errado” :)))

  5. Clara Amorim

    Retrato absolutamente magnífico da cidade de Fez, passando por todas as suas excentricidades, fazendo-nos transportar de uma forma única para todos os locais que descreves! E escrito de uma forma absolutamente brilhante!
    Muitos parabéns, Rui! E obrigada por partilhares connosco todas estas emoções e sensações… Um bálsamo para os nossos olhos e a nossa alma…!

    1. Rui Batista Post author

      Clara Amorim, assim fico sem saber como reagir :)) Obrigado pelo carinho. Espero que continues estimulada a continuar desse lado, pois só assim faz sentido ir partilhando as experiências Bornfreee pelo Mundo 🙂 Obrigado e grande beijinho…

  6. Cláudia Pesqueira

    Fantástica descrição! Impossível não ficar com vontade de percorrer todos os recantos de Fez após a leitura desta crónica! Senti-me a viajar contigo pelas ruelas dessa Medina 😉

    1. Rui Batista Post author

      Cláudia, aconselho MESMO muito uma visita a FEZ. Pela sua história, pela Medina, pelos seus encantadores Riads…

  7. Isabel Moura

    Transportaste-me para Fez o tempo de uma crónica…agora ficou a vontade de despertar os 5 sentidos “ in loco”! Quem sabe, numa viagem bornfreee!😊

    1. Rui Batista Post author

      Isabel Moura, terei o maior gosto em partilhar contigo uma viagem a Marrocos. Tem TUDO para dar certo 🙂 Beijinhos e boas viagenssss…

  8. Gabi Torrezani

    Eu morro de vontade de conhecer Fez, uma amiga foi e disse que foi o melhor destino no Marrocos! Belíssimos passeios, realmente uma viagem no tempo e na história…

    1. Rui Batista Post author

      Gabi, não percas a oportunidade de ir… é uma viagem a um outro Mundo 🙂 Bem estimulante.

  9. Mariana

    Fez deve ser mesmo impressionante! Explorar as cidades quando o mundo ainda dorme é mesmo interessante! Por vezes a confusão nos atrapalha a apreciar os detalhes. A arquitetura me pareceu linda!

    1. Rui Batista Post author

      Mariana, é TUDO um regalo para o olhar. Não é um destino todo “direitinho”, mas é nas imperfeições que encontramos os maiores estímulos, certo? Pelo menos eu 🙂

  10. Christian Gutierrez

    Marrocos é um país que encanta pela sua cultura tão diferente da que conhecemos e Fez é uma cidade muito cultural

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Christian, uma cidade fantástica que dá ainda maior brilho a um país incrível…

  11. Carla Mota

    Fez é mesmo uma cidade fantástica e muito estimulante. Não me canso de visitá-la e revisitá-la. Cada canto e cada esquina é uma descoberta fantástica.

    1. Rui Batista Post author

      Carla Mota, é mesmo das cidades que não nos cansa… e tem tanto para nos ensinar sobre a vida como ela sempre foi nos últimos séculos…

  12. Luciana Torezan

    Estou louca para conhecer o Marrocos e Fez está em meu roteiro. Amo viagens com história… viagens de volta ao passado. Amei seu post e tenho uma dúvida. Quantos dias acha interessante permanecer em Fez para conhecer com tranquilidade?

    1. Rui Batista Post author

      Luciana, o seu interesse justifica-se bem 🙂 Três dias são o ideal. Para descobrir com tempo e profundamente. Boa viagem! 🙂

  13. Aline Aguiar

    Impossível não voltar ao passado visitando o Marrocos,né? Fez realmente é super estimulante. Adorei seu post, fiquei com vontade de estar por lá.

    1. Rui Batista Post author

      Fez, Chefchaouen, Marraquexe, Merzouga… há tantos, tantos lugares mágicos em Marrocos a justificarem uma visita…

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