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Rússia/Mongólia: Desleixo, caos e salvação (?) em remota fronteira

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Cruzar uma fronteira pode ser uma verdadeira epopeia…

Levantar cedo tem muitas virtudes e uma delas é a de podermos cruzar a fronteira antes do visto expirar, poupando-nos a uma série de desnecessárias canseiras, como a de arruinar uma viagem.

Os relatos que nos chegam de quem facilitou e tentou sair da Rússia para a Mongólia fora de horas – seja no trajeto do Transmongoliano, que tentamos fazer, ou por outro meio de transporte – acabou por não se dar bem. Inclusivamente, o ser gentilmente obrigado a regressar a Moscovo, multado ou ligeiramente ‘apertado’ e ter de abandonar o país, não por este ponto.

Estamos em Ulan Ude e o desejo final do dia é chegar bem a Ulan Bator. Uns simpáticos 600 quilómetros a separar capitais, a da Buriácia, na Sibéria Oriental, uns 75 quilómetros, em linha reta, do lago Baical, e a da Mongólia.

É em Ulan Ude que devemos decidir se fazemos o Transiberiano ou o Transmongoliano, sendo que neste podemos seguir até Pequim e no primeiro até Vladivostok.

A grande comunidade mongol em Ulan Ude está em êxtase, pois a cidade que orgulhosamente ostenta a maior cabeça de Lenine no mundo organiza por estes dias uma espécie de Jogos Olímpicos da diáspora, aqui convergindo milhares de mongóis de diversas nacionalidades. Presenciaremos a parte da longa cerimónia de abertura, na qual se destaca a música e os coloridos trajes dos participantes. Mas soa-me que nem daqui a três dias o desfile termina…

A verdade é que somos contagiados pelo espírito festivo, com concertos, fogo de artifício e fontes luminosas, e, com isso, descurámos os preparativos para o regresso ao Transmongoliano. O comboio que nos serve parte cedo, bem cedo, quando ainda estamos a meio do despreocupado sono.

Com a validade do visto russo não se brinca, pelo que o plano B é ir de transporte público até Kyakhta, cidade fronteiriça a 235 quilómetros, supostas três horas de viagem que resvalam facilmente para quatro. Estamos já perto da hora de almoço, não há tempo a perder e, aqui chegados, contratámos um táxi mesmo até à fronteira.

As duas faixas de rodagem na reta que desagua no primeiro controlo desta autêntica fortaleza estão transformadas em três filas, ainda assim não demasiado caóticas. Permanecer no táxi, custar-nos-á horas para cumprir uns 50 metros. Agradecemos, pagámos e não prestámos atenção aos seus ténues avisos em russo, pois a comunicação nunca fluiu.

Cruzar a fronteira a pé é impossível, proibido. E é assim que, chegando neste estado, com mochila cambaleante, somos convidados a entrar numa carripana de duas idosas mongóis, carregadas de legumes e outras compras de supermercado. Temos sorte. Muita mesmo. Os dois soldados são os mais simpáticos com quem já tive ‘privilégio’ de lidar na Rússia. Podiam simplesmente complicar, mas são eles a tomar a iniciativa de falar com as senhoras para nos transportarem. Resolvem-nos o desafio de cruzar em veículo ‘autorizado’ a sua minuciosa vistoria.

Ultrapassado o obstáculo, são as nossas novas amigas, que também não compreendem uma única palavra de inglês, que logo tomam o cuidado de nos arranjar uma nova boleia. Não é teoria: o universo está repleto de boa gente, que não precisa de qualquer sinal divino para fazer o bem. Cruzar esta fronteira leva uma eternidade e nós não precisamos desse suplício. Falam com um senhor e, sem que este pareça ainda totalmente convencido, já estão a colocar as nossas mochilas na sua carrinha. Sorrisos, palmadinhas nas costas e mandam-nos avançar.

De bom grado o faríamos, não fosse o sujeito ter perdido as chaves da decrépita carrinha. Subitamente, estamos uns quantos tolinhos em busca do objeto mágico que nos permita prosseguir. Muitos olhos perscrutadores, joelhos no chão, virar e revirar objetos e nada. Improvisar um novo hospedeiro começa a afigurar-se a solução mais lógica desta dupla ‘parasita’, até que Fernanda, a minha companheira de jornada, qual radar, grita pela boa nova. Alívio, sorrisos e galgámos mais uns metros.

É preciso mostrar mais papelada e a coisa vai demorar. O motorista insinua que avancemos com os nossos passaportes para ganhar tempo. Faz sentido. Saímos e dirigimo-nos a um guichet quando um berro bem assertivo e dedo firme apontado à carrinha nos faz entender, perfeitamente, o seu ininteligível russo. Orelhas baixas, voltámos aos estofos rotos, de onde nunca deveríamos ter saído.

Imperando a normalidade, seguindo de comboio, a esta hora já poderíamos estar perto de Ulan Bator. O juízo assim ditaria. Não é assim, porém não há problema. Confiamos que a sorte e os audazes andam sempre de mãos dadas.

