Arábia Saudita: Histórica Ushaiger encanta, Shaqra surpreende

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Arábia Saudita Médio Oriente
Menino em rua de Ushaiger

A Arábia Saudita abriu recentemente ao turismo e há várias ‘pérolas’ históricas para descobrir…

Rua de UshaigerA luz foge, na sua inevitável pontualidade, e corro para que não se escape precocemente do meu olhar. Para que as primeiras impressões desta aldeia histórica saudita tenham o dourado da nostalgia que me irá perseguir quando finalmente a deixar. Tonalidades que nos transportam para tempos idos, que esta gente agora quer recuperar.

Ushaiger é dos lugares mais encantadores que podemos encontrar na Arábia Saudita. Um pitoresco povoado abandonado, a despertar para uma segunda vida. Para uma nova existência que tem tudo para encantar ainda mais.

Há meio século, as casas de adobe, que se espraiam em labirínticas ruelas, foram abandonadas em favor do lado novo da terra, que aliciou com outras comodidades. Partiram todos, ficaram somente memórias e os restos, decadentes. Sobraram as histórias, as memórias, algumas retratadas no recente museu onde se pretende manter vivas tradições e objetos do quotidiano. Preservar a herança deste povo e as relíquias da sua singular cultura.Paisagem de Ushaiger

Exploro o que sobrou de vidas arcaicas, modos de existir remotos, para mim bem estimulantes. Agora, é hora de renascimento. Que está a ser potenciado por esta muito recente abertura da Arábia Saudita ao turismo mundial.

Em maravilhados e aleatórios ziguezagues, vou mergulhando por entre o casario de janelas e portas abandonadas, algumas ainda a deixar imaginar como seriam as coisas no outro milénio. Adobe e palmeiras. E almas fugidias. Poucas. A aldeia está deserta e apenas no seu centro raros habitantes se juntam para lhe dar movimento, cor. Que se esvai, invariavelmente, quando o sol cai…

menino guia em UshaigerUshaiger, ou “pequeno dourado”, nome em homenagem que a tribo Tamim fez à pequena montanha que a acolhe, é uma das mais antigas povoações da Arábia Saudita e já foi um dos principais pontos de paragem dos peregrinos do Kuwait, Iraque e Irão rumo a Meca para o “Hajj”, visita que cada muçulmano adulto deve fazer, pelo menos uma vez na vida, à cidade sagrada, e o “Umrach”, que junta comunidades de crentes.

Regressarei no dia seguinte, pela manhã. Outra luz. Matizes diferentes, o mesmo cenário desertificado. Exceção a alguns trabalhos de recuperação, habitualmente às mãos de humildes trabalhadores iemenitas ou do Bangladesh.

Abdul Aziz é um miúdo de uns 12 anos que nos surpreende com o seu inglês, perfeitamente percetível, apesar de limitado. Mostra-nos ruas, pedimos-lhe terraços elevados. E é assim que encontraremos três iemenitas em momento de serenidade, falando e contemplando o horizonte. Sem saber outra língua que não o árabe, provavelmente sonhando com o dia em que poderão regressar ao seu país, devastado pela guerra, que persiste.

A nossa curiosidade não encontra obstáculos e é assim que, depois de ‘invadir’ uma obra, surgirá o convite para uma bela experiência, um almoço em casa de sauditas que, sem surpresa, não dizem uma palavra da língua que Shakespeare ajudou a universalizar. iémen em Ushaiger

Não havendo ainda qualquer unidade hoteleira em Ushaiger, Shaqra, a uns 20 quilómetros, é onde encontramos refúgio. Sem vislumbrar referência relevante na web, perceberemos rapidamente que tem, igualmente, grande legado histórico e muito por explorar. Mais uma pérola por descobrir. Novamente, sem o testemunho de outros ‘turistas’. Só em outubro o país abriu as suas portas, sem objeções, pelo que os que vêm de outras paragens somente agora começam a experienciar a intimidade do país.

No fim da exploratória ronda matinal, somos impossibilitados de seguir caminho. Um grupo dIdoso em Ushaigere anciãos, mesmo à saída da zona histórica, quer saber mais de nós. ‘Obriga-nos’ a um chá que, em boa verdade, eu e o Filipe (Alma de Viajante) faríamos de tudo para o tomar, na sua companhia. Estão cá fora, à sombra sob uma arcada, do outro lado da rua, oposto ao ‘bar’ e às virtudes do seu ar condicionado.

Apresentam-nos gente ilustre da terra. Sobra generosidade nas palavras, no chá, tâmaras e água, a melhor forma que têm para nos dar as boas-vindas. Tirámos fotos, rimos e trocámos curiosidades.

Chegará alguém, mais tarde, que revela demasiado interesse em questões pouco dadas a gentileza, antes mais ligadas a zelosos agentes políticos, religiosos ou de segurança. Responderei com a displicência de quem finge não ligar puto ao que se está a passar. Faço-me, literalmente, de sonso. Servirá de mote para encerrarmos este belo capítulo e seguirmos caminho. Afinal, a Arábia Saudita tem ainda muito por onde nos encantar…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

22 comments

    1. Rui Batista Post author

      Clara, e tu na invariável gentileza que nos aquece e abraça 🙂 OBrigado por estares desse lado… bjksssss…

    1. Rui Batista Post author

      Fabíola, eu próprio estou muito agradavelmente surpreendido 🙂 Por vezes, sinto mesmo que viajo num outro tempo…

    1. Rui Batista Post author

      Diego, o país parece-me muito fotogénico. E tenho pena de não poder fotografar mais rostos, que é o que mais gosto. As pessoas ainda se estão a ambientar à novidade do turismo…

    1. Rui Batista Post author

      Grande Vítor, tens aqui um belo destino para explorares com a família 😉 Um verdadeiro choque cultural.. não apenas o teu, mas também o que o país está a viver.

    1. Rui Batista Post author

      E é, Cintia. A visitar o país pouco mais de um mês depois deste ter aberto ao turismo internacional…

    1. Rui Batista Post author

      Suriàn, acredito que não é muito difícil viajar no país. É questão de prepararmos bem essa aventura 🙂

  1. Fernanda Scafi

    Mal dá para imaginar o tanto de coisas lindas e lugares históricos, além das histórias interessantes por conta da cultura tão diferente que estão “escondidas” de nós até hoje! Ainda bem que a Arábia Saudita se abriu para o turismo!

    1. Rui Batista Post author

      Fernanda, abriu e tem 1001 lugares muito interessantes para mostrar. E outros, igualmente fantásticos, que vai manter no segredo, longe dos olhares internacionais… mas isso tem a ver com religião e lugares icónicos da bíblia que ficam, extamente, no seu território: referências históricas do cristianismo em país muçulmano…

  2. Marcela

    Estou apaixonada por essa viagem! Amo países menos explorados, e a Arábia Saudita parece ser desse que me encantariam já de cara. Adorei seu relato

  3. Angela C S Anna

    esses dias tava olhando o mapa mundi e me surpreendi como a Arábia Saudita é grande, imagina quantos lugares legais tem para serem descobertos!

    1. Rui Batista Post author

      Angela, é imensa mesmo 🙂 dos maiores países da região. E com muitos lugares bem interessantes para explorar…

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