RUMO AO DESCONHECIDO

RUMO AO DESCONHECIDO

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A 45 minutos do fim da nossa primeira viagem nos caminhos de ferro indianos, já um dos nossos companheiros de ‘suite’ nos acorda. Com o seu inglês rudimentar – e de forma paternal – faz-nos preparar a mala e estende-nos a mão rumo à saída mais próxima do comboio. É uma exasperante eternidade até esta lentidão se imobilizar na estação de Gorakhpur. Que parece não ter fim.

gorakhpur

Imediatamente assaltados por taxistas desejosos de nos levar à fronteira. Saímos da estação e seguimos o nosso anfitrião uns metros. Despedimo-nos com cordialidade. Agora é ele a vítima da pressão desenfreada dos taxistas e voluntariosos locais, para que nos convença. Nem lhe damos tempo ou oportunidade para tal.
Por entre ruas caóticas apinhadas de bicicletas, tuc tuc´s, ruidosas motos, carros em mau estado, carripanas e esganiçadas vacas à solta, lá chegámos onde é suposto partirem os autocarros para a fronteira.

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“Sim, para a fronteira com Katmandu”, confirma o motorista. Dois solícitos jovens colocam-nos a mala na bagageira traseira. Um deles exige dinheiro pelo “serviço especial”. Vamos ao motorista confirmar. Diz-nos que além do bilhete, de apenas um euro, nada mais é preciso pagar. O intruso insiste. Nós também. Muda o tom de voz. Torna-se agressivo. Mostrámos que podemos, igualmente, subir a parada.
“Will you kill me? Want to kill me?”, desafia-me. “Se o fizer, não será certamente pela mala”, respondo, com a firmeza de voz e olhar que ele precisa ouvir. “Não te queremos ver mais por aqui. E livra-te de te aproximares da nossa bagagem”. Entende a mensagem. Obviamente, não se trata do insignificante dinheiro, mas da arrogância e tom intimidatório com que os turistas são regularmente abordados num local onde, sem dúvida, se sentem fora do ambiente natural.

Três horas até à fronteira. Sentados à frente, em banco estranhamente virado para o motorista. Ao lado de uma sorridente criança hindu, vamos acompanhando o país rural. Continua a não haver sinais de progresso. As fotografias são as mesmas de há décadas.

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Almoçámos imediatamente antes da fronteira. Condutores de riquexós insistem que temos de caminhar ainda um quilómetro e meio para a fronteira. Fazem-nos um preço especial, se lhes fizermos o favor de ir sentados. Sabemos que em 200 metros, após a curva próxima, estaremos no destino. Nada feito.

Caminhamos e somos abordados para um bem vestido estanho que nos lembra que temos de tratar da saída da Índia, na emigração. Um processo de trabalho ainda rudimentar, mas inesperadamente rápido. No fim, insistem que temos de trocar as rúpias pelo dinheiro do Nepal antes da fronteira. “A polícia fica com ele nas inspeções”, justifica. Sabemos que não é assim. Trocámos apenas uma nota para as primeiras necessidades. Cambio naturalmente desfavorável.
Atravessámos o pórtico que anuncia o Nepal. Da forma mais desoladora possível, descobrimos que esta não é a fronteira que pretendemos…

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