“Surpresa” Kaunas

“Surpresa” Kaunas

 Nunca uma cidade me impressionara tanto pela rigidez de feições. Se me perguntassem pelo Império das Trevas, não hesitaria em indica-lo. Pela ausência de cor. Na paisagem, mas principalmente nos rostos.
Poucos anos passaram e eis que tudo muda. A meus olhos, claro. O amorfo transforma-se em vivacidade. O estático em movimento. A resignação em iniciativa. O pesado negro deu lugar a vivos arco-íris.
Kaunas não é mais – insisto, a meus olhos – a antítese das mulheres de beleza singular aprisionadas num descabido purgatório.
O mausoléu que recorda os 150 mil judeus dizimados nestes campos parece ter deixado de pesar sobre a segunda maior cidade da Lituânia, outrora capital temporária do país. A relva cresce, as flores amarelas tomam conta da paisagem.
Passeio pela Laisvés, a avenida principal (1,7 km) que rasga o coração da cidade, unindo a parte velha à nova. Multiplicam-se os sorrisos. Os cordiais franzir de testa. Sou ladeado de esplanadas. Há vida em todo o lado. Gente que passeia. Gente que observa. Gente sorri e revela paz.
Kaunas era uma cidade fechada, como nenhuma outra. Na Lituânia, claramente sem paralelo. Era famosa pelo contraste da beleza ímpar das suas donzelas com a ausência de alma da cidade.
Sei que, à semelhança do Porto que me acolheu, também Kaunas está a ser transformada pelo fenómeno das companhias ‘low cost’. Serão alguns os “contras”, certamente mais os “prós”.
Há vida universitária. Os estrangeiros em Erasmus ajudaram a pintar o cenário em tons mais quentes. Há mais turismo e os locais investem em restaurantes, bares, comércio… tudo cresce. Floresce. Bonita, a Primavera de Kaunas…
A nossa anfitriã tem simpatia única. Proprietária e sommelier de um dos restaurantes da moda. “Tirei o curso no Porto, cidade que adoro. Aliás, nada há em Portugal que não ame. Os vinhos do Douro, o vinho verde, os enchidos… relembrar, faz-me querer voltar”. Uma urgência que ainda não tenho.
Restaurante é uma das referências de Kaunas. Na conturbada praça central, ainda na era das obras sucessivas. Num ambiente sofisticado, mas igualmente envolvente e familiar (o “rosto” da nossa anfitriã), nada lhe falta. Apenas mudar as vistas. Que este lugar seja interdito ao trânsito. Varram os carros. Acabem com as obras.
Servem-nos bacalhau. Infelizmente, fresco. Mas valeu a intenção. Paciente com as espinhas. Demasiadas. “Bacalhau-sardinha”, penso, sem abrir a boca. O gelado que termina o repasto é de bolacha. O único ingrediente que nos é revelado. Apenas sei que é “artesanal, receita exclusiva da casa” e que será o melhor que algum dia provei. Compensa uma refeição que primou pela apresentação e pecou pelo habitual: soube a pouco. Literalmente.
No caminhar pós-refeição, sem rumo, um grupo de jovens festeja a despedida de solteira da que parece mais velha. Uns trintas que parecem urgentes.
Uma amiga abraça-me com o olhar. O seu sorriso não me é indiferente. Aproxima perigosamente contacto visual. Palavras de oculto significado fluem com inesperada leveza. Não chegam a ouvir-se promessas. Caminhos separam-se. Fica a memória. Apenas. E a imagem da sensualidade que também a cidade redescobriu.
O tempo tem tempo. E damos-lhe mais sentido na igreja e mosteiro construído pelos monges beneditos no século XVII, sob a supervisão de mestres de Florença como Miguel Ângelo, Palloni, Joan Merli e Pietro Perti.
Napoleão andou por aqui. Na sua suicida peregrinação rumo à Rússia. Agora, jovens e mais experientes usufruem do espaço nos vários festivais de música que aqui decorrem durante a Primavera/Verão. Um cenário que lembra o melhor de tempos idos.
A história encontra-se em cada parede, nos múltiplos frescos que lhes dão vida. O recato já foi absoluto. Os monges trabalhavam e obrigavam-se ao silêncio. Uma paisagem bendita, difícil de conter no peito.
Hora de seguir….

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