Arábia Saudita: Farasan, as ‘secretas’ ilhas do Mar Vermelho

Arábia Saudita: Farasan, as ‘secretas’ ilhas do Mar Vermelho

Mesquita de Panyee

As ‘rudes’ ilhas Farasan mostram-nos uma Arábia Saudita ‘pintada’ por iemenitas, paquistaneses, bengalis e egípcios….

farasan_esplanada

É noite, o calor abafado já se foi e estou no meio de uma espécie de esplanada. Utilizo este termo dúbio de modo consciente, tal o caos das poucas mesas e cadeiras, várias partidas, todas sujas, que me rodeiam. O mercado do peixe, em forma de ‘U’, tem três vendedores e uma mão quase cheia de ‘restaurantes’, cada um com somente uma mesa. A troco de um punhado de rials, cozinham o pescado que decidimos comprar.

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Pois bem, por uns sete euros optamos por um belo exemplar de 1,8 quilos. Belo e saboroso, diga-se. O vendedor indiano não nos enganou, certo Alma de Viajante? Pincelado com uma pasta avermelhada. Vai ao forno e em menos de meia hora está na mesa, a fumegar. A cheirar a éden e pronto a comer. À mão, claro. Aqui, como em boa parte do país, não há a tradição de nos alimentarmos com talheres. Há uma bandeja com legumes estufados – um luxo que pedimos e uma maravilha de sabor – e uma travessa de arroz que sobra para uma equipa de futebol. Dois dias mais tarde, no mesmo estabelecimento, pedimos menos de metade e ainda sobra o suficiente cereal para alimentar um banco de suplentes.

Filetes altos, suculentos, frescos. Sa-bo-ro-sí-ssi-mos…  É, muito provavelmente e sem favor, o melhor peixe que já comi fora de Portugal. Tão bom, quanto inesperado. E serão três as noites em que por cá aparecemos. Sendo que na última o petisco tinha meramente 1,2 quilos e no segundo ficou intenso sabor a pouco. Uma dezena de peixes de bem menor dimensão e que tinham sido pescados durante o dia, pelas ‘nossas’ mãos (escusei-me a essa arte), e que o capitão fez a gentileza de ofertar: ficou com o melhor e repartiu o que o seu palato achava dispensável.

Albert é um holandês, o único turista que vejo em três dias na ilha, que viaja com princípios ecológicos e éticos semelhante aos meus. Nesta viagem aprendeu a fazer uma amálgama que leva bananas, farinha e mel. E é assim que, literalmente a seis mãos, nasce o acompanhamento, doce, para o peixe frito. Com mais espinhas por dentada do que as desejadas.

praia_farasan
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Quando negociámos o barco, não sabíamos, ainda, que somos tripulantes com o nobre estatuto de penetras. Ou seja, queremos fazer snorkling, pagamos por isso, contudo o capitão tem outros planos para nós, ideias mais pragmáticas: receber o dinheiro, deixar-nos em determinado ponto a nadar com os peixes (sem coletes salva-vidas) e voltar uma horita mais tarde para nos apanhar. Obviamente, nenhum dos três alinha nesse glorioso plano.

Sem alimentar desnecessários atritos, fazemos simplesmente valer o poder de quem paga. Sem amuos, somente com um inicial ar de frete, que logo se esfumou, faz-nos um roteiro por ilhas desertas, mangueiral em turquesas cristalinos e observação de pássaros. Além de assistirmos, por sorte, a pescadores a atirar, consecutivamente, a rede à água, retirando-a, invariavelmente, repleta de vida. Nunca vi nada assim…

Quando partimos do porto, no qual quase fico retido, por não ter o passaporte comigo e, aqui, o controlo ser rígido, todos éramos adultos responsáveis e serenos. Mar adentro, o capitão surpreende-nos com música, bem ritmada, com decibéis suficientes para se ouvir em qualquer canto do planeta. Os sauditas dançam e contagiam-nos. O melhor exemplo das ditas virtudes públicas e dos conhecidos vícios privados…

Na arte da pesca, nas canas que o capitão distribui, nem toda a gente consegue garantir o seu futuro sustento. Terá sido por isso que o nosso amigo não é simpático quanto ao nosso jantar, sendo muito generoso no número, mas pouco no tamanho do peixe que nos oferece.

