ARÁBIA SAUDITA: Quando um sumo de fruta se ‘transforma’ em lágrimas

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Arábia Saudita Médio Oriente
said loja jidá

Said é um egípcio que faz os melhores sumos de manga de Jeddah. Desconhecia-lhe o coração generoso.

Aleatoriamente, entramos em loja ‘arcaica’ – melhor dizendo, tradicional – que vende sumos de fruta. Temo-la de todas as cores, espalhada pelo espaço exíguo. Um balcão com montra, que não permite contacto visual sem barreiras, e vários tipos de fruta encaixotada do lado do cliente, onde há somente um pequeno banco corrido que dará, com jeitinho, para quatro pessoas.

Não tenho dúvidas em escolher o néctar de manga. Hoje o Filipe (Alma de Viajante) segue o palpite de um misto de frutas, mas nos dias seguintes acompanhar-me-á na ‘sábia’ opção do espesso alaranjado.

A sandes será de omelete com vegetais. Feita na hora e, com o nosso assentimento, suficientemente picante, embora seja ainda o nosso pequeno-almoço. Tomado a uns 15 minutos a pé do hotel no qual nos instalámos, às portas da maravilhosa e decadente cidade velha de Jeddah, que aportuguesamos para Jidá (nome que, admito, me faz ‘espécie’).

jidá saidSatisfeitos com a qualidade da comida e do serviço, voltaremos na manhã seguinte. Reconhecendo-nos, Said sorri e estende-nos, vigorosamente, a mão. Celebra o nosso regresso com a mesma arte e empenho da véspera. Acrescentando-lhe um chocolate que me pede para dividir com o Filipe, que, cá fora, se entretém numas fumaradas. Antes de partirmos para as nossas deambulações, o bom anfitrião ainda nos dá a provar um bom pedaço de manga.

Ao terceiro dia, Said já nos diz ser egípcio. Mostra-nos vídeos da formatura do filho, que, ao que percebemos, é médico veterinário. Exibe-nos igualmente fotos de um jornal de há 32 anos, quando se mudou do Cairo para Jeddah. Já usava bigode, ainda sem as ‘brancas’ que já são maioria na penugem na cara e no cabelo.

Uma pena não falar inglês, nem nós dominarmos o árabe além do normal “shokran” (muito obrigado) e pouco mais. Enquanto decorrem os esforços mútuos para mais profunda comunicação, a oferta do dia é uma travessa com manga e banana, ambas cortadas, devidamente preparadas. Prontas a degustar. Com a cabeça e mãos, manda-nos avançar, diz que é oferta.

A despedida já será com abraço sentido e um tradutor de ocasião que lhe indica que voltaremos no dia seguinte, que será o nosso último. Entraremos no seu pequeno espaço como bons amigos e um abraço que revela já cumplicidade.

Não precisaremos dizer o que desejamos. Tal como na véspera, a caneca de manga já é maior. E não faltará a travessa suplementar de fruta, por conta do nosso anfitrião. Que já nos convida para irmos ao Egito. Esta hospitalidade começa a ser familiar…

Para nós e para ele, vamos às fotos. Sem ninguém a quem pedir ajuda, deixar-nos-emos contagiar pelas populares ‘selfies’. Rostos abertos. E tentativas de conversa de circunstância. Até que chegará a hora de partirmos.

Três homens feitos não se deixam derreter sem mais nem menos. Duros de roer. Ninguém perceberá a humidade que se esgueira pelo meu rosto. Nem o muito brilho nos olhos de Filipe e nos de Said. Não bastará um abraço para nos despedirmos. Irracionalmente, vão-se sucedendo. Como se não quiséssemos partir e o egípcio tudo fizesse para que não fossemos a lado algum. Sorrisos e mãos no peito, no lugar do coração, sinal do forte apreço que partilhamos uns pelos outros.

Said será, para mim, o expoente máximo do bem receber na Arábia Saudita. Que começa nos que aqui nasceram e se estende à grande comunidade de imigrantes – 10 dos 32 milhões de habitantes do país são de outras nações, maioritariamente do Iémen, Egito, Bangladesh e Paquistão – que dominam a paisagem da velha Jeddah.

O meu querido Said ficará nas melhores memórias desta viagem. Ele ainda não sabe – nem eu -, mas acredito que não teremos esgotado os abraços que haveremos de trocar nesta vida.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

16 comments

  1. Fabíola Moura

    Mais um personagem único que você nos apresenta. O povo na Arábia Saudita me pareceu muito acolhedor e simpático, além de fazer coisas gostosas pra comer e beber, deu água na boca, rs.

    1. Rui Batista Post author

      Sim, Fabíola, encontrei gente muito boa… de ‘todas’ as nacionalidades. Muita gente boa do Paquistão, Iémen, Bangladesh e Egito… Bom 2020!

  2. Angela C S Anna

    eita, a primeira vista achei que era um médico, mas depois apareceu o suco!! pela foto parecia bem gostoso e a alegria nos sorrisos confirma!

    1. Rui Batista Post author

      Angela, um sumo super-saboroso… feito com todo o amor e carinho por uma pessoa extraordinária 🙂 Feliz 2020!!

  3. Bert

    Very nice story Rui!
    It was great meeting you guys at Farasan! Wishing you a great 2020 and be always welcome to the Netherlands! The hospitality of middle eastern countries is different, but I will try do my best… 😉

    1. Rui Batista Post author

      Bert!! How great it is to know about you, dear friend!! I have to write about Farasan Islands… whats new? Wish you all the best for 2020!! Hope to see you again 🙂 Hugs!!

  4. Pingback: O que fazer em Jeddah (de Al-Balad à Corniche) | Alma de Viajante

    1. Rui Batista Post author

      Companheiro, esta viagem foi do “catano”, como diria o meu falecido avó 🙂 Grande abraço!!

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