Tags:

Marrocos: Quantos estimulantes azuis cabem em Chefchaouen?

3 Replies

África Marrocos

A Pérola Azul é um dos destinos mais charmosos de Marrocos…

Quem ainda só conhece Chefchaouen pelas fotos e chega pela parte de cima, não tem ideia do que vai encontrar. Os ‘postais’ da Pérola Azul marroquina que proliferam na internet não se vislumbram por aqui. Deparámo-nos com uma espécie de baldio, adornado com umas campas mal-amanhadas, em desgastada paisagem periférica de uma qualquer urbe. Com efeito, uma armadilha para os que já ousam pensar em arrependimento: mergulhando uns quantos metros no casco histórico, logo somos confrontados com mil surpresas. Em quentes tons de azul. Não tardará, e só temos uma dúvida: quantos estimulantes azuis cabem em Chefchaouen?

A vantagem de iniciar a exploração desta forma é o crescendo com que nos vamos encantando, passando da incredulidade ao encantamento. E, sobretudo, o facto de nos delongarmos em becos e ruelas onde a vida autêntica ainda acontece. Estas paragens, no mais alto da montanha, estão isentas do turismo. Que desejo nunca venha a chegar.

Bab El-Mahruk é a porta norte que marca a minha entrada. Data do século XVI, tal como a circundante muralha, revestida a um castanho com personalidade. Defendia a cidade da invasão de tribos. E dos ventos que amiúde fustigam estas terras.

Nestes caminhos estreitos vou-me cruzando com quem não espera encontrar estranhos. Daí o habitual à vontade com a indumentária do quotidiano que pode muito bem ser qualquer colorido trapo por cima de um pijama. Impagável. Sem que o saibam, fazem com que nos sintamos em casa. Convidados para os quais não há cerimónias.

Pena o meu francês falado ser uma vergonha. Entendo razoavelmente bem, contudo não me expresso com suficiente qualidade para uma conversa mais profunda. Para aplicar o humor que tantas vezes desbloqueia sorrisos e baixa eventuais barreiras.

Gosto desta ‘arte’ que gradeia as janelas (muitas com flores) e embeleza as portas. Aprecio os contadores de água e luz embutidos nas paredes. E os cabos da eletricidade que pairam sobre nós, bem como os candeeiros que alimentam.

O que mais gosto? É mesmo a imagem familiar da roupa estendida no exterior. A diversidade de indumentária e o seu contraste de cores sobre um qualquer azul. E, como se os tivesse pedido, há gatos de sobra a dar um elemento mais imprevisível e vida à experiência, ainda envolta em mistério.

Há homens de jelaba que deslizam no cenário. O nosso guia, providenciado pelo Turismo de Marrocos, é um deles. Um verdadeiro personagem magrebino. Começamos também a encontrar mercearias rudimentares, venda de pão, burritos a carregar todo o tipo de artefactos. Com o avançar da hora, um ou outro turista que se aventura em paragens mais distantes da zona central, onde já poucos locais se passeiam. Nevoeiro envolve as montanhas e a luz vai e volta…

Subitamente, chega o impacto da globalização. Nos múltiplos vendedores de colorido artesanato e nos muitos estrangeiros que sempre pairam por Chefchaouen, destino com um charme muito próprio, talvez o mais pitoresco e fotogénico do país, com os frescos e cativantes turquesa que pintam as suas paredes.

Boa parte sua população, que já terá ultrapassado os 45 mil habitantes, é de origem berber. Fundada em 1471, esta localidade começou por ser uma pequena povoação fortificada, com o intuito de defender as tribos Ghomara da presença portuguesa no norte de África.

Há quem diga que o azul visa somente proporcionar uma sensação de frescura nos quentes meses de verão. E afastar os mosquitos. Já li que representam as várias tonalidades das águas do Mediterrâneo. Também pode ser bonita homenagem a Ras el-Maa, a queda de água onde os habitantes se abastecem de água para beber. Os mais pragmáticos, falarão apenas de opção estética e de como essa escolha potenciou o turismo e dinamizou a economia. Não esquecerei quem defende que tem como origem os judeus Sefarditas (andaram por cá, quando expulsos da Península Ibérica), crentes de que esta cor representa o céu e o paraíso. O omnipresente azul para que a via espiritual seja uma constante nas suas vidas.