Os primeiro e último jantares, bem como estas horas no Mar Vermelho são dos melhores momentos nas ilhas Farasan, às quais chegámos por… ‘especial favor’. Na internet é impossível a um ocidental (até aos locais) reservar viagem com viatura e isso ia tramar-nos. Não merecíamos que corresse mal, depois de longas horas de condução desde Abha, com vários motivos para correr mal, tal a loucura dos condutores perto da fronteira com o Iémen: ninguém lhes deve ter ensinado que é má ideia ultrapassar em cima da curva, boa parte delas ‘cegas’. Isso explica alguns destroços na berma das estradas.

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Tínhamos lugar no ferry para o regresso, porém nada a fazer quanto à ida. Acabaríamos por ser convidados a contribuir para que um seu amigo, na fiscalização portuária, encontrasse forma de o nosso carro caber no barco, no qual a viagem é grátis. O favor não o foi, claro.

Imenso controlo militar, pois estamos bastante perto do conturbado Iémen, onde a Arábia Saudita se envolveu numa guerra que tem provocado uma imensa crise humanitária. Não há problema. Zelarem, com minucioso cuidado, pela minha segurança não é propriamente um stress.

O egípcio Ramadan Ibrahim é o capitão do barco de bom porte, fazendo questão de se apresentar. No regresso, queixar-se-á que as políticas do príncipe herdeiro que assumiu o governo do país implicam mais sauditas em todas as profissões.

“Até recentemente, a cada três ou quatro meses ia um a casa. Agora fico três cá e outros três no Egito, sem trabalhar. Isso muda tudo na minha vida”, lamenta.

Quando se entra na ilha, há jovens e adultos a jogarem futebol em imenso tapete verde… ao xadrez. Uma imagem poderosa – até pela intensidade das cores – em terra rudemente seca, desoladoramente árida, rodeada pelos mais estimulantes azuis do mar.

A um par de quilómetros do porto, a Al Qessar Heritage Village é uma aldeia que, mesmo sendo turística, se torna aprazível, convidativa para um chá de final de tarde. Construções de adobe e pedra coral compõem este museu ao ar livre que há meio século ainda era habitado. Gosto deste rústico tradicional.

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Quando as luzes se acendem ao lusco-fusco, sinto que estou no paraíso. Sem dúvida, a melhor altura desta zona das Farasan. Admito, ao relatar esta visita, dá-me uma súbita nostalgia por este momento…

A cidade principal, que veste o nome próprio da ilha, Farasan, foi desenhada a régua e esquadro, com as artérias a irem ganhando entusiasmo à medida que o desenvolvimento, lento, aqui vai chegando. Muita imigração – sempre do Iémen, Bangladesh, Paquistão e Egito – que vai dando alma à ilha e à sua principal urbe, já que os sauditas, mais comodistas, ou recatados, saem bastante menos de casa. Mais complicado encontrá-los nos (raros) mercados de rua, a contribuir para a azáfama.

O porto de pesca, a uns três quilómetros do centro, onde contratamos o barco, é pequeno, mas algo fotogénico. É apoiado por um bar que nos salva do calor intenso, brindando-nos com muito apreciado ar condicionado. Reposto o conforto do corpo, venha de lá esse chá…

Sair é nome de povoado sem grande interesse arquitetónico, contudo percebemos que tem uma escola. E que melhor para fugir aos raios inclementes do astro-rei do que tentar visitar um dos lugares onde se forma a futura sociedade da Arábia Saudita? A geração vindoura de um país com um conjunto de pensamentos e regras que, aos olhos ocidentais, como os meus, são algo ‘trogloditas’.

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Uma dezena de professores, todos vestidos de longo branco, ocupa a sala que habitualmente lhes é destinada entre aulas. Oferecem-nos água, chá e as inevitáveis tâmaras. Sempre bem-vindas. E começa longa conversa, sempre a tentar descobrir as peculiaridades desta sociedade tão distante no estilo de vida da capital Riade.

Perceberei, rapidamente, que a “Visão 2030”, na qual o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman idealiza o futuro do país, conferindo um papel bem mais ativo e igualitário para as mulheres, não é propriamente bem aceite.

“São séculos de tradições, de pensamentos, que não podem mudar simplesmente por decreto”, diz-me o professor de inglês. Às questões que sucessivamente vou disparando, há quem me pergunte se, por acaso, não sou jornalista. Mostro-lhe o telemóvel e asseguro-lhe que sou meramente um turista com vontade de saber o máximo sobre o país e da forma mais fiel possível, através dos seus nativos.