Tratamos da papelada, voltamos à carrinha, contudo o nosso companheiro de jornada tarda em regressar. É a impaciência que nos leva então a pegar na mochila e avançar, contrariando as regras, rumo aos serviços da Mongólia. Neste registo saltitão, acredito que esta travessia de fronteira estará entre as mais rápidas alguma vez feitas por estas bandas.

Uma pena que a papelada a preencher nos provoque mais dúvidas do que certezas. Não sabemos o que escrever, pois não entendemos bem o que nos pedem. Providência divina coloca-nos um cavalheiro, bem parecido, com inglês fluente, a ajudar-nos nessa tradução. Bem mais fácil. Nem temos tempo de agradecer, desaparece do nosso radar.

É hora de parasitar outro veículo, contudo a liberdade está mesmo ali. A curta distância. Arrisquemos. Aventurámo-nos na nossa fingida inocência até sermos travados pelos militares, que não nos deixam avançar.

É sina que também não se exprimam em inglês. Acredito que boa parte dos turistas cruze a fronteira de comboio e poucos se desleixem ao ponto de terem de fazer esta parte do percurso por terra.

Apontámos para a saída. E eles para o sentido inverso. Há uma senhora que nos entende e tenta ajudar. Primeiro, querem saber qual o veículo em que viajámos. Prevenido, já tinha tirado foto à matrícula. Exibo-a. Depois mais perguntas burocráticas que a nossa ousada interlocutora não quer que respondamos. Como que convidando-nos, vai-se afastando e cruza o portão para a liberdade. E gesticula, chamando-nos. Atrapalhado, o soldado, que momentaneamente  está sozinho, e que tenta que voltemos ao camião, para assim cumprirmos as regras, faz um telefonema. Quererá saber o que fazer connosco. Acabamos por nos evaporarmos, sem que tenhamos mais problemas.

“Se não for assim, amanhã ainda estarão retidos em burocracias. Não sei se são pior os russos ou os mongóis. Quem, como eu, tem de cruzar esta fronteira diariamente, é um martírio”, desabafa, justificando a sua atitude.

Aproveitamos para a questionar sobre transportes para Ulan Bator. Estamos num empoeirado fim do mundo e não parece haver serviço público. Confirma-nos os piores receios. O derradeiro autocarro já partiu há bom tempo. “São pelo menos oito horas até Ulan Bator, não sei como pensam fazer…”, alerta-nos.

O mal de uns é sempre a sorte grande de outros. É assim que rapidamente nos oferecem boleia. A um “preço justo”. Traduzindo, exatamente quatro vezes mais caro do que o normal. “Mas agora não têm opção…”, recorda-nos o bom samaritano com o qual nos cruzamos. Não temos remédio. E a certeza de que chegaremos hoje, qualquer que seja a hora, ao destino, é um certo conforto. O (novo) problema é que só arrancaremos quando a viatura estiver cheia. E somos apenas os dois primeiros ‘tansos’, pelo que teremos de aguardar que apareçam mais incautos como nós.

A fazer contas à vida, a purgar os nossos pecados, seremos abordados por um possante mongol. Alto e bastante forte. E que se exprime em inglês razoável. Diz que vai agora para Ulan Bator. Com um amigo. E que têm “todo o gosto” em dar-nos boleia. Eu e Fernanda olhamo-nos, em português questionámo-nos se devemos perguntar o preço, porém a ideia de ficarmos ali retidos, por tempo indefinido, não é cenário para dois impacientes como nós. Anuímos, a mochila volta ao seu lugar natural e deixámos alguém pouco satisfeito com esta súbita mudança de planos.

Em segundos entrámos no veículo e reconhecemos quem o dirige. O cavalheiro que antes nos tinha ajudado na tradução. Apresenta-se, cumprimenta-nos e iniciámos viagem. Estamos em muito confortável jipe, ar condicionado, mini-bar e todos os luxos que não se têm cruzado connosco nesta jornada.

“Estão com fome? Acompanham-nos em refeição tardia?”, pergunta-nos. Se não entende português, parece. Meia hora depois deparámo-nos com um autocarro típico dos anos 50 parado num pequeno largo junto à principal estrada que liga os dois países. De lado, janelas transformadas em pala e um odor maravilhoso (com a fome que estamos, nada poderia não cheirar tão bem) que flui até nós. Os bancos de trás substituídos por uma cozinha e pequeno balcão. Os outros, adaptados, com mesas no meio, para emparelharem a cada quatro lugares.

Perguntam-nos por muitos petiscos, que ainda desconhecemos. Deixamos a escolha da ementa ao seu critério. Não nos defraudam na quantidade de comida. O discernimento já escassa e estou capaz de comer erva. A bela que se espraia pela imensa e idílica paisagem de alta montanha para onde nos levam. Em pouco tempo o jipe sai das estradas de terra batida onde se tinha aventurado para encontramos um ponto paradisíaco, sem qualquer vestígio humano no vasto horizonte.