Ras el-Ma é onde a pura água da montanha se encontra com o burgo. É muito popular para os locais, até por ser refrescante no verão. Mulheres a lavam a roupa e cuidam de outras tarefas diárias, os jovens convivem. Ou namoram furtivamente.

Caminhando uns relaxados 30 minutos, chegaremos à mesquita Bouzafar. É um percurso serpenteante – entrada para os aldeãos das montanhas, muitas vezes a circular com os seus animais – até à mesquita que os espanhóis construíram em 1920. A meio, há um senhor que ganha a vida a vender sumo de laranja. Nunca uns cêntimos foram tão saborosos e revigorantes.

Finalmente, a melhor vista para a Pérola Azul, que se confunde com o céu. Depois temos os brancos picos da cordilheira do Rif e o verde que veste o resto da paisagem.

Curiosamente, a honrosa inscrição na lista de Património Cultural da UNESCO chegou por outros caminhos, pelo estômago: a sua dieta mediterrânica. Azeite, cereais, legumes frescos ou secos, frutos, muitas especiarias e condimentos e proporções limitadas de peixe e carne num modelo nutricional que tem resistido ao tempo.

Por isso, se a opção de jantar for na praça principal, Uta el-Hammam, pincelada de cafés e restaurantes, bem como comida de rua, opte pelo tradicional. Esqueça as pizzarias, restaurantes chineses, tacos e tortilhas, que nada têm a ver com a experiência.

Há um século, quando a Espanha ocupou esta região, os aglomerados populacionais amuralhados marroquinos eram interditos a estrangeiros, sobretudo católicos. Arriscar significava a pena de morte. Agora tudo é bem diferente. Chefchaouen é um paraíso de compras. Artesanato. Felizmente, parecem menos ‘agressivos’ no negócio do que em outras partes do país. Perceberão as vantagens dessa atitude.

Os vastos campos de cultivo de canábis atraem algum turismo mais jovem, já que são normais as propostas de venda de pequenas quantidades. Sou um leigo na matéria.

Aqui o quotidiano é bem mais calmo do que Marraquexe, Fez ou Casablanca, pelo que o importante é deixarmo-nos levar pelo seu ritmo, e pela curiosidade. Acima de tudo, sermos empreendedores na arte de perdermos o norte na medina, encontrando assim um sem número de pessoas e coisas interessantes, distintivos.

A central praça de Uta el-Hammam é onde tudo acontece, num ambiente que une o mundo árabe a influencias espanholas, salpicadas por gente de todo o Mundo que aqui aflui. Beber um chá com menta, apreciar o buliço ou admirar as imponentes montanhas do Rif. Faça o que quiser. Mas delongue-se sem pressas…

A grande mesquita é única no planeta no estilo, por ter um minarete octagonal. O chamamento para a oração, cinco vezes ao dia, cria uma atmosfera bem especial. Um edifício imperdível, um marco no casco histórico.

O museu etnográfico, conhecido pelo museu da Kasbah, rodeado de belos jardins andaluzes, é bem aconselhável. Pode encontrar desde artesanato a instrumentos musicais, tudo sobre a história e cultura desta região.

Se aprecia a natureza, uma aventure-se nas montanhas, com incríveis vistas panorâmicas, igualmente para os picos com quase 2.000 metros. Dizem que aqui podemos fazer algumas das mais estimulantes caminhadas em África. Com tempo, tentar uma de dois dias até ao parque nacional Talasemtane. Garantem-me que é inesquecível.

Caso o percurso seja mais curto, ainda assim cansativo, mime-se ao final da tarde com uma massagem num dos Hammam da medina, preferencialmente com vista para o Rif.

A uns 30-45 minutos de táxi, que deve ser sempre negociado, as cascadas D’Akchour são um dos principais polos atrativos da região. Depois de um belo percurso, deparamo-nos com quedas de água incríveis, de um outro azul, cristalino. Desta vez não tive tempo. Deixo sempre algo por fazer. Estão no topo das prioridades no meu obrigatório regresso a Chefchaouen.

 

BORNFREEE VIAJOU A CONVITE DO TURISMO DE MARROCOS

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

3 comments

  1. Clara Amorim

    Um encanto de sensações e imagens e palavras!!!
    Muitos parabéns por tantos belos azuis!!! 💙
    Beijinhos!!!

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

code