A “perspetiva” é das coisas mais importantes na vida. Tudo depende dela. Do efeito que tem em nós. Quando as opiniões divergem, aproximar pontos de vista, perspetivas, pode solucioná-los.
O primeiro panorama de Niágara não agrada. Uma pequena Las Vegas em torno de mundialmente famosas cataratas. Um cenário de tal forma luminoso que a imponente queda de água, que é o cerne de tudo isto, parece transformar-se em mero acessório.
Na minha primeira visita, noturna, um passeio pela marginal e um maranhal de gente que, logo aí, me retira alguma vontade de ali estar. O aspeto multicolor dos milhões de litros que vão caindo a cada segundo não ajuda. Dá um efeito circense que dispenso.
Sobram restaurantes, abundam lojas de todo o tipo de souvenirs e o brilho de diversões cujo gosto e propósito não comento: não são a minha onda.       
Para os apreciadores de luzes, barulho, confusão, Niágara roça o paraíso. Aqui o Canadá. Do lado de lá, os Estados Unidos.
Durmo com a quase convicção de que este lugar não me vai marcar.
(…)
O hotel é de luxo e o restaurante panorâmico fica no 33.º andar. Não há como recusar o gentil convite para jantar. É aqui que o fôlego quase se esvai. A tal da perspetiva – neste caso, “aérea” – muda tudo. Em plano superior, vê-se o vasto caudal do rio Niágara a deslizar, lentamente, até à queda abrupta e imponente que torna estas cataratas verdadeiro lugar de peregrinação.
O soberbo jantar passa para segundo plano. Tal como os vinhos que o acompanham. Uma noite que desliza ao sabor de conversa que nos enleia da mesma forma que o néctar de uva nos vai deixando levar…
Com este cenário, tudo o resto se torna irrelevante…
Em novo regresso à little Las Vegas, um paraíso de jogo para crianças e adolescentes. O terror de ver crianças com copos de fichas na mão a jogar. E não é apenas uma ovelha tresmalhada com ar e atitude de quem está verdadeiramente viciado. São várias e sem tutela parental por perto…
Niágara tem imensos visitantes asiáticos e indianos. Sobra-lhes o bom senso de não abandonarem os filhos à tentação do jogo. Haverá melhores formas de conseguir um pouco de sossego, distrair a geração que nos sucede sem a rédea solta em lugar propício a estímulos errados.
Religiosamente às 22:00, o fogo-de-artifício distrai-me destes pensamentos. Longe de me convencer, ainda assim, deixa os locais verdadeiramente rendidos. Sobram os “ohhhh… aaaahhhhh” a cada explosão multicolor. Nada como ser português, o suficiente para estar batido neste entretém humano.
À noite, as coloridas cataratas continuam a parecer menores. A simples iluminação branca fica-lhes tão bem. Porquê, em bom calão português, “azeitar”?
As dúvidas como que voltam a assaltar-me. Niágara valerá mesmo a visita? Nada como aceitar novo convite, para as dissipar.
Na verdade, o restaurante Edgewaters é golpe bem rasteiro para quem ouse atrever-se a aguçar o espírito crítico quanto a Niágara. Cruzando a estrada, estamos no miradouro para a principal queda de água, em longo, estridente e aconchegante “U”. Não precisamos de o fazer. Estamos num palco privilegiado com uma vista mais do que soberba.
Olhos saciados, demos o mesmo tratamento ao estômago. Bar aberto. Aperitivos, diversos dos bons vinhos da região e digestivos para os gostos mais exigentes. A minha atenção descai para o vasto buffet que divide espírito e gula entre ostras, mexilhões, salmão fumado, camarão… alce, búfalo… e um salão de sobremesas do qual nem me atrevo a recordar. São tantas, mas tantas iguarias neste jantar de gala que julgo estar amarrado ao paraíso. A tratarem-me assim, fico de mãos atadas. Como dizer mal desta terra, desta fantástica gente?.

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