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Com simpatia extrema, improvisam uma excursão para nos mostrarem a escola. O museu etnográfico com utensílios de pesca, objetos ligados ao mar. O posto médico, as salas de aula, tudo o que os enche de justificado orgulho.

“Já visitaram a casa histórica da aldeia?”, pergunta Ahmad, o professor de inglês, que terá de seguir para compromissos domésticos. Será quem nos leva a estas belas ruínas, de uma casa que já foi majestosa, mesmo não sendo grande. Difícil compreender como permitem que tenha chegado a este estado de degradação…

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Perto há dois pequenos portos de pesca, ambos desertos. Há carros, poucos, e uma cabana, nem por isso sinais de vida. Ideal para fotografia, não fosse a luz, a esta hora, nos violentar na vertical. Depois, uma praia paradisíaca que já teve bungalows familiares. Tudo ao abandono. O empreendimento não chegou a ser concluído. Ambicioso. A ilha perdeu turismo endinheirado, manteve o seu lado mais puro.

O castelo otomano é, para a generalidade destes habitantes, o ex-líbris das Farasan. Confesso que não partilho do seu entusiasmo. Uma pequena elevação e pouco mais do que quatro paredes, agora impossíveis de visitar, não de transpor. Não perderemos muito tempo por cá, até porque há umas quantas ruelas históricas que puxam mais pela minha curiosidade.

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Numa das ruínas históricas, com belas gravuras a desvanecer-se no tempo, há dois imigrantes bengalis a tratar da limpeza. Sobeja-lhes simpatia, falta-lhes vocabulário para comunicar em inglês. A House of Riffal terá sido mesmo especial, a avaliar pelos recortes e decorações que o tempo não apagou completamente. Herança de famílias ricas, inexplicavelmente abandonada.

Sabem aquele olhar fugaz que nos impele a olhar por uma segunda vez? Vislumbro, ao longe, um senhor sentado no chão a martelar algo. Aviso o Filipe que vou por ali. São estes caminhos enviesados que me costumam dar as melhores histórias…

Grandes búzios do mar a serem esmagados por sexagenário franzino e seminu. Sorri e continua no seu labor. Até que um e, de seguida, dois filhos vêm averiguar a nossa curiosidade, não maior do que a da sua irmã, que, por detrás da cortina da pequena porta, espreitava a cena, não dissimulando o seu audível riso. Isso antes de nos preparar um café árabe, obviamente, sem que lhe vejamos o rosto.

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Entre intermináveis sorrisos e imediata empatia, receberemos um búzio lavado – regado com um apetitoso molho, que farão questão de nos dar para levar – para comer. Agradecido, não hesito e espeto-lhe o dente. Contrai-se…

(…)

Se há situação desconfortável em viagem, esta é uma delas. Subitamente, debato-me com o pesadelo de ter de escolher entre o entusiasta e expectante olhar de Helmi e o meu incomparável incómodo por comer um búzio vivo, ao qual já tinha arrancado parte do corpo.

Por uns momentos, não estou ali. Tremo de pensar em mais uma dentada e não consigo desapontar a bondade genuína deste imigrante iemenita que, por gestos, vai contando que fugiu da guerra no seu país e está há cinco anos nas Farasan a tentar reconstruir a existência familiar. Todo ele é bondade, amabilidade.

Em Portugal, aqueles búzios valerão centenas de euros. Aqui, será somente um petisco de pobre, que morderei pela segunda e terceira vez. Venceram os doces olhos de Helmi…

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3 Comments

  1. Fabíola Moura

    Quantas aventuras inesperadas dentro de cada destino exótico que você explora com muita coragem e curiosidade, rs. As ilhas Farasan são uma novidade pra mim, mais um lugar no mundo para descobrir. Mas não tenho coragem de encarar um búzio vivo, seria demais pra mim, kkk.

  2. Ruthia Portelinha

    Hahaha, estou aqui a rir muito com a cena de comeres marisco vivo e te debateres para não embaraçares o amável Helmi. Muito bom. Sabes que os jornalistas se topam à légua? Com certeza eles só aparentemente aceitaram os argumentos de um turista curioso….
    Abraço, meu amigo Rui

  3. surian

    Adoro acompanhar tuas viagens e conhecer cada cantinho exótico do mundo através do teu olhar! Parabéns pela incrível materia! As Ilhas Farsan eu nunca tinha ouvido falar antes. Como você descobre estes lugares tão diferentes?

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