Koh Mook, a melhor ‘vida de ilha’ tailandesa longe das multidões

Koh Mook, a melhor ‘vida de ilha’ tailandesa longe das multidões

Koh Mook por do sol

Koh Mook tem qualidade de vida e sobram-lhe motivos de interesse.

koh mook borracha

O sidecar táxi (uma moto, com uma estrutura lateral coberta, em forma de ‘U’) arranca pouco depois das 07:00, como combinado, atrasado um punhado de minutos para que possa saborear um café local. Enquanto o turismo ainda dorme, Koh Mook já fervilha de vida ao romper da aurora, pois o quotidiano não dá tréguas.

As motos e bicicletas chegam sucessivamente ao barraco onde se cozinham os pequenos-almoços, que incluem arroz, massa, vários tipos de carne e legumes. Bem como peixe. Nada falta, pois é uma das principais refeições.

koh mook senhora

“Vêm comprar o pequeno-almoço para as crianças, antes de irem para a escola. É também o almoço para muitas delas. Não é prático cozinhar e­­m casa, melhor vir aqui”, justifica Sek, que será o meu tradutor, para que perceba a realidade mais profundamente.

As duas rodas já se fizeram ao asfalto e começo a penetrar por zonas mais recônditas da pequena Koh Mook – cinco por três quilómetros – habitualmente desinteressantes para a maioria dos visitantes, porém as que mais me cativam.

Quando parecemos ‘perdidos’, sentimento que, obviamente, só eu terei, surge uma moto-quatro com um pitoresco sexagenário, de chapéu aventureiro, que transporta atrás a esposa, mais nova, e seguramente muito bela.

“Ninguém sabe, ­­mas tenho vários hectares de árvores-da-borracha. Sou rico, porém isso é um segredo que fica entre nós”, atira. A tradução do meu amigo Sek vem com o inevitável sorriso que também não consigo evitar. Não fizera qualquer pergunta nesse sentido.

koh mook velhinha

Disponibiliza-se a explicar-me como retira a matéria-prima que acabará por fazer a borracha: um golpe lateral em zona já ligeiramente cavada, 20 centímetros depois o rego na árvore é vertical e as gotas caem para um recipiente. Simples. Demora escassos segundos. E, confirmo, o líquido, que parece leite, já deixa marca nos dedos. Lavar antes que complique.

“Durante três dias consecutivos repetimos o processo. Depois a árvore descansa um. E o ritual continua sempre igual”, explica-me.

koh mook casas

Um pouco mais à frente, em zona mais densa, encontrarei uma senhora que faz exatamente o mesmo, tem um conjunto de árvores à sua responsabilidade, contudo nenhuma é sua. A indústria da borracha é boa forma de sustento para estas famílias, bem como o turismo, que continua a transformar a vida dos pescadores no mar.

koh mook crianças

Estou em pulgas, pois quero chegar o mais rápido possível a uma aldeia de homens do mar. Perceber se consigo apanhar o seu regresso da faina. Pelo caminho, vou saboreando as amplas casas de madeira, habitualmente sobre estacas, e com somente uma divisão. Na qual dorme toda a família.

Porei novamente em prática a virtude de tirar o melhor proveito das circunstâncias: a maré está bastante retraída (chegará a um quilómetro), mas isso expõe toda a estrutura das casas e mostra-me todo um mundo novo, além de carcaças de barcos que assim dão um tom ainda mais rústico à paisagem. Foco-me em dois cães, um gato e nas várias galinhas a cirandar sob as mesmas.

koh mook barco

De quando em vez, há água jorrada – do banho ou resultante das normais necessidades básicas – que assusta os animais. E igualmente a minha imprudência. Ainda tenho bem fresco na memória a viagem de St. Louis para Dakar, no Senegal, na qual, por cinco entusiasmantes vezes, fui agraciado com urina dos carneiros que seguiam no tejadilho do táxi ‘sept places’. Não, obrigado, melhor ir para zonas mais seguras e arejadas.

As tabuletas sobre rotas de evacuação de tsunamis estão por todo o lado. Na verdade, com a fragilidade destas estruturas, as ondas nem precisam ser especialmente poderosas para levarem tudo, sem pestanejar.

koh mook peixe

Há pouca gente neste quotidiano. Uns estão no mar, enquanto outros evitam o calor que começa a crescer. Há um ‘trintão’ em pose de ócio, a balouçar-se numa rede estendida no lugar mais caótico – e improvável – que encontro no povoado. Tralha amontoada de redes, motores, plásticos, tábuas de madeira, todo o tipo de recipientes… poderia estar o dia inteiro a enumerar os diferenciados obstáculos que terá encontrado, desgastando-se ao ponto de, agora sim, precisar realmente do dito descanso.

Na parte alta do pequeno aglomerado há quem faça maravilhas com todo o tipo de conchas – tivesse eu forma de trazer este artesanato, de real bom gosto… – e percebo que a faina de alguém foi bem produtiva. Muito peixe, de diversos tipos e feitios, destacando-se um enorme, cujo nome não recordo,  que desperta a minha maior curiosidade.

“Não o quer levar? É fresquinho e bem saboroso”, diz-me, enquanto me exibe os dentes, uma sorridente e encorpada senhora que levanta o troféu, como se preciso fosse para ver o seu tamanho. Digo-lhe que precisaria ter o apetite de 10 para o comer. Insiste para que o leve. Replico que não tenho mochila para isso. E terminámos a sorrir com os disparates que vamos dizendo ao sabor da tradução de terceiros.

Koh Mook motorista

Aqui é tudo família. A terra não é suficientemente ampla para haver desconhecidos. Seguirei caminho. Até me cruzar com um homem que transporta cocos, nas tais motoretas típicas. Ultrapasso-o e tiro foto. Acha piada e vamos trocando ‘piropos’ sem que nenhum entenda o outro. Mudaremos várias vezes de liderança na estrada, até que me acena, vira para a esquerda e desaparece na floresta. Easy life…

A ameaça constante de tsunami obrigou a deslocalização de uma série de pescadores para uma ‘nova’ aldeia, construída também sobre estacas, contudo mais protegida, mais para o interior da ilha. Aonde, mesmo assim, a maré chega diariamente, trazendo algum do lixo que os ‘incautos’ continuam a deixar. Apesar das visíveis campanhas de sensibilização, que vi por toda a Tailândia.

koh mook banho

Os homens estarão no mar, pelo que só encontro mulheres e crianças. E idosos. Aqui não há espaço para muito, pelo que não me devo surpreender por ver uma mãe a dar banho a três crias à porta da cabana, na ‘rua’ principal do aldeamento. Uma bacia, sabão e já está. Perante os gritos estridentes das crias, sempre que levavam com água.

Algum pequeno comércio e sorrisos em doses calorosas, que nunca nos abandonam neste país de gente soalheira.

O pôr-do-sol espera-nos do outro lado da ilha em extensa praia que se transforma no balcão preferencial para observar o fenómeno, que neste éden tem cores verdadeiramente quentes e exóticas.

Evidentemente, não sou o único a aparecer por cá com esse propósito. O sol vai baixando, as cores vão ganhando expressividade e os que estão no mar vão-se transformando em sombras, tal como os barcos que vão polvilhando o horizonte. Predileção pelos típicos ‘long-tail boat’ de pescadores que procuram clientes para ver o pôr-do-sol ainda mais perto do horizonte. Ajudam à fotografia.

koh mook pescador

A ilha transforma-se à noite, com bastantes restaurantes, boa parte com extremo bom gosto. Uma luminosidade com cor, em temperatura ideal para os meus tépidos padrões. Um ambiente intenso, mas sereno. Sem espaço – thanks god! – para música aos berros. O ‘chinelo’ pode ter elegância e saber estar. E todos ganham com isso.

O peixe é invariavelmente fresco e a dificuldade é escolher a decoração do espaço que mais nos cativa. Nada como jantar num sítio, tomar um copo em outro. E ir rodando diariamente as nossas opções, que não se resumem ao centro urbano. Encontramos entusiasmante diversidade espalhada pelos vários pontos cardeais.

A atividade que me seduz mais? Visitar a ‘Emerald Cave’ e tê-la só para mim. No entanto, essa aventura deixo-a para um artigo separado.

Koh Mook por do sol

Poderia investir páginas a descrever a minha experiência no Koh Mook Sivalai Beach Resort, contudo deixo isso à vossa imaginação. Experimentem ‘googlar’ imagens. Um empreendimento de bungalows com vistas para o mar (primeira ou segunda linha, invariavelmente o azul ao nível do olhar), piscinas ladeadas de palmeiras, comida de extrema qualidade e um staff que nos faz sentir sempre em casa. É inevitável voltar a Koh Mook. E se for para ser mesmo especial, é aqui que me vou hospedar.

Koh Mook não será dos mais populares destinos da Tailândia… e ainda bem! Por mim, para os meus gostos, ficaria eternamente assim. Praias excelentes, um pôr-do-sol incrível, comida fresca e de ótima qualidade, aldeias piscatórias para visitar e, acima de tudo, gente genuína e de sorriso fácil que ajuda a que nos permitamos simplesmente existir ao ritmo de ‘vida de ilha’.

*** BORNFREEE viajou a convite do turismo da Tailândia em Portugal ***

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23 Comments

  1. Alessandra De Lima

    Que lugar interessante e quanta história tem estas pessoas para contar. Muito bom o texto. Parabéns.

    1. Rui Batista

      Alessandra, é esta vida local que faz boa parte dos meus interesses em viagem 🙂

    2. Rui Batista

      Alessandra De Lima, é mesmo um destino muitoooo interessante 🙂

  2. Ruthia Portelinha

    Estava aqui a debater-me com o paradoxo de querer que lugares como Koh Mook permaneçam tranquilos e genuínos, e o argumento de que o turismo melhorará as condições de vida dessa gente de sorriso fácil

    1. Rui Batista

      Pois, Ruthia, uma equação que não é (MESMO) fácil… o equilíbrio é muito complicado de obter e gerir. Ainda assim, que a situação evolua de forma a ir agradando ambas as partes. A ilha merece…

  3. BRUNO ROCHA

    Excelente texto Rui, parabéns pela verdade da tua escrita.

  4. Cintia Grininger

    Que lindo retrato dessa vila tailandesa! Quase dá pra viajar junto com você neste post…

  5. Suriàn

    Adorei conhecer Koh Mook através das tuas palavras e Imagens. Parabéns pelo lindo post

  6. Filipe Morato Gomes

    É das ilhas mais interessantes que conheci na Tailândia, com muito boa onda e um estilo de vida que me encantou (longe do Sivalai, claro!). Chamei-lhe Koh Muk, a ilha das borboletas, e fico contente por perceber que a alma que lá encontrei, ao contrário de outras ilhas do país, ainda permanece intacta.

    1. Rui Batista

      Filipe, foi mesmo… uma experiência fantástica!! 🙂 ADOREI cada minuto naquela ilha… ‘igual’ ao que me tinhas dito.

  7. Leo Vidal

    Como sempre, um ótimo relato. Incrível como o povo parece receptivo e poder ver de perto seus hábitos cotidianos é realmente vivenciar a ilha.

    1. Rui Batista

      E como somos sortudos em podermos aproveitar isso, caso estejamos realmente interessados na sua vida, experiência e culturas…

    2. Rui Batista

      É isso mesmo, Leo. Nada como vivenciar um local através do mais genuíno do seu povo 🙂

  8. Marlene Marques

    Que destino incrível, Rui! Tão bom saber que na Tailândia, apesar de todo o turismo em esteróides, ainda existem lugares assim.

    1. Rui Batista

      Marlene, belas raridades para nos alegrar os dias 🙂

  9. Mariana Menezes

    Fugir das multidões se faz necessário na nossa vida de viajante, não? Me impressiona cada vez mais como os locais tem ficado lotados a cada compartilhamento na rede. Gosto muito de ler seus relatos Rui.

  10. Jessica Veneravel

    Realmente Koh Mook é um lugar para conhecer mais os tailandeses do que a Tailândia em si. Longe das muvucas de Phuket e da agitação de Koh Pagnam… Muito interessante conhecer mais do dia a dia desse pais tão diverso.

  11. Diego Cabraitz Arena

    Muito bacana essa cidade da Tailandia. Visitei o pais ano passado e curti bastante, mas as áreas turisticas ficam realmente bemmmmm cheias. Tomara que esta cidade consiga se manter assim.

    1. Rui Batista

      Cruzamos ambos os dedos a fazer figas, Diego 🙂

  12. Luciana

    Ahhh que coisa mais linda!!! Sempre que viajo, busco conhecer a vida do local, longe das multidões, até para tentar gerar renda para os locais. AMeii conhecer a vida tailandesa de Koh Mook através de seus olhos. Parabéns pela sensibilidade e pelas lindas imagens.

    1. Rui Batista

      Obrigado pelas palavras, Luciana. Espero que o futuro te possa levar lá… vais adorar 🙂

  13. Michele lana

    Koh Mook amei conhecer a real life através da sua experiência. Fugir das multidões está cada dia mais difícil e encontrar uma cidade assim me alegra demais

    1. Rui Batista

      Michele, pequenos paraísos que importa saber preservar…

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