Isto está mesmo a acontecer? Sai um ‘avançado’ do jipe, cadeiras de campismo, mesa. Comida e bebidas. A refeição ideal no sítio perfeito. Todo o suplício até então valeu bem a pena por estarmos aqui e agora. Com dois seres humanos de incrível simpatia e amabilidade. Empenhados em que tenhamos a melhor experiência no seu país. São bons conhecedores do Mundo, viajam bastante e a conversa flui sempre com naturalidade. Não há silêncios constrangedores. Só aqueles que cada um se impõe quando o estômago já está reconfortado e nos afastamos, para distintos pontos, para saborear a ampla e bela paisagem.

Serão ainda bastantes horas até Ulan Bator. Até em supremo conforto esta missão é dolorosa. Antes de nos entregar à porta da nossa estadia, ainda passamos pela sua empresa. Poucas vezes vi algo tão grande. Saberemos então que o nosso anfitrião é dono da maior empresa de transportes do país, com a primazia das ligações terrestres com a Rússia e a China, os dois gigantes vizinhos. Isso explica muito.

Quando nos pergunta em que hotel estamos a ficar, insistimos antes na morada. “Não é bem um hotel…”. Umas quantas voltas até que estamos em rua que já teve melhores dias na sua credibilidade.

“Devemos estar enganados. Vou confirmar no gps”, insiste. Pois, mas não estás, amigo. Obrigado por tudo. Foi MESMO um prazer. Voltamos a estar por nossa conta. De volta à bela realidade…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

44 comments

  1. Paula

    Ao final tiveram um pouco de sorte com o jipe, puderam disfrutar de um pouco de conforto por algumas horas, depois de todos os problemas

    1. Rui Batista Post author

      Paula, os ‘problemas’ são fantásticos, já que depois resultam em excelentes histórias :)))

  2. Ruthia Portelinha

    Que aventura maravilhosa. Não sei do que gostei mais, se da maior cabeça de Lenine da história, se das vossas boleias manhosas, se da vossa sorte. E acabou tudo em bem! Partilho da tua crença da (maioritária) bondade do mundo.
    Abraço

    1. Rui Batista Post author

      Boleias manhosas e a sorte de quem está aberto a tudo 🙂 Boa! Eu sei que partilhamos muitossss princípios em viagem. bjksss…

    1. Rui Batista Post author

      Natalia, tudo menos tenso ou preocupado 🙂 Quando as dificuldades são grandes, as histórias são melhores 😉

  3. Andrea

    Eu já havia lido em livros de ficção sobre a burocracia na Russia, mas nunca havia lido um relato prático. Ainda bem que vocês possuem espírito aventureiro e sorte.

    1. Rui Batista Post author

      Eiaaaa… Carla!! Não tinha ideia que o fim era aí :))) Vejo que Ulan Ude é sempre o início ou o fim de histórias ÉPICAS :))))

    1. Rui Batista Post author

      Muito bom recordar este belo desafio… São das minhas histórias favoritas em viagem…

    1. Rui Batista Post author

      Ana… are you talking to me?? 😉 Bom, não me posso queixar. A vida tem sorrido mais do que alguma vez imaginei…

  4. Liany Garves Nogueira

    Nossa que aventura! Adorei o relato! Cheio de perrengues mas com certeza agora com excelentes histórias para contar! Parabéns pela aventura! Até me animou a tentar fazer essa travessia também!

    1. Rui Batista Post author

      Liany, quando corre “mal”… fica o enorme estímulo de termos uma excelente história para contar :)))

  5. Michele da Costa

    Uma aventura e tanto, hein, Rui, essa travessia entre a Rússia e a Mongólia?! Curiosa para ler a continuidade. Abraço!

  6. Roberta Lan

    Tenho muita vontade de conhecer a Rússia, mas meu marido tem receio por conta do idioma e da burocracia que rola por lá. Melhor eu nem mostrar esse texto pra ele, rs! Mas que graça tem uma viagem sem uma boa história pra contar depois?

    1. Rui Batista Post author

      Roberta, faz-lhe uma surpresa 😉 Ele só sabe para onde vai quando aterrar lol Com um pouco de paciência e bom humor, todos os países ficam mais ‘fáceis’…

    1. Rui Batista Post author

      Edson, sou um fã de fronteiras complicadas :)) Haverá melhores histórias em viagem?? lol

  7. Christian Gutierrez

    Cruzar a fronteira entre a Russia e a Mongólia deve ser uma experiencia muito interessante, adoraria fazer essas viagens por locais pouco conhecidos,

    1. Rui Batista Post author

      É do melhor, Christian. Aconselho a uma aventura destas, sem a ‘rede de segurança’ que controla as nossas experiências…

  8. Marcela Marques

    Daqui algumas semanas vou fazer essa travessia também. Obrigada pela dica de como não fazê-la – vou preferir um ônibus direto até Ulan Baator mesmo 😉

    1. Rui Batista Post author

      LULU, é tão bom quando estas experiências nos trazem todo um mundo novo… 🙂

    1. Rui Batista Post author

      Alessandra, TODAS as histórias acabam bem… quando mais não seja, fica uma bela história para partilhar 🙂

    1. Rui Batista Post author

      E que aventura, Paulo!! 🙂 Quando corre mal em viagem… corre muitoooo bem, pois fica sempre uma bela história para contar 🙂

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