Há “pecados” que são uma tentação. Sobram-nos exemplos quotidianos disso mesmo. O curioso é que nunca pensei que o desmazelo da barba por desfazer pudesse ser o melhor cúmplice. Já lá vamos…
Em breve é momento de oração e a Mesquita Azul fecha, meia hora antes, a possibilidade de visita. Só no fim da cerimónia o turista pode apreciar esta imponente e singular beleza arquitetónica. Ainda assim, a curiosidade é mais forte e tento a sorte. Afinal, nem sequer sou o “inimigo”. Religião não é para mim, porém isso não significa que sou avesso ao conhecimento.
A sorte e audácia. Habitualmente, conceitos que caminham juntos. Arrisco e, claro está, sou bem-sucedido (se fosse crente, acreditaria que, em viagem, tenho uma aura especial em momentos de decisão). Entro pela porta central, dos fiéis. Guardada por atentos seguranças, que, antes de mim, barraram a passagem a vários turistas. Dizem-lhe para voltar mais tarde. Descalço-me e faço como vejo fazer.
Já conhecia o espaço da véspera, ainda assim há sempre margem para o assombro. É, efetivamente, uma obra que inspira. Daí a surpresa pela inesperada informalidade no interior da mesquita, onde os seguidores de Alá tiram fotos, posam, brincam… À rigidez do respeito cristão nas igrejas, surpreende este Islão com um à vontade que reforça a minha já de si robusta confiança. 
Sento-me como outros. Recosto-me a uma coluna. Os homens vão passando uma divisória e vão-se juntando na dianteira, virados para Meca. As mulheres e crianças ficam atrás. Tal como dois ou três elementos masculinos. Ufa. A sua presença é a minha oportunidade de não me denunciar. Se obrigado a avançar, seria presa fácil a olhares mais atentos.
A própria equipa de segurança tira fotos a quem pede. Dispenso. A cerimónia vai começar, nem isso impede um ou outro flash. Há crianças que brincam no interior e ninguém reprime o seu ruído. A voz do Islão toma conta do lugar e o silêncio chega naturalmente. Há uns mais compenetrados do que outros. Toda a gente está no chão. Não há cadeiras. Uns em postura mais confortável do que outros.
Enquanto absorvo a experiencia, vou espreitando o panfleto com as breves explicações sobre o Islão. O que é e como funciona.
Um segurança diz-me algo e sorri. Respondo mostrando-lhe os dentes. Somente.
A cerimónia termina mais rápido do que imaginei. Não dura meia hora. É uma das cinco obrigatórias celebrações do dia. Acredito que a de sexta-feira, a mais importante de toda a semana, é maior e mais criativa.
O íman da Mesquita Azul espera-me. Tinha combinado entrevista com ele. Pego no calçado e avanço parcos metros para o centro de estudos islâmicos….
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