
O cansaço acumulado cria muitas vezes fortes dissabores. Erros que podem ser fatais. Hoje, apenas um pequeno “milagre” impede que a aventura nos antípodas comece muito, mas mesmo muito mal. Com lição memorável. E bem fundo no nosso bolso.
Rui Batista, Mr. Rui Batista, ouve-se insistentemente na instalação sonora do aeroporto de Perth, sem que eu dê por isso.
Tínhamos já cumprido com todas as formalidades burocráticas para entrar no país quando o Carlos e o Zé Luís foram levantar dinheiro. Abro a minha mala para pegar em barras de cereais, fecho-a, mas depois vejo o demoníaco sinal de “free internet” e voo até ao posto. Apenas para dar breve conta da nossa chegada, em plena segurança, à Austrália.

Minutos depois, sou abordado pelo Carlos, em alvoroço por causa da polícia…
“Rui Batista, Mr. Rui Batista”, é apelo que continua a soar, repetidamente, nos altifalantes. E eu persisto no meu sereno e relaxado mundo autista.
Segundos antes, quando ouviu o aviso, Carlos correu para o lugar onde era suposto eu estar. Encontra dois agentes com ar de quem nunca teve amigos apontando para a minha mala.
“É o Rui Batista?”
“Não, mas vou chamar”.

E é com cara de quem suspira por uma máscara ou um buraco bem fundo para me enfiar que me apresento aos dois possantes agentes da autoridade.
Um deles pede-me o passaporte, regista os dados, dá-me várias lições de moral e insina que me vai aplicar severa multa. Daquelas exemplares que jamais me fará cometer deslize semelhante.
Estou já resignado. Não quero complicações ainda maiores nas férias, muito menos que prejudiquem os meus companheiros de viagem. O Carlos, que continua comigo na conversa “mole”, ainda ameniza o ambiente.
No fim, ainda não sei como explicar, deixaram-me ir… com o mero conselho de que não volte a repetir a gracinha: os vários meios de alerta e ação já estão a ser acionados.
Minutos depois, ainda mal refeito da situação, saio do terminal para perguntar a três agentes policiais informação sobre transporte para a cidade. Só depois reparo que um deles é precisamente um dos “amigos” que estava determinado a explodir com a minha mala.
“Então, voltou a perder a bagagem?”, questiona, atirando sonora gargalhada trocista para os colegas.
O quarteto, registe-se, age com simpatia extrema. Um dos outros agentes chega mesmo a pedir mais perguntas. Não me quer com dúvidas. “É para isso que me pagam, para ajudar as pessoas”.
O sol brilha e às 08:00 a temperatura já vai nos 20 e poucos graus. Optámos por um táxi. Estamos a caminho de Fremantle